Hugo Pilger, Rodrigo Maranhão, Lenine e Leo Gandelman: jam session em escola carioca (Andrea Testoni/Edem)

Três certezas e uma dúvida sobre a música

Reflexões de debate com músicos-pais de família

Todo pai ou mãe já deve ter se perguntado o que deixará aos filhos. Respondo mais idealista do que materialista: julgo que a melhor herança para Lila, de 20 meses, seria o gosto pelas artes.

Soei pretensioso? Ok, afinal, tal riqueza depende mais dela. Mas por que não estimular?

Uma recente mesa redonda na escola de Lila reavivou minha dúvida sobre o papel dos pais nas relações de seus filhos com as artes. O tema na Edem era “O que é música boa?”, mas essa questão, a meu ver, levou à outra. Saí convicto de que deixar filhos perto das artes não é um direito, mas dever dos pais. O que os filhos farão? Aí já é direito deles. (Espero estar contribuindo não só expondo Lila a rádios e CDs, mas levando sempre às rodas de bebês do musicoterapeuta Luis Aragão, fora suas aulas de musicalização na escola…)

1. “É a música que nos escolhe”

Crescer com música influencia muito, mas não tudo (foto: Ryan McGuire/Pixabay)

Cheguei àquele debate atraído menos pelo tema-título do que pelos envolvidos: Lenine, Leo Gandelman, Rodrigo Maranhão e Hugo Pilger, mediados pelo professor de música Gustavo Destord. Vê-se por suas vidas que crescer perto da música influencia muito (o saxofonista Gandelman, p. ex., é filho de maestro e professora de piano). Mas não influencia tudo… Pilger se tornou violoncelista ao se encantar com o cello de um professor, que retribuiu seu entusiasmo com uma bolsa para estudar o instrumento. “Concordo que não é a gente que escolhe a música; ela nos escolhe”, disse. “Mas nem todos têm condições ou estão no lugar certo para receber aquele chamado.”

A música passa de geração como empresas familiares, mas não é cultivada sem esforço.

Lenine, os irmãos e os pais tocavam repertórios uns dos outros e esse rodízio de cadernos o fez crescer eclético, o que não foi valorizado por um ex-professor seu no conservatório, que o repreendeu por tocar música popular. “Minha relação com a academia foi frustrante, não encontrei pares e fui tolhido por um quadrúpede”, lamentou Lenine, para quem sua demora em ter retorno da música poderia ter afastado os filhos dessa arte. Da plateia, seu filho João admitiu que a saga do pai o fez evitar a carreira até não conseguir mais se ver fora dela. (Gandelman foi outro que tentou fugir da música, pela fotografia, mas também não resistiu.)

“Filho, gosto de você porque nunca me ouviu.” Esse mea-culpa foi ouvido pelo cavaquinista Rodrigo Maranhão na voz do pai, que via a profissão do filho como hobby. Músico amador, seu pai quis criar bloco de Carnaval quando Rodrigo tinha 11 anos. Mas foi este que ganharia fama ao comandar multidões com o bloco Bangalafumenga em seguidos Carnavais cariocas.

Cá comigo, lembrei de meu pai que, menino em Bom Conselho (PE), passava pela casa de uma professora de piano e adorava aquele som, mas se resignava por seus pais não poderem pagar aulas. Quando pôde, matriculou a filha no piano para oferecer o que lhe fora privado.

2. “Música boa é a que a gente gosta”

Lenine, Gandelman e seus instrumentos não só de trabalho (foto no Parangoledem)

Só curtimos o que conhecemos — aliás, o ignorado é sempre um depreciado. Daí a resposta ligeira dada à questão inicial do debate (“o que é música boa?”) por Judy Galper, diretora da Edem: “música boa é a que a gente gosta”. Essa definição, que debatedores tomaram como irrefutável e — na piada de um deles — perfeita para exaurir o debate, tangenciou algo crucial.

Uma música pode soar melhor dependendo da hora e de cada um. Parece óbvio, mas os artistas no palco deram provas inegáveis. Lenine citou redações de crianças de Recife sobre “Leão do norte”, que ouviram cada qual a seu modo, e contou do pecuarista de São Carlos que disse que a produção leiteira subiu 18% com as ordenhas ao som de seu hit “Paciência” (“é música boa para as vacas”, se divertiu o autor). Para Lenine, a música é boa e relevante sempre.

