Tony seja louvado?

Os deuses modernos usam nanotecnologia?

Elvis Picolotto
Nov 1 · 4 min read
Fonte: marvel comics on twitter

Não há nada que o homem tenha feito de importante, que antes não tenha sido sonho impossível de alguém. Tudo na história da tecnologia humana, antes foi sonhado e só depois, realizado.

O salto dado nos anos 2000 nos permite, porém, sonhar mais longe do que nunca. Colonizar o espaço, turistas na órbita da terra e prolongar a vida humana muito além dos cem anos são alguns dos nossos sonhos, hoje, segundo as publicações científicas mais respeitadas. Para Yuval Noah Hahari, autor do Best Seller Sapiens, Uma Breve História da Humanidade, a morte não passa, para os que estudam como vencê-la, de um problema técnico esperando, portanto, a técnica ser aprimorada a ponto de ser superado.

A tecnologia, dessa forma, se torna uma espécie de deidade, na qual depositamos nossas crenças. Acreditamos que ela nos salvará de todos as dificuldades humanas, basta que paguemos o dizimo: recursos e pesquisa, e será tudo questão de tempo, até mesmo a tão sonhada vida eterna.

As guerras, a fome, as doenças e a violência estariam com os dias contados, esperando apenas que a nossa capacidade técnica de produzir remédios, armas, alimentos e assim, paz, alcance o nível necessário para suplantar todas as dores.

Ao longo da história, sempre elegemos nossos salvadores. Os Deuses indígenas, a natureza, o Deus Cristão ou muçulmano, os mitológicos deuses da Grécia e os exóticos protetores da Pérsia, todos eles foram, durante um tempo, nossos maiores cofres de esperanças. Rezávamos, oferendávamos e cumpríamos rituais para que, alcançando o nível necessário de devoção e desenvolvimento ritualístico, eles nos ajudassem a suplantar a fome, a guerra, e qualquer miséria humana. Ou, de alguma forma, nos ajudassem a conviver com essas intempéries.

Que outro mito, ou alegoria, nos serviria mais, nesses tempos atualizados em tempo real, do que a de Tony Stark?

Ele, gênio, playboy e filantropo, domina o suprassumo da tecnologia humana. Construiu, com ela, um avatar de si mesmo, blindado, armado até os dentes. E, no último dia de sua luta, morreu por nós, aguerrido junto aos seus vingadores — ou apóstolos? — derrotando aquele que queria, de toda forma, nos destruir. Tony é a imagem e semelhança daquilo que queremos ser. Engraçado, irônico, galã e mulherengo, sempre jovem e bem vestido, incorpora qualidades que a propaganda pop por décadas nos condicionou a amar.

Thanos poderia representar o mal real, aquele que nos aflige: aquele que nos considera uma praga insignificante a ser eliminada. Careca e antiquado, porém poderoso, é a antítese perfeita de Tony. Acredita não haver esperança fora da aniquilação e esteve próximo de conseguir. E a tecnologia de Tony e seus seguidores, essa religião pós-moderna, nos salvou nos cinemas, sob aplausos e lágrimas de bilhões de expectadores — ou fiéis.

Tony alcançou a vida eterna, em seu mito ficcional, pois nunca deixará de existir enquanto personagem, e em sua existência prática: deixou sua inteligência artificial, apta a continuar seu legado, dotada de sua memória e seu conhecimento técnico, como um verdadeiro espírito de Tony, a andar pelos cabos de fibra ótica em sua onipresença eterna, e a comandar um império tecnológico onipotente de nano robôs.

Ele, para os historiadores do futuro, será como Zeus, para os historiadores de hoje? Será estudado, avaliado, pesquisado, na busca por compreensão da sociedade que o criou? Ele já o é; milhares de estudos científicos e sociais já estudam os mitos atuais, os super-heróis que nos defendem nas histórias, como alter egos criados pelos criadores de histórias mais perspicazes do planeta, os escribas do nosso tempo, chamados de roteiristas.

Elon Musk, dizem, seria o equivalente a um profeta, a afirmar que sim, temos o homem de ferro andando entre nós. A desafiar o espaço, com seus carros elétricos e sonhos insanos como o de viagens a marte. Tão insanos como deviam ser os sonhos dos portugueses de chegar as Índias contornando a África.

Imagem: Gustavo Couto

Os historiadores do futuro, provavelmente usando a mais avançada tecnologia de análise digital, nem precisarão avaliar o numeroso número de imagens de Tony Stark nas casas de milhões de jovens, em suas estantes, como verdadeiras obras sacras.

Concluirão, não sem algum debate, que se tratava de um ser dotado da idolatria comum aos deuses. E, ao olhar para seus súditos, verá que a religião segue falhando no objetivo, sem falhar nos mitos jamais.

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Elvis Picolotto

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Jornalista, membro do Núcleo de Estudos em Cinema da Universidade de Passo Fundo e apaixonado pela literatura latino-americana.

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