As três coisas mais importantes que aprendi num retiro espiritual — sendo ateia

Débora Nisenbaum
Oct 19, 2016 · 8 min read

São mais ou menos 05:30 da manhã. Os primeiros raios de sol iluminam o céu e me acordam, através das janelas sem cortinas, para ver um azul pincelado por tons de laranja, rosa e amarelo, anunciando o início de um novo dia. "Olha que coisa maravilhosa", eu digo ao meu parceiro, também acordado e deitado ao meu lado. Alguns pássaros já entoam seus cantos lá fora.

Em setembro de 2016, fiz uma viagem incrível. Unidos pelo gosto pelas viagens e amor pela natureza, eu e meu parceiro decidimos visitar a Chapada dos Veadeiros. Eu, antes judia e hoje ateia, não me identifico com nenhuma crença, mas respeito as alheias e estudo sobre elas sempre que possível. O lugar é famoso por sua mística — a abundância de cristais, os hippies, a comunidade hare krishna, as visitas ocasionais de alienígenas, entre outros fenômenos incomuns. Fica a três horas de carro de Brasília.

Nos hospedamos num retiro espiritual Hare Krishna chamado Paraíso dos Pândavas. O resort fica no meio da Chapada dos Veadeiros, isolado entre os morros. E quando digo isolado, é isolado mesmo: celular com pouco ou nenhum sinal, internet só na sede do local (e bem lenta), 3km de via de terra pra chegar na estrada mais próxima. O quarto fica a 300 metros da sede e à noite nos orientamos com a luz da lua. Dentro não tem televisão, frigobar, lanches, serviço de quarto, poltrona, absolutamente nenhuma das amenidades que encontramos em hotéis. No pequeno chalé construído pelas mãos de quem trabalha lá, existe uma cama de casal, um criado mudo com um abajur, uma cômoda com uma jarra de água, um vaso pequenino com flores de lavanda e uma imagem de Krishna. O banheiro fica na extremidade do cômodo. As janelas são amplas.

A casinha minúscula no canto direito é nosso chalé.

O dia no Pândavas começa muito cedo — as primeiras práticas se iniciam com bhakti yoga às 6:45, seguidas por meditação mântrica, hatha yoga e café da manhã. O toque de um sino anuncia que a refeição está servida e os hóspedes seguem para o templo, um ambiente pequeno e circular construído em madeira, onde sentamos no chão para apreciar a comida sobre mesinhas baixas. Às 10h, uma guia local leva os hóspedes para caminhadas até a piscina natural ou as cachoeiras que ficam dentro da propriedade. 13h30, pontualmente, o almoço é servido. No final da tarde, mais bhakti yoga, palestras e conversas com Ghiridari Das (o guru, dono do local) e jantar. A pontualidade é alemã. Todas as atividades são opcionais.

Pepalanto — flor típica do cerrado

Em poucos dias vivendo nesse lugar, minha compreensão acerca de determinados fenômenos se tornou muito mais ampla. Desconectar de uma metrópole, mesmo que por um curto período de tempo, me fez operar em níveis mais sutis e me deixou mais perceptiva. Dentre os aprendizados que reuni, os três mais importantes estão listados a seguir:

1 — Prasada

Prasada é o nome que se dá à comida feita de maneira devocional, oferendada a deus (no caso, Krishna) e tratada como alimento para o corpo e para o espírito. Os Hare Krishna, bem como muitos budistas e hindus, são vegetarianos. Não consomem carne vermelha, frango, peixe, porco ou ovos. O único produto de origem animal utilizado por eles é o leite, para produzir manteiga, queijos, iogurtes e demais laticínios.

Na visão deles, não devemos nos alimentar de carne, consumindo através dela o sofrimento e a dor do animal morto, já que isso gera dívidas kármicas, além de não ser saudável. Eu, que já vinha há algum tempo eliminando meu consumo de carne por motivos éticos, me deparei com uma mesa cheia de comida vegetariana incrivelmente deliciosa, plantada e preparada lá. O Paraíso dos Pândavas possui uma política muito centrada sobre a produção de alimentos, baseada nos conceitos de permacultura e agrofloresta (esta, também implantada no Instituto Terra, de Sebastião Salgado).

