“Todo ser é feliz quando cumpre o seu destino”

da felicidade de ser quem realmente somos

“The Voyage of Life: Childhood”, pintura de Thomas Cole, 1842

Nos tempos de furioso hedonismo em que vivemos, a ideia de felicidade sempre aparece associada ao prazer como estilo de vida. E assim como ocorre com a busca pelo prazer, o resultado da procura desenfreada por felicidade sempre acaba por revelar-se uma ilusão devastadora.

De fato, uma vida completamente hedonista nunca foi tão acessível como em nosso tempo, mas as estatísticas de suicídios continuam aumentando.

Sinteticamente, isso acontece porque encaramos o prazer e a felicidade como fins em si mesmos, e não como uma consequência de outras ações e objetivos.

Sem dúvida que o prazer sensual faz parte de nossa constituição humana; mas, ao almejá-lo como objetivo de vida, ele transforma-se em algo simplesmente inatingível. Porque um sentimento necessita essencialmente de algo que o desencadeie.

Assim, ao ser indagado a respeito de seus objetivos futuros, ninguém responderá: “O meu objetivo é ser feliz”, pois a felicidade futuramente atingida sempre será fruto de alguma outra coisa: de um conhecimento adquirido, de um trabalho executado — de algo que se realizou.

Uma necessidade essencial

Foi isso que o filósofo espanhol Ortega y Gasset quis dizer quando, na primeira das lições reunidas em seu livro “O Que é A Filosofia?”, afirmou que “o destino de cada um é sua maior delícia”. No decurso de uma vida na qual somos obrigados a agir para não sucumbirmos, somos felizes quando conseguimos realizar aquela atividade que é capaz de dar sentido à nossa vida — ao fazê-lo, estaremos atendendo ao que o filósofo chama de necessidade essencial:

“No ser vivente toda necessidade essencial, que brota do ser mesmo e não sobrevém acidentalmente de fora, é acompanhada de voluptuosidade. A voluptuosidade é a cara, a face, da felicidade. E todo ser é feliz quando cumpre o seu destino, ou seja, quando segue a tendência de sua inclinação, de sua necessidade essencial, quando se realiza, quando está sendo o que ele é de verdade. Foi por esse motivo que disse Schlegel, invertendo a relação entre destino e voluptuosidade: “Para aquilo que gostamos temos gênio”. E o gênio, isto é, o dom superlativo de um ser para fazer algo, sempre carrega consigo uma fisionomia de prazer supremo”.
O filósofo Ortega y Gasset

Nesse contexto, ao cumprirmos o nosso destino, teremos encontrado um equilíbrio entre o prazer e o sacrifício, pois para aquele que tem um objetivo concreto e essencialmente necessário, as dificuldades serão apenas mais um degrau na escalada que inescapavelmente ele deve realizar. Como já o exprimira a poeta Helena Kolody na síntese poética de um haicai:

“A via bloqueada
Obriga o teimoso viajante
A abrir nova estrada”.

Para quem está “cumprindo o seu destino”, a criação de novas vias é uma obrigação, e a felicidade — a “nossa maior delícia” — acaba sendo a única consequência possível para uma série de resolução de problemas que para outros lhes parecia insolúveis.

Muitas vezes, o pioneirismo é até mesmo inconsciente. E é assim que um conjunto de gestos simples e despretensiosos pode transformar-se num ato heroico: no heroísmo de, num mundo caótico, conseguir viver uma vida plena de sentido.