#throwback

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Uma vida no passado ou no futuro não pode ser compartilhada com o presente. Pois, quem fica preso no tempo, fica preso sozinho.

Outrora, as boas lembranças eram guardadas em quadros. Lembro-me que em casa duas foram as paredes que receberam uma infinidade de pregos. Até a adolescência dos meus pais estavam lá emolduradas. No entanto, com a chegada do mundo digital, tudo foi para o HD analógico — o armário.

Temos também por máxima que “recordar é viver”. Concordo. Afinal, muitos foram os bons momentos vivenciados que carrego até hoje com grande alegria. Outros, nem tanto. E, assim, ao que tudo indica, através dos registros emocionais advindos das experiências, a nossa personalidade, etc., etc., vai ganhando forma.

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Tem aparecido com abundância — sejam as minhas ou dos amigos — , lembranças, ou a simples ‘#tb’, do que aconteceu nos anos anteriores. E essa coisa toda me gerou reflexões sobre as experiências e o tempo. Ou melhor, e como diria Zeca Baleiro, “é mais fácil mimeografar o passado / que imprimir o futuro”.

Por alguma razão, passado e futuro estão entrelaçados. E esse laço apresenta uma textura pegajosa. Algumas cidades, por exemplo, se apegam a algum momento histórico e dificilmente se desvencilham. Assim também acontecem com as pessoas: às vezes só querem viver no futuro; às vezes se enrolam em algum lugar do passado e custa soltá-lo. E uma vida no passado ou no futuro não pode ser compartilhada com o presente. Pois, quem fica preso no tempo, fica preso sozinho.

Sobre essa gangorra do tempo, recordo-me do documentário Um encontro com Lacan (abaixo) do psicanalista Jacques Lacan. Ainda que contestado por muitos da área, e isso não vem ao caso, o documentário revela características pessoais sobre o psicanalista que me marcou profundamente. Especialista em estudar o passado de seus pacientes, Lacan, era um homem exclusivamente do presente — e do futuro. Raro foram os momentos que alguém o viu narrando sobre o seu passado. No filme, pacientes também relatam que nunca tinham visto alguém dar tanta atenção enquanto outra pessoa falava. Isto é, Lacan vivia intensamente o presente.

Conforme mencionado no início, acredito ser saudável reviver instantes do passado, e há tempos preservamos tal comportamento. Mas, numa era em que pouco se consegue manter firmemente no presente, por que ainda somos bombardeados pelas redes sociais a voltarmos constantemente ao passado?

Difícil identificar as artimanhas do marketing.

Vou arriscar um palpite:

Pode ser que os marqueteiros “descobriram” que viver o presente tornou-se um lugar desagradável. Shows de música são a prova disso. Quem assiste a banda tocar são os celulares, enquanto que toda a emoção do momento está em algum lugar do futuro — nas futuras publicações. E depois isso vira lembrança. Que é lembrada por quem?

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“Suponhamos que o tempo seja um círculo fechado sobre si mesmo. O mundo se repete, de forma precisa, infinitamente”, aponta Alan Lightman, em seu livro Sonhos de Einstein. No mundo observado continuamente pelo mesmo nível de consciência, há de se assentir com Lightman. Ou seja, o tempo é um círculo que se repete precisamente em cada ato, palavra dirigida, shows gravados, lembranças compartilhadas e almas tocadas quando os olhares se encontram. E, talvez, seja por isso que, muitas vezes, reclamamos por passarmos pelas mesmas experiências.

Sempre vou recorrer às lembranças de que Lacan era um homem exclusivamente do presente. Isto é, pretendo aprender com as experiências passadas e apontar os sentimentos para o futuro. No entanto, tudo entrelaçado, caminhando junto, passado, presente e futuro. Pois, se em algum lugar do tempo ficamos grudados, pouco contribuiremos para o mundo. Afinal, quem fica preso no tempo, fica preso sozinho.

Fim do palpite.