Música boa para alunos de cavaquinho de Rodrigo Maranhão apresentarem ao fim do curso pode até ser funk. Mesmo que à revelia de outros docentes, Maranhão incentivava essa escolha. “Temos de respeitar o que a música faz na vida das pessoas”, diria, certeiro. E Pilger citaria Ernst Fischer que, no livro “A necessidade da arte”, notou que não haveria arte se o homem fosse resolvido. Depois, lembrou que músicas marcam instantes e remeteu à balada de Elton John que tocava no rádio ao ser retirado de um acidente de carro.

Semanas atrás, Lila foi pela primeira vez ao teatro, assistir a um musical do Chapeuzinho Vermelho com ritmos nordestinos, e ficou enfeitiçada pelo que via, mas sobretudo pelo que ouvia. Tanto que sem decodificar a trama, o que é natural, batia palmas justo quando o lobo corria atrás da menina ou de sua avó. Torcia pelo lobo? Não, aplaudia a música que realçava as cenas.

3. “Não existe fronteira na música”

Música, um substantivo inadjetivável para artistas como Lenine (Free-Photos)

“Não há divisão, mas atitudes diferentes.” Leo Gandelman introduziu assim o debate sobre a indistinção — consensual entre os debatedores — entre música popular e erudita. Para ouvidos leigos como os do autor deste texto, haveria bifurcações onde os quatro — ou cinco, se incluído o mediador Gustavo Destord — contemplavam tão somente convergências.

Dizendo-se contra adjetivar a palavra “música”, Lenine foi taxativo: “não vejo diferenças entre música popular e erudita”. Maranhão emendou mais adiante: “não ensinar cavaquinho ou violão de sete cordas na faculdade é mentalidade de terceiro mundo”. Pilger foi além na crítica: “o bom professor é aquele que não estraga o aluno”.

A palavra voltou para Gandelman, que concluiu: “o limite da música, pra mim, é o próprio músico”. Em seguida, citou as diferenças nas escolas de música, como clássica e jazz. “Isso está nas escolas e nas atitudes de quem faz e quem ouve”. Deu ali uma declaração que cada artista fez questão de repetir em sequência ao microfone: “não existe fronteira na música”.

No bate-papo sobre meu livro “Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática” (Civilização Brasileira) na festa literária de Petrópolis deste ano, respondi sobre o percurso de Cazuza e suscitei a ideia de que, não fosse o convite para ser vocalista do Barão Vermelho, ele não teria sido roqueiro, haja vista sua carreira solo. Na hora, me pareceu um insight razoável. Repassando aqui o debate visto no Parangoledem, me pergunto se isso realmente importa.

4. Até onde a música é capaz de ir?

Pilger e Maranhão: não há fronteiras na música. E limites? (Andrea Testoni/Edem)

Na mesa redonda assistida por mais de 80 alunos, pais e professores, bem poucos de nós do público interviemos, talvez pelo anseio geral de ouvir logo a jam session que viria depois (e com improvisos que foram de obras daqueles artistas a Villa-Lobos, num requinte sem par). Uma participante indicou a todos o documentário “Alive inside”, sobre o uso da música no combate à perda de memória. Eis um exemplo tocante da música como transformação.

Repercutindo indagações que nutri desde o início do papo, sondei os músicos sobre como foi para eles verem os filhos entrarem em contato com a música. Disseram-se cautelosos com a expectativa que pudessem (ou possam) ter sobre a presença dela na vida de cada um, mas houve quem, como Leo Gandelman, não escondesse o prazer de ver um filho explorar a arte que também é sua. João Cavalcanti, filho de Lenine, aproveitou para dar o testemunho que já citei sobre como evitou (em vão) não trilhar esse rumo. Pilger foi o mais direto: mais vale os filhos terem acesso à música e fazerem o que quiserem.

Quanto aos valores terapêutico e identitário da música, Cavalcanti costurou os dois ao narrar como a música propiciou um escape para sua avó paterna quando ficou viúva e, já senil, fez menção de recordar melodias de outrora por mais alheia que estivesse à perda do marido (as referências aqui me vêm da memória e espero não cometer imprecisão ao recuperar essa narrativa).

Fato é que se viu na ocasião um fio condutor para outros tempos sem perdas — na família ou na capacidade cognitiva. Um milagre talvez despontasse ali. Se não foi milagre, pode ter outro nome. Quiçá coincidência, quiçá mistério ou, simplesmente, música.


Quanto ao valor documentário da música, apresento reflexão sobre como o rock brasileiro se entrelaça ao país dos anos 1980/90 no capítulo “Pátria amada, não idolatrada” do recém-lançado volume 5 da coleção “Brasil Republicano” (org. Jorge Ferreira e Lucília de Almeida Neves Delgado, Civilização Brasileira). Para quem curte ler sobre história do Brasil ou nossa música, fica o convite à leitura.