Três filmes, três sacrifícios

Andy deve deixar Woody

Quando vocês se sentarem para assistir um filme, façam valer a pena aquelas horas à poltrona. Em geral, ao “The End”, pouco se carrega na bagagem. Muito pouco. As pessoas geralmente lembram de algum mistério, algo fora da curva, como o defunto Bruce Willis de O Sexto Sentido. Porém, adivinhar uma charada ou desvendar um mistério — apesar de fazer parte — é pouco. E corre-se o risco de tudo se tornar apenas um jogo.

[Atenção: SPOILERS]

Finalmente assisti ao filme Divertida Mente e não tive como não relacioná-lo a outros dois: Operação Big Hero e Toy Story 3.

Seria possível ressaltar vários pontos em cada um deles; valores e lições que se poderiam levar a tiracolo. Mas por economia de tempo e espaço, ficarei com a amizade e com o sacrifício.

Ora, duas palavras que parecem um tanto “fortes” quando se trata do mundo infantil. Mal se sabe se os amiguinhos se manterão amiguinhos por muito tempo e sacrifício, bom, é uma espécie de palavra quase maldita. Se dissermos para uma criança que ela deve se sacrificar por algo, nossos amigos imaginarão pequenos trabalhadores no campo carregando fardos de cana-de-açúcar.

Mas ali, na tela, amizade e sacrifício, disfarçados em cores e em personagens divertidos, tiram a atenção dos fiscalizadores da infância alheia e abrem espaço para que a imaginação moral das crianças floresça.

Andy — o menino de Toy Story — , ao deixar o boneco Woody e sua turma na casa de uma criança mais nova, que brincará com eles por mais tempo, mostra que é preciso crescer, que o tempo passa e seus amigos ficarão abandonados no porão da casa e da memória se não deixá-los como presente. É um sacrifício, mas precisa ser feito.

Em Operação Big Hero, a amizade é algo ainda mais forte, pois toca o elemento eterno. A morte do irmão de Hiro Hamada é um tempero muito mais cruel para um menino que já vive sem os pais. De alguma forma, Baymax — o robô — também é Tadashi, o falecido irmão, morto quando o Centro de Tecnologia pega fogo. Nele está a antiga amizade e a segurança típica do irmão mais velho.

Ao final, quando o robô, num ato de sacrifício, salva Hiro de outra dimensão, mandando-o de volta, o menino sente o abismo. De alguma forma ele perdeu de novo o irmão. Porém, há uma maneira de recriar Baymax, o que não anula o belo sacrifício do original, mas tudo ainda se encaixa e a memória e inteligência de Hiro estão intactas.

O sacrifício de Baymax

Engana-se o leitor que, ao levar o sobrinho ao cinema, pensa que é apenas uma tarde de diversão. Não, não é uma questão de ser chato ou pedante. A diversão — é claro! — faz parte. Mas você pode levar para casa uma compreensão mais profunda do que acabou de ver. E mais, contribuir muito para o futuro dos pequenos, dando-lhes modelos e cenários imaginativos com os quais eles poderão se virar quando estiverem mais velhos e a vida os fizer deixar os brinquedos, encarar o resultado de um acidente ou simplesmente mudar de cidade, deixando para trás amizades e tantas outras coisas importantes.

Tudo isso também está em Bing Bong, o amigo imaginário de Riley em Divertida Mente. Sem sarcasmo, mas há algo ainda mais cruel. Há, ainda, um sacrifício mais difícil, ou até mesmo pleno, completo. Pensemos, Andy ainda pode se lembrar dos brinquedos. Woody irá passando — e aprendendo como ele também aprendeu que deveria deixar seu amigo — de mão em mão, tornando-se o melhor amigo de outras crianças. Ainda assim, Andy poderá, aos 30 anos, recostar-se no sofá da sala, vendo seu filho pequeno brincar e lembrar de Woody. Baymax, após sacrificar-se para salvar Hiro, é “recriado” pelo garoto e de alguma forma, graças à tecnologia — tudo muito entre aspas — viverá ainda muito mais tempo, mantendo laços.

Ao contrário, Bing Bong será esquecido. Sumirá completamente do mapa… será varrido. Ele não será mais trazido à consciência. E o que ele faz? Ele se sacrifica pela melhor amiga, ainda que de tudo isso saiba. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos.” (São João 15,13). As mãos no ombro de Alegria, ao pular do foguete mágico em que eles tentam sair do abismo do inconsciente, é uma despedida do Ser para sempre. Não haverá nem sequer lembrança do que foi Bing Bong.

De alguma forma estará impregnado ali, na cabeça das crianças, que sacrifícios são para serem feitos. Sacrifícios extremos, como os de Big Hero e Divertida Mente, e sacrifícios menos extremos, menores, como o de Andy.

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