Tornando-se mulher: 20 filmes para quem se ferrou no ENEM 2015

Selfie icônico para aqueles que xingaram muito no Twitter.

Navegando sem muito compromisso, encontrei na internet uma divertida analogia a respeito do que foi o Exame Nacional do Ensino Médio 2015, realizado em todo o Brasil no último fim de semana.

Nela, a autora, chateada por não ter participado da prova, dizia que o ENEM:

“É como uma daquelas festas chatas das quais você sempre participou e que, na única vez em que não pôde ir, foi sensacional”

Exageros à parte, a inspiração da frase, como você já deve saber, foi a riqueza temática do teste.

Abordando desde o básico para os seus próprios parâmetros até temas inerentes à variedade cultural do país, havia no exame questões que discorriam sobre as tradições e valores da comunidade afro-brasileira, conceitos básicos relacionados ao movimento feminista, indagações sobre diferenças sociais em território nacional e tantas outras que desafiavam aqueles com dificuldade de enxergar o todo com a devida atenção.

Ou seja: essa sim foi uma baita prova educativa!

Mas em plena era na qual muitos jovens trocam a profundidade dos livros pelas duvidosas pílulas de conhecimento receitadas pelas redes sociais, acabou faltando a muita gente a bendita capacidade de discernimento.

Pois o que pude perceber nas últimas horas é que a inacreditável reação de muitos ao comentado tema de redação (“A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”) é uma mistura de analfabetismo político e ódio ao atual governo que trouxe à tona aquele que é o óbvio e maior problema de quem precisará repetir o exame em 2016: a pura e simples falta de estudos. Ou desinteresse, pra ser mais exato.

Mas o problema não se resume a isso: ao conferir as questões presentes na prova, notei, ao contrário do que os mais exaltados afirmam, apenas uma bela seleção de fatos históricos que deveriam fazer parte do repertório de qualquer aluno que tem como objetivo entrar numa faculdade. No implausível frigir dos ovos, a situação culminou numa inacreditável leva de reclamações que tratavam necessidade de acesso à informação como… doutrinação.

Vamos abrir o jogo, queridos revoltados: pouco interessa se vocês são incapazes de compreender a importância do Feminismo para os avanços sociais da mulher. O movimento existe e ponto final. Quem o fundamentou, quais seus principais desdobramentos e quais foram suas principais conquistas são informações que precisam fazer parte da preparação de todos os participantes. E o mesmo pode ser dito sobre as crenças e costumes alheios, ainda que haja quem não acredite ou concorde com eles.

Mas a ignorância comeu solta no pós-exame, tratada a partir de bilateralidades infantis até mesmo para o mais dengoso dos bebês.

Assusta, por exemplo, saber que para muitos estudantes frustrados e até políticos (extremistas, vá lá) Simone de Beauvoir é apenas uma “esquerdista” qualquer, tradições próprias da comunidade afro não passam de “macumba” e violência contra a mulher virou “coisa do PT”.

“A gente pode comparar o Enem a um fórum de debates sobre direitos e deveres dos cidadãos. É como se o Enem convocasse 7 milhões de estudantes para discutirem uma questão, e uma questão social pertinente como a violência da mulher. Acredito que foi uma escolha muito feliz do tema porque ainda não conseguimos vencer essa chaga tão horrorosa. A aplicação da lei ainda não se efetivou” — Maria Aparecida Custódio, do Colégio Objetivo, em entrevista ao G1.

Dessa forma, também cabe a mim contribuir com a importância do debate iniciado pelos professores responsáveis pelo ENEM e, dentro das minhas possibilidades, indicar obras bacanérrimas para aqueles que precisarão passar mais alguns meses estudando para 2016.



Mas é claro que não vou indicar livros, já que muitos devem ter sido mencionados durante os meses de estudos dessa galerinha desatenta, optando, ao invés disso, pelos meus queridos filmes como forma de dar aquela força aos reprovados.

O contexto da breve seleção que fiz — e que pode ser complementada por você com inúmeros outros exemplos — é a história dos movimentos sociais destinados à igualdade entre gêneros, claramente o calcanhar de Aquiles de muita gente.

Nesse sentido, procurei reunir obras de várias partes do mundo e, em sua maioria, posteriores às décadas de 60 e 70, períodos fundamentais para a revolução sexual e também para a compreensão do universo feminino hoje em dia.

E lembre-se: por mais que você, por motivos obscuros, indecifráveis ou risíveis como os de Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, não concorde com o Feminismo, já deve saber que achismos são irrelevantes para a causa e, claro, não são pauta do exame, certo?

Pois bem, vamos ao que interessa. Abaixo, 20 filmes essenciais para quem se ferrou no ENEM 2015.


