“Tropas Estelares” e o Mal do Militarismo

Fonte: ArtStation

E lá vamos nós voltar a falar sobre Ficção Científica. Claro, porque escrever é ótimo, ainda mais quando é sobre um assunto de sua preferência. Meus textos são publicados nos dias 10, 20 e 30 (a partir de Agosto, os dias se resumirão a 10 e 25). Desde Fevereiro, todo dia 10 será dedicado a essa série de oito artigos nos quais tentarei fazer uma associação entre alguma obra de Sci-Fi e um evento ou discussão recente. Autores diferentes, estórias diferentes, discussões diferentes… mesma data.

Sci-Fi é Vida #01 — “Minority Report” e o Dilema da Segurança Pública

Sci-Fi é Vida #02 — “Jurassic Park” e o Limite da Ciência

Sci-Fi é Vida #03 — “A Volta ao Mundo em 80 Dias” e o Espírito de Aventura

Sci-Fi é Vida #05 — “O Dia em que a Terra Parou” e o Egocentrismo da Humanidade

Sci-Fi é Vida #06 — “O Lixeiro” e O Subúrbio da Tecnologia

Sci-Fi é Vida #07 — “O Homem Invisível” e os Percalços da Vida

Sci-Fi é Vida #08 — “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno” e a Natureza da Ficção Científica


Tendo servido às forças militares por um longo período (inclusive se considerando apaixonado pela vida militar), Roberto A. Heinlein parece ter um excelente perfil para tecer uma crítica honesta e dura sobre organização, interesses e métodos das forças militares. Nascido em 1907, o autor de inúmeros romances e contos de Ficção Científica tem como principais obras “Um Estranho Numa Terra Estranha" e “Tropas Estelares”, ambos publicados no Brasil pela Editora Aleph.

Tropas Estelares é provavelmente sua obra mais famosa aqui no Brasil, muito pelo filme homônimo de 1997, dirigido pelo neerlandês Paul Verhoeven. A trama basicamente gira em torno de Johnny Rico, que vive em um mundo onde a expansão interplanetária causou verdadeiras guerras entre os seres humanos e seres de outros planetas e espécies. Sua obra se destaca por não ser uma simples investida militar “schwarzeneggeriana”. O autor utiliza de momentos como o período de treinamento e um intervalo entre os confrontos para refletir, com uma didática digna de Platão (“República), sobre questões como patriotismo, relações de gênero, marxismo, meritocracia, entre vários outros.

O Militarismo e Nossas Vidas

Fonte: Anallogicos
Quero só lembrar vocês macacos que cada um de vocês custou para o governo, contando armas, armadura, munição, equipagem e treinamento, tudo, inclusive o jeito que vocês enchem a pança, custou, no bruto, mais de meio milhão. Juntem trinta centavos, que é o que vocês valem de fato, e isso dá uma boa soma […] Então tragam tudo de volta! Podemos descartar vocês, mas não podemos dispensar esse traje de luxo que estão usando.

Obviamente, essas falas fazem parte do livro, e nem seria necessário eu ter citado o militarismo da obra para que ele já ficasse claro a partir dessas palavras. Ao ver tanto “carinho” pelos seres humanos, somos transportados rapidamente para o conhecido tratamento militar tão bem representado em filmes como “Nascido para Matar”, do Kubrick. Mas o militarismo vai bem além de uma fala grosseira: ele tem várias influências nas mais diversas esferas do estilo de vida dos soldados.

Partindo de um ponto de vista macro, temos a imposição de uma uniformização a todos os soldados. No filme, por exemplo, temos uma cena de banho misto (entre homens e mulheres), que, julgando pelos moldes da época, mostrava que as diferenças entre os soldados era tão sem importância para eles que até seu gênero não fazia diferença. Essa uniformização não atingia apenas o modo como se vestiam ou o corte de cabelo, mas a forma como eles se viam e percebiam as próprias diferenças, que passaram a não ter qualquer importância.

Há relatos, por exemplos, da maneira como os soldados são preparados psicologicamente para a guerra, que na segunda metade do século passado foi responsável por uma quantidade enorme de traumas nos militares (como pode ser percebido em filmes como “Taxi Driver”). Momentos antes de entrarem no campo de batalha, foi divulgado que os soldados ouvem no veículo músicas como Let the bodies hit the floor”. O filme também ressalta a grande questão da propaganda que evidencia os interesses militares. A grande frase recorrente no filme é “I’m doing my part” (Estou fazendo a minha parte), em que diversas pessoas aparecem contribuindo de alguma maneira para o sucesso das campanhas de guerra: mães sendo boas donas de casa, filhos sendo bem comportados etc. Mas obviamente a maior “contribuição” esperada pelo governo é o seu ingresso nas forças armadas. Fazer a sua parte é por sua vida em risco pelos interesses do país.

Talvez o excelente episódio “Men Against Fire” da série Black Mirror tenha sido nosso melhor e mais recente exemplo das absurdas atitudes militares. A extrapolação da obra traz lentes de contato que altera as imagens em tempo real no momento da batalha, oculta o sangue das vítimas e até modifica os sonhos dos soldados para gerar determinadas ilusões que os mobilizem a continuar lutando por…

As estratégias do militarismo podem até tornar sua atividade mais eficaz para o combate e resposta ativa dos soldados, mas acaba contrariando a própria natureza humana, anulando sua diversidade, reflexão e empatia com o próximo. E apesar de focarmos nas forças militares, é clara a presença desses mesmos elementos em outros lugares​ da sociedade: a escola que desenvolve aulas e atividades sem levar em conta a diversidade dos indivíduos, a mídia que utiliza de vários meios para impedir a reflexão do consumidor e o mercado de trabalho que te faz enxergar um outro como um mero concorrente. De fato, não precisamos enfrentar alienígenas gigantes em formas de inseto, mas há uma realidade bem mais dura e sorrateira em nosso próprio planeta.

Robert A. Heinlein