Todas as vezes que eu decidi me distanciar

Fonte; pexels.com | Negative Space

Eu já ignorei 10 mensagens privadas no Whatsapp de uma “amiga” que tentou me intimidar com prints do Twitter num grupo de WhatsApp num grupo onde se discutia o cenário político do país.

Eu já recusei uma carona porque o marido (e motorista) de quem me oferecia declarou uma posição politica (vocês sabem qual) diferente da minha e que refletia diretamente contra quem eu sou e o que espero.

Eu já sai de uma mesa de amigos quando as expressões “lugar de fala”, “tudo é mimimi” e “não seja inocente” foram lançadas gratuitamente num papo.

Eu já abandonei uma noite de jogos porque notei que minha presença não era agradável unanimemente como compreendi que era.

Eu já deixei meu celular em modo avião para não receber notificações das redes sociais.

Eu já fui embora uma festa muito boa quando um amigo resolveu pontuar negativamente que a visão de minhas amigas sobre o feminismo era errada em níveis que somente a capacidade cognitiva elevada que ele possui podia significar.

Eu já deixei de responder uma provocação sobre um tema polêmico na internet porque eu sabia que meu desconforto respondendo era mais importante que minha resposta em si.

Eu já esquivei o olhar apreensivo de um amigo que notou meu desconforto e insatisfação pulando pelos meus olhos em forma de lágrimas (que secaram no meu dedo, antes mesmo de sair).

Eu já deixei para responder minha agenda disponível para minha terapeuta no fim do dia porque sabia que não haveria mais espaço na agenda dela para me atender.

Eu já fui para o quarto dormir quando não tive energia para apresentar uma alternativa para meu ponto de vista para meu marido.

Eu já fiquei aliviado quando aquele conhecido do Instagram esqueceu que me conhecia no corredor do shopping.

Eu já deixei dias passarem sem falar com um amigo que havia se distanciado sob a premissa de que ele talvez precisasse do espaço dele.

Sensível demais para uns. Passivo-agressivo de menos para outros.
Sensato demais para uns. Paciente de menos para outros.
Suficiente para mim.

Mais e mais, fica claro pra mim que a gente tem feito um esforço muito grande de dar sentido na realidade cruel que é essa de existir, resistir e coexistir na sociedade atual. E muitas vezes, o desafio está em manter um equilíbrio que permita saber exatamente a hora de sair de cena para reorganizar tudo que desembaralhou.

Todas as vezes eu me distanciei não me ofereceram o alívio permanente que eu buscava quando era complicado, desgastante ou pesado demais para que eu pudesse lidar.
Quem sabe talvez uns 5 minutos de tranqüilidade e paz de espírito?
No sexto minuto eu estava lá de volta.
Pronto pra me distanciar de novo.