1. Jeanne Dielman

Título Original: Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles

País/Ano: Bélgica/França, 1975

Direção: Chantal Akerman

Sinopse: Uma mulher solitária mantém um triste cotidiano no qual repete afazeres de casa enquanto cuida dos filhos e, à noite, se prostitui como forma de complementar sua renda. Mas algo impensável acontece e sua rotina antes automática se transforma radicalmente.

Considerado por muitos como a primeira obra-prima do feminismo no cinema, o filme de Chantal, falecida há pouco tempo, fascina pela forma com que testemunha de maneira quase obcecada os gestos de sua protagonista, ao passo que a complexa figura de Jeanne continua levantando riquíssimos debates por onde passa.


2. Uma Canta, a Outra Não

Título Original: L’une chante, l’autre pas

País/Ano: Venezuela | França | Bélgica, 1977

Direção: Agnès Varda

Sinopse: Varda cria uma pintura repleta de otimismo sobre o movimento feminista dos anos 70, utilizando para isso protagonistas que encontram na amizade e na irmandade formada uma arma contra todo tipo de opressão.

Detalhe para a frase presente no topo do cartaz, certamente um dos pesadelos de muitos participantes do ENEM 2015.


3. O Casamento de Maria Braun

Título Original: Die Ehe der Maria Braun

País/Ano: Alemanha Ocidental, 1979

Direção: Reiner Werner Fassbinder

Sinopse: Uma viúva da Segunda Guerra Mundial tenta se ajustar na vida em meio a uma Alemanha repleta de escombros e sofrimento. Uma pancada em forma de filme.


4. Women Without Men

Título Original: Zanan-e bedun-e mardan

País/Ano: Alemanha | Áustria | França | Itália| Ucrânia | Marrocos, 2009

Direção: Shirin Neshat, Shoja Azari

Sinopse: Em pleno Irã de 1953, quatro mulheres encontram independência e companheirismo quando passam a compartilhar entre si seus segredos e suas esperanças.


5. Female Trouble

Título Original: Idem

País/Ano: USA, 1974

Direção: John Waters

Sinopse: Uma colegial foge de casa, fica grávida durante uma carona e acaba se transformando numa modelo que tem como função ser fotografada enquanto comete crimes. É John Waters, amigos!


6. A Question of Silence

Título Original: De stilte rond Christine M.

País/Ano: Holanda, 1982

Direção: Marleen Gorris

Sinopse: Tratado como um clássico feminista, filme de Gorris (primeira diretora a ganhar um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro) procura explorar as mazelas causadas por uma sociedade dominada pela opressão masculina a partir de uma trama centrada em três mulheres acusadas de matar um homem. Aqui, o foco é um sistema judicial oitentista incapaz de tratar de maneira igual homens e mulheres.


7. Tete-a-Tete (2013)

Título Original: Idem

País/Ano: França, 2013

Direção: Lisa Reznik

Sinopse: Curta-metragem é um iluminado retrato da conexão mantida entre os filósofos existencialistas Simone de Beauvoir, ícone central do Feminismo, e Jean-Paul Sartre.


8. Daughters of the Dust

Título Original: Idem

País/Ano: USA | UK, 1991

Direção: Julie Dash

Sinopse: Dash é responsável por dirigir o primeiro filme encabeçado por uma mulher afro-americana a ser distribuído comercialmente nos USA. Na trama, acompanhamos um olhar marcante sobre 3 gerações das chamadas mulheres Gullah.


9. Princesa Mononoke

Título Original: Mononoke-hime

País/Ano: Japão, 1997

Direção: Hayao Miyazaki

Sinopse: San, protagonista do filme, é uma heroína típica do cinema de Miyazaki, capaz de subverter estereótipos femininos e decidida a ignorar qualquer delicadeza encontrada em outras escolas de animação. Precisa dizer mais?


10. Três Mulheres

Título Original: 3 Women

País/Ano: USA, 1977

Direção: Robert Altman

Sinopse: "Possivelmente o mais impactante e mais falado 'filme sobre mulheres' da história". Apesar do exagero de Molly Haskel, Altman cria uma obra memorável na qual mulheres decidem deixar de lado um cotidiano repleto de sofrimento e, com isso, encontram refúgio e esperança umas nas outras.


11. A Última Amante

Título Original: Une vieille maîtresse

País/Ano: França | Itália, 2007

Direção: Catherine Breillat

Sinopse: Liberdade sexual, malícia e coragem. Filme de Breillat, baseado em livro de Barbey d’Aurevilly, é um espetáculo visual capaz de ressaltar toda a agressividade de sua protagonista a partir da segurança que ela possui em relação ao próprio corpo. Coisa fina.