O momento da refeição era calmo, silencioso, dedicado à apreciação do alimento e de sua sacralidade. Isso me fez compreender mais a fundo o quão importante é dar tempo à nossa alimentação. Países ocidentais (especialmente os americanos) tendem a ceder pouquíssimo tempo ao momento de comer. O capitalismo trata as refeições como empecilhos no horário de trabalho, que devem ser resolvidos de forma prática, rápida e barata. É claro que isso tem um impacto negativo enorme sobre nossa saúde, já que não só nos alimentamos mal, com comida ruim produzida em massa a partir de métodos tenebrosos (dê uma rápida busca em "Monsanto" e "abatedouros" para entender mais), como a pressa em fazê-lo prejudica muito nossa digestão.

Neste curto período em que me hospedei lá, embora eu ingerisse muito mais comida (para repor o constante gasto de energia nas caminhadas, trilhas e cachoeiras), me sentia menos inchada, mais saciada ao comer e meu intestino funcionou muito, mas muito melhor. Minha gastrite nervosa não deu sinais de sequer existir.

2 — Devoção

A devoção é um aspecto importantíssimo da cultura Hare Krishna. E aqui não falo somente sobre devoção ao divino, como estamos acostumados a ouvir. Eles entendem que nós temos um dharma, um dever para com aquilo que cultivamos em nossas vidas — o trabalho, o casamento ou até um bicho de estimação. Cumprir o dharma é cuidar e se dedicar a tudo com que você se compromete, exercendo sua função com amor incondicional e buscando sempre dar o melhor de si mesmo. O dharma é devocional.

Por exemplo: quando você se casa, seu dharma com sua esposa é respeitá-la, amá-la, ser leal, cuidar dela quando for necessário. Seu dharma com seu trabalho é cumprir sua função da melhor maneira possível, agir de maneira correta com seus colegas, não fazer as coisas de cara amarrada, etc. Tudo isso sem esperar nada em troca. É claro que relações requerem reciprocidade, mas quando os relacionamentos são devocionais, a reciprocidade surge do outro cumprir seu próprio dharma.

Por causa do dharma, a vida é analisada de uma forma muito mais profunda e ao mesmo tempo desapegada pelos adeptos dessa filosofia de vida. Ora, se você vai se dedicar e cumprir sua função com todo amor e cuidado, não faz sentido se entregar a relações que não são boas, a empregos que não lhe fazem feliz e a um modo de vida que não lhe proponha realização de maneira geral. Fazer as coisas por dinheiro ou para manter aparências, por exemplo, se torna uma conduta sem sentido. Quando você cumpre seu dharma, ou seja, quando se compromete de maneira devocional com os aspectos da sua vida, seu foco e sua resiliência se tornam muito maiores.

3 — Gratidão

Esqueça as pessoas aplaudindo por do sol no arpoador. Vamos além.

Eu e meu parceiro não somos lá muito chegados em dividir nosso tempo com outras pessoas. Preferimos fazer as coisas sozinhos. Não gostamos de estar com muita gente nem da necessidade de interagir o tempo todo e tentamos sempre ser autossuficientes, já que não gostamos de depender de terceiros. Nossa viagem foi marcada por um aspecto bastante incomum para nós dois, que foi o exato oposto do que gostamos: precisar dos outros.

Chegar na Chapada dos Veadeiros pra quem está sem carro pode ser muito caro. Os transfers de Brasília até lá chegam a custar R$350. Nessa condição, buscamos um grupo de caronas dessa região e nos colocamos a procurar motoristas que estivessem indo pra lá. O preço fixo de R$35 por pessoa era bem mais atraente.

