A família Baker: uma recepção inesquecível

Todos os caminhos levam a Resident Evil 7

Como a série evoluiu até chegar ao sétimo episódio da franquia

A franquia Resident Evil se tornou sinônimo de terror em videogames. Trata-se de uma marca tão icônica, que acabou excedendo o mercado de jogos eletrônicos e invadiu, com sucesso comercial longevo, até os cinemas. Seus títulos, em maior ou menor grau, ajudaram a disseminar a ideia de que a mídia interativa dos games poderia oferecer uma experiência baseada no medo.

A série possui dois grandes ciclos, se contarmos apenas os episódios canônicos principais. O primeiro deles, de Resident Evil a Resident Evil 3: Nemesis, passando pelo amado Resident Evil 2 e pelo até recentemente restrito ao GameCube, Resident Evil Zero. Nessa fase, os jogos ofereciam ao jogador belos cenários pré-renderizados, uma jogabilidade dura e limitada, apelidada de “tanque”, e uma apresentação cafona, inspirada em filmes B.

O remaster em full HD do remake do primeiro Resident Evil

O segundo ciclo, por sua vez, consiste nos jogos a partir de Resident Evil 4, capítulo da série que modernizou a forma de jogar com a visão “sobre os ombros” e zumbis inteligentes. A pegada mais lenta com quebra-cabeças e exploração de espaços fechados, similar ao gênero Metroidvania, deu lugar à ação desenfreada dos shooters contemporâneos, ainda que de forma mais limitada em RE4 e gradualmente amplificada em Resident Evil 5 e no lamentável Resident Evil 6.

“Ganados”: os zumbis astutos de Resident Evil 4

Se, por um lado, Resident Evil 4 representa um marco para toda a indústria pelas escolhas de game design influentes até hoje, o quarto episódio da franquia acabou por deflagrar uma crise de identidade. A proposta nuclear de Resident Evil parecia se perder a cada novo título. Resident Evil 7 prometia resolver esse dilema.

O que é Resident Evil, afinal?

Resident Evil foi, por muito tempo, o expoente do gênero survival horror. A série oferecia um mapa intrincado com várias áreas inacessíveis ao jogador. Na medida em que resolvia quebra-cabeças e colecionava itens, novas localidades se abriam. A história servia como motivador figurativo que conduzia e manipulava o jogador a seguir adiante para decifrar os mistérios que se colocavam. O clima de horror e sobrevivência restava sobre dois aspectos principais: a temática dos zumbis e a necessidade de se racionar munição, fazendo escolhas difíceis do que guardar no sistema de inventário.

Um dos mapas de Resident Evil 2

O grande problema, que culminou com a revolução de Resident Evil 4, residia no fato de que os controles do personagem eram vagarosos e imprecisos, sobretudo para atirar. Além disso, muitos quebra-cabeças sem sentido afastavam os jogadores menos hardcore, os quais não conseguiam estabelecer um contrato de fidúcia com o jogo, ou seja, acreditar que aquilo seria minimamente aceitável até dentro de um jogo de videogame. No fundo, sempre foi frustrante empacar em puzzles idiossincráticos, assim como o chamado backtracking, ou seja, o imperativo de ter que ir e voltar diversas vezes pelos mesmos cômodos repetitivamente.

A leva que se seguiu com o 4, o 5 e o 6 continuou a construção de toda uma mitologia, um verdadeiro universo transmídia, cujo escopo abrange inclusive livros e spin-offs, episódios paralelos. Essa, portanto, seria a permanência mais significativa da série nesse período de transição. O restante foi relegado ao museu da franquia. A experiência cinematrográfica envolveu o uso de QTEs ou quick-time events — apertar o botão certo na hora correta em cut-scenes — , privilegiar elementos de ação e a ideia de replayability, com rankings, estatísticas e divisão do jogo em capítulos.

Resident Evil 5 foi feito para ser jogado múltiplas vezes atrás de resultados melhores a cada rodada

O afastamento do horror tradicional gerou a nova crise da franquia. Resident Evil 5 demonstra inequivocamente essa realidade ao ser considerado um bom shooter cooperativo, mas um Resident Evil medíocre. RE6 tentou consertar os problemas da série com três campanhas com pegada diferente, mas apenas evidenciou a perda da alma da marca. O sinal vermelho acendeu e Resident Evil 7 surge dos escombros do fracasso do último episódio.