12. Um Tiro para Andy Warhol

Título Original: I shot Andy Warhol

País/Ano: UK | USA, 1996

Direção: Mary Harron

Sinopse: Centrado em Valerie Solanas, feminista radical e criadora do manifesto SCUM, filme trata sobre o atentado orquestrado contra Andy Warhol no ano de 1968. Quer ficar mais interessado? Harron é a responsável pelo satírico Psicopata Americano (American Psycho), protagonizado por Christian Bale.


13. Thelma & Louise

Título Original: Idem

País/Ano: USA, 1991

Direção: Ridley Scott

Sinopse: Garçonete de Arkansas e dona de casa detonam um estuprador e iniciam uma fuga com o auxílio de um invocado Thunderbird '66. FODA.


14. Smithereens

Título Original: Idem

País/Ano: USA, 1982

Direção: Susan Seidelman

Sinopse: Um drama punk que conta com uma mulher repleta de imperfeições — e, por isso, real — como seu cerne. Seidelman cria, com isso, um misto de estilização e crueza que traduz bem a mente agitada de sua protagonista, culminando num retrato visceral de uma feminilidade ansiosa por gritos, riffs e atitude.


15. A Mulher Sem Cabeça

Título Original: La mujer sin cabeza

País/Ano: Argentina | França | Itália | Espanha, 2008

Direção: Lucrecia Martel

Sinopse: Martel flerta aqui com o gênero policial enquanto resvala no debate sobre classes, contando, durante o caminho, a história de uma mulher envolvida num acidente fatal e que precisa ordenar seus pensamentos e suas emoções na busca por uma solução.


16. Anjos Rebeldes

Título Original: The Trouble with Angels

País/Ano: USA, 1966

Direção: Ida Lupi

Sinopse: Lupi dá show ao tomar conta tanto da produção quanto da direção e do roteiro. Tratando, como de costume, sobre sexualidade, independência e dependência no universo feminino, seu filme acompanha mulheres que, presas numa escola Católica, discorrem sobre seus sonhos e seus desejos num micro-universo no qual homens não estão presentes.


17. Female Misbehavior

Título Original: Idem

País/Ano: Alemanha | USA, 1992

Direção: Monika Treut

Sinopse: Annie Sprinkle e Camille Paglia estrelam filme da celebradíssima diretora/roteirista, no qual sexualidade transgressiva, performances femininas e outras jornadas ligadas ao prazer destinado à mulher dão o tom da vez.


18. I Was a Teenage Serial Killer

Título Original: Idem

País/Ano: USA, 1992

Direção: Sarah Jacobson

Sinopse: "Me considero uma cineasta feminista, definitivamente. A razão de ter começado a fazer filmes é que eu nunca vi garotas legais em obras que vi. Não tenho medo da palavra 'feminista'. Sei que tem conotações negativas para algumas pessoas, mas aí penso: 'por que eu deveria deixar a estupidez de outras pessoas sacanear o que quero fazer?'"

Preciso falar mais algo sobre essa incrível cineasta do underground americano?


19. Crisântemos Tardios

Título Original: Zangiku monogatari

País/Ano: Japão, 1939

Direção: Kenji Mizoguchi

Sinopse: Retrato inesquecível da exploração e da marginalização das mulheres na sociedade japonesa, filme é uma coletânea de experiências vividas pela irmã e pela mãe de seu diretor. E basta notar o belo cartaz - imortalizado por um olhar feminino que se nega a retribuir o de seu companheiro - para saber ser essa mais uma obra inesquecível de Mizoguchi.


20. Dyketactics

Título Original: Idem

País/Ano: USA, 1974

Direção: Barbara Hammer

Sinopse: Cineasta experimental e revolucionária, Hammer dirige aqui o primeiro filme a apresentar lésbicas fazendo amor, ficando latente seu conhecido interesse por temas como gênero, sexualidade e envelhecimento. Ou seja: aqui reside um belo debate sobre o corpo e suas mais fascinantes possibilidades.


Menção Honrosa: A Trilogia das Irmãs

Título Original: Schwestern oder Die Balance des Glücks / Die bleierne Zeit / Paura e amore

País/Anos: França | Itália | Alemanha Ocidental, 1979 |1981|1988

Direção: Margarethe von Trotta

Sinopse: Uma das principais líderes do novo Cinema Alemão e cineasta feminista fundamental, von Trotta cria com sua trilogia um verdadeiro monumento no qual mulheres rejeitam a sociedade tradicional depois que eventos traumáticos arruinam suas vidas. Mais que uma masterclass de cinema, seus filmes são capazes de, sozinhos, esclarecer os fundamentos do feminismo e, mais que isso, justificar a dura batalha enfrentada pela suas componentes ao longo dos anos.


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Ah, e se você faz parte do grupo citado no título, boa sorte em 2016!