Desde nossa chegada na capital até o momento em que voltamos para casa, a jornada foi marcada por essa ação tão incômoda e difícil para nós: pedir. Pedimos carona para ir, pedimos indicações de lugares, pedimos água, pedimos um cabo para carregar a GoPro. Curiosamente, quando nos abrimos à essa necessidade de pedir, de solicitar ajuda, de perguntar, as pessoas começaram a nos oferecer o que precisávamos. Nos ofereceram carona para voltar, nos ofereceram comida, nos ofereceram um mapa, nos ofereceram roteiros, nos ofereceram um carro para irmos até os locais próximos. E aproveitamos todas essas oportunidades. Agradecemos como podíamos, às vezes com um simples "obrigado", com um sorriso e também com dinheiro.

A sensação de ser grato a alguém lhe torna muito mais livre de certas reservas (e de algumas frescuras) e também muito mais propenso a oferecer ajuda a alguém que precisa. Ela gera, portanto, uma onda de confiança, compaixão e empatia, que quando acolhida pelo outro, só tende a ser propagada e amplificada.

Almécegas II, uma das cachoeiras da região de Alto Paraíso

Um pouco mais

Hare Krishna, ou consciência de Krishna, é uma filosofia muito mais focada na experiência transcendental do indivíduo do que na satisfação dos caprichos de uma entidade absoluta, como proposto pelas mitologias ocidentais. Não existe promessa de punição divina, muito menos eterna, por não realizar as práticas ou não amar/acreditar em deus. A homossexualidade não é vista como algo ruim, o sexo não é tido como ato pecaminoso. Os gêneros são vistos sob uma ótica de complementação e equilíbrio, não de dominação. Tudo gira em torno da autorrealização, do encontro da paz interior e do controle sobre a mente. É muito estimulado o desapego material.

A maneira de se espiritualizar através da meditação e da yoga é vista como uma ferramenta de autorrealização, que pode ser adotada por qualquer pessoa, de qualquer crença ou estilo de vida, inclusive sendo adaptada para melhor se encaixar na vivência daquele indivíduo. Claro que existem determinadas condutas que são muito prezadas, mas a elevação pessoal é tratada como um processo cheio de etapas, cada uma sendo cumprida a seu tempo.

O retorno

Falando a verdade, eu não senti vontade alguma de voltar para São Paulo. Não que eu não goste dela, muito pelo contrário. Penso que se fosse pra morar em qualquer canto do Brasil, seria aqui (ainda que a metrópole tenha me roubado anos de vida com seus venenos). Mas se desfazer de tudo, o desapego material, o silêncio, a calma, a interação com pessoas que se encontram em outro estado mental — tudo isso é maravilhoso. Me fez reavaliar minhas relações, minhas preocupações, minhas metas, o estilo de vida que quero pra mim, o ambiente no qual desejo estar inserida.

A maior lição é muito simples e ao mesmo tempo muito poderosa: se desfazer de tudo que não é essencial. E isso é algo constantemente dito pra gente, por grandes gurus, de palestras de pessoas que já chegaram aos seus 90 anos e estão questionando a vida, até vídeos sobre filtro solar que bombaram no seu email lá pelos anos 2000. Poxa, até Mogli fala disso (somente o necessário, o extraordinário é demais). Mas a gente custa a ouvir. E só ouve quando todo esse extraordinário que a gente traz pra nossa vida começa a nos afogar em superficialidades. Nós somos breves e voláteis: num momento estamos aqui, noutro já não mais. E daqui não levamos iPad, iMac, Jeep Renegade, cozinha remodelada ou 100 mil seguidores no Instagram. Nós somos apenas as nossas experiências e aquilo que trazemos de bom para o mundo.

Colocar o indivíduo em choque com sua impermanência e pequenez é um aspecto comum a várias religiões. Umas utilizam templos colossais ou a onipotência de seres divinos, rancorosos e punitivistas.

Este outro o faz de uma maneira infinitamente mais simples: recolocando o sujeito no mundo como ele é.

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Débora Nisenbaum

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Fotógrafa que escreve quando não cabe num frame. Colaboradora na Ovelha www.ovelhamag.com

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