Troco likes (por conversas)

O digital não substitui o virtual

foto por pixabay.com

Hoje em dia, parece que a gente só existe nas redes sociais. Nossa vida inteira está lá e fizeram até uma moeda pra definir o que tem valor ou não tem: os likes.

Um like pode parecer inofensivo, mas não é. Pensa bem, os likes quantificam nossas vidas. Meu selfie — e minha beleza — valem 50 likes. Faço um post falando como o ano foi difícil e meu sofrimento vale 128 likes. Minhas férias valem 32 e meu almoço, uns 150. Orgâncio, né? Tudo vale like. E quem não gosta de ganhar likes? Quem nunca olhou uma foto e disse “nossa, ganhei quase 100 likes nessa foto, que foda.” O like também reforça nossa carência. Num simples ato, a gente sabe quantas pessoas aí pelo mundo gostam de fato da gente.

Agora, likes podem ser frustrantes também. Já reparou que fotos com a pessoa rendem mais likes do que fotos de paisagem? Daí pra pessoas passarem a postar só selfies, é um minuto. Dá uma olhada quantos perfis não são só selfies. Afinal, como a pessoa vai pensar em postar outra coisa, se sabe que vai ter menos likes e com eles, a frustração de não ser adorado por pessoas que nunca viu? Sem contar que uma paisagem com 500 likes, é mérito da paisagem. Agora, se a pessoa ganha 500 likes, como isso não reforça a insegurança e a vida de aparências dela?

O like está mimando uma geração inteira. Em vez de beijos e abraços de pais, são likes de amigos e parentes. Já vi gente apagando foto porque não tinha dado um número x de likes nos primeiros 5 minutos. Como pode? Ele tem substituído o afeto, o carinho e o pior de tudo, a presença.

Sim, porque com o like, a gente não precisa mais estar presente, bastar dar like. Ninguém mais liga ou pergunta com interesse de verdade. A gente faz o que? Dá like.

A Ritinha mudou de casa? Dá like.

Ah, como será que tá o Pedro? Não sei, mas vi uma foto dele no Forno e dei like, deve estar tudo bem.

Cê viu que a Luisa postou que ta triste com a doença da mãe? Vou dar like, depois mando mensagem, agora não dá.

A gente não se preocupa. A gente vê a vida das pessoas pela redes sociais. Acompanhamos o ano de grandes amigos por fotos. É um stopmotion de 365 dias, 278 fotos de gatos e 156 de comida

Não tem mais um “tudo bem? como tão as coisas?” É tudo na base do like. Cadê a conversa? Cadê a interação, a preocupação que vem com uma ligação ou nos tempos modernos, uma mensagem? A gente só liga hoje em dia se for pra cancelar a NET ou reclamar da fatura. Quando foi a última vez que você ligou para um amigo e não foi pra falar “desce que eu to esperando faz 10 minutos. Não viu minha mensagem?”

Hoje em dia é tão fácil se esquecer dos outros mas parecer interessado. É tudo tudo virtual. Claro que essa modernidade tem suas vantagens. Sim, a gente fica conectado com pessoas distante, mas será que vale a pena deixar todo mundo a pixels de distâncias? Tecnologia é foda mas não dá pra esquecer que ela também isola a gente do mundo. Uma bolha de emojis e gifs.

Será que uma vez por semana a gente não pode trocar likes por conversas? Ligar pro seu amigo de colégio, ir na casa da sua mãe e ficar na mesa e não no celular. Sentar num bar e jogar conversa fora e não o 4G.

Que tal, se daá próxima vez que quiser falar com seu amigo, parente ou namorado(a), você não der um like? Em vez disso, mandar um convite. Chamar pra um jantar. Fazer um Skype. Sei lá, só pra tentar. Uma vez. Não vai doer. Por mais que a gente viva 24 horas no celular e no computador, ainda existe uma vida lá fora, com histórias e aprendizados que merecem um like. Pessoalmente.