The Wife é um conto sobre a vida real e a ficção — e o túnel que liga as duas

Glenn Close encarna Claire Underwood a quilômetros de Washington

Glenn Close e Jonathan Pryce como Joan e Joe Castleman // Divulgação

Uma mulher genial vivendo à sombra do seu marido: todos já vimos essa história. Ela tem capítulos no cinema, na literatura, e na vida real. Seus ecos estão por todas as partes e seus motivos partem de raízes antropológicas antiquíssimas que somente na contemporaneidade vêm entrando em debate. The Wife, talvez o que venha a ser a magnum opus do diretor sueco Björn Runge, coloca esse assunto em pauta e o trata com a sensibilidade e a beleza que somente um artista consegue imprimir em assuntos tão obscuros.

O filme aborda a história de Joan Castleman (Glenn Close), esposa do ex-professor universitário Joe (Jonathan Pryce), que acaba de ser laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. O que faz a alegria do esposo desperta os fantasmas que ecoavam no subconsciente de Joan: ela é a verdadeira autora de todos os romances de Joe, marido infiel e problemático.

Joan Castleman (Jenn Close) // Divulgação

A abnegação de Joan é retratada com maestria — dos flashbacks à década de 60 ao presente nas frias paisagens suecas, ela parece estar fazendo tudo o possível para manter a ordem e a paz familiar. Engole sapos, aparta brigas entre o marido e o filho e tolera uma óbvia atração de seu marido por uma fotógrafa.

Quem assistiu House of Cards certamente não vai estranhar a figura de Joan Castleman — quase uma reencarnação de Claire Underwood. O arquétipo de ambas as personagens é quase o mesmo: a mulher silenciosa e complacente que faz figuração ao espetáculo do marido que, ao final, toma as rédeas de seu próprio destino. E não há nisso qualquer spoiler, uma olhadela no trailer do filme revela mais do que isso.

Mas o arco da heroína não é o único ciclo no filme: após essa inspiração na literatura, o filme bebe da fonte da realidade ao retratar perfeitamente o como um relacionamento abusivo funciona: após deixar a esposa oito horas escrevendo um livro em uma sala isolada, sem sequer ver seu filho, Joe retorna com chá e um afago nas costas. Durante uma briga, uma ligação abrupta com boas noticias de longe. Oferecer uma medalha do Nobel com o seu nome para a esposa é o auge do cinismo de Joe.

A direção do filme é inteligente: o começo da peça é predominantemente formado por uma câmera fixa, que mostra o casal interagindo com o ambiente ao seu redor; ao final, vemos uma câmera manual tremular por entre as discussões da família e as agendas paralelas que Joe e Joan mantêm quando estão longe um do outro. Uma cena tremendamente inquietante para o espectador é gravada com uma câmera travada e em close-up. A escolha não muito usual cumpre seu dever: difícil assistir sem se remexer um pouco na cadeira.

Um dos auges do filme acontece quando Elizabeth McGovern está interpretando uma autora lendo um trecho de seu livro para um grupo de pessoas e, ao ser apresentada e começar a conversar com Joan (até então aspirante a autora), dá um conselho incisivo: não o faça. Nunca pense que você conseguirá a aprovação deles. Dos homens. Ao ouvir como resposta que um autor tem que escrever, conselho sempre dado por Joe a ela, a autora responde: um autor tem que ser lido, querida.

O filme, contudo, não é perfeito: um dialogo em particular durante um dos flashbacks soa tremendamente artificial e — porque não — retirado de alguma novela de romance adolescente escrita por Stephenie Meyer. Isso se repete algumas vezes durante o filme, especialmente nos flashbacks interpretados por Annie Starke e Harry Lloyd. Ironicamente, uma das correções que Joan faz sobre o primeiro rascunho de Joe é justamente sobre seus diálogos. Eles não parecem reais.

Joan Castleman (Jenn Close) // Divulgação

O ultimo momento do filme pode ser classificado como dispensável. Com um take quase apoteótico nos seus últimos minutos, o filme é estendido para uma ultima cena no avião que parece deslocada — quase como se no final de toda a produção fosse decidido que ela deveria ser acrescentada para explicar as intenções óbvias ululantes de Joan.

Apesar de pequenos defeitos, o filme é indispensável. Após ser indicado para o Screen Actors Guild Awards, o longa caminha para o Oscar 2019 como forte competidor ao prêmio de melhor atriz para Glenn Close. A atriz brilha durante todo o filme, assim como Jonathan Pryce — que mesmo depois de ser derrubado de sua cadeira de protagonista após o primeiro momento do filme, prossegue como centro gravitacional da história.

The Wife é um conto sobre a vida real e a ficção — e o túnel que liga as duas. Quase metalinguístico, o filme faz uma quebra inversa da quarta parede — levando o artista a discutir as repercussões de seu trabalho na vida real, e vice e versa. Mais indispensável que para os autores, somente para os que lutam pela igualdade de gênero — que agora contam com mais uma obra temática para elencar ao lado de outros grandes trabalhos como Big Eyes.