Quais as respostas de Resident Evil 7 para as questões postas até agora?

Resident Evil 7 se propõe a retomar as raízes de survival horror da série. Para muitos, bastaria retornar ao estilo anterior com gráficos melhorados e uma recauchutada nos comandos. No entanto, a Capcom parece discordar dos puristas. Aliás, não concorda de tal modo que adotou uma radical mudança de perspectiva para a visão em primeira pessoa. Não que a série não tenha experimentado essa característica antes, mas restringia-se aos jogos de “tiro em trilhos”, como aqueles fliperamas clássicos.

A visão em primeira pessoa

O choque da troca da terceira para a primeira pessoa não sobrevive a alguns minutos vivenciando o sétimo episódio. Há um retorno aos mapas de exploração do início da franquia, inclusive com inúmeras referências icônicas aos quebra-cabeças, chaves e outros itens e situações antigos. A Capcom fez um verdadeiro tributo ao legado dos primeiros jogos. E, no final das contas, em primeira pessoa, a sensação de horror aumenta, pois o jogador se sente mais imerso na ação, sem haver a distância subjetiva entre a pessoa de quem joga e o personagem representado pelo avatar. Mais do que isso, o campo de visão diminui, elevando a tensão.

A sacada fundamental da publisher japonesa foi preencher os buracos da experiência clássica de Resident Evil com algumas novidades. O que entendiava um sem número de gamers era o marasmo que poderia ocorrer durante a exploração e a solução de puzzles. Muitas vezes, os jogadores ficavam perdidos sem saber o que fazer. A Capcom, então, introduziu figuras que perseguem constantemente o jogador, inspirada nos games indie de terror, cujo sucesso deve ter aberto os olhos da empresa. Uma solução elegante porque mata dois coelhos com uma cajadada só: o player se sente pressionado — logo, mais tenso e, provavelmente, com medo— e o desenvolvedor pode, nesse processo, direcioná-lo rumo aos objetivos do game sem que haja uma seta ou qualquer outro recurso literal.

A ideia da perseguição é uma constante em Resident Evil 7

Cumpre dizer que a dificuldade dos quebra-cabeças diminuiu significativamente. Um deles, inclusive, oferece sua resposta logo ao lado. Fica evidente o esforço para tornar Resident Evil 7 uma experiência mais fluida, ainda que isso afaste fãs hardcore. Ademais, o deslocamento da perspectiva de câmera enfraquece uma das marcas da série: a iconicidade de seus personagens. Ethan, o protagonista, passará incólume em comparação à exposição que Chris e Leon tiveram na saga anteriormente.

Um fato curioso do jogo é a dificuldade decrescente dos chefões. Não se engane: não é que eu tenha melhorado com o tempo, mas a reconhecida curva inversa de desafio com destaque para o chefão final. Outro problema são as justificativas fracas que amarram a narrativa. A mídia dos videogames evoluiu muito nos últimos anos e a própria franquia Resident Evil se empenhou em construir um mundo crível. Em vários momentos, o jogador mais atento se perguntará as motivações por trás das decisões de Ethan e, sobretudo, o porquê de não fazer o oposto do que está fazendo.

Resident Evil 7 foi lançado em janeiro de 2017 para PS4 (com suporte à realidade virtual), Xbox One e PC

Existem ainda problemas menores: a cobrança abusiva por conteúdos que poderiam ter vindo na compra principal; e a falha constante de carregamento de texturas, resultando em um visual borrado. De qualquer modo, Resident Evil 7 parece dar respostas convincentes aos dilemas enfrentados até aqui. A retomada da mansão a ser explorada a partir de quebra-cabeças não sucumbe ao tédio que muitos denunciavam no modelo tradicional. A experiência final atinge altos níveis de tensão e envolvimento do jogador. Poucos games oferecem esse grau de qualidade com requintes de vísceras e sangue.

Agora é observar até quando essa fórmula funcionará com o público.