Tudo que rolou na maior Parada LGBT de Minas

Alex José
Jul 22, 2017 · 8 min read

Em sua 20º edição, evento reuniu cerca de 80 mil pessoas; esta foi a primeira vez que a Parada entrou para o calendário oficial de Belo Horizonte.

À Parada LGBT de Belo Horizonte nunca faltaram as cores, o brilho, a festa e a luta. Mas foram precisas 20 anos de passeatas para que o evento fosse posto no calendário oficial da cidade. Sim, somente na sua 20° edição o ato foi reconhecido e apoiado efetivamente pela prefeitura. Bem, mas o apoio, pelo menos, não pareceu inócuo e foi considerado uma das conquistas da Parada, que aconteceu no domingo, 16 de julho, sob o tema “Famílias e Direitos: nossa existência é singular, nossa resistência é plural”.

Breve discurso de Kalil na 20ª Parada LGBT

Vale dizer, a participação de público alcançou número recorde na capital mineira. De acordo com os organizadores, cerca de 80 mil pessoas passaram pelo ato — que começou às 11h, na Praça das Estação, saindo em desfile conduzido por um trio elétrico pela avenida Amazonas às 16h30 e sendo encerrado na Praça Raul Soares, por volta das 19h.

Entre estas pessoas, diversas personalidades políticas, como o prefeito da cidade, Alexandre Kalil (PHS), e seu vice, Paulo Lamac (Rede), além das vereadoras Áurea Carolina e Cida Falabella, as duas do Psol.

Em discurso, aliás, o prefeito sustentou que voltará todos os anos e emendou que nos próximos quatro anos a capital mineira será a cidade a receber a maior Parada do Orgulho LGBT do Brasil. Bem, Kalil, como todo bom mineiro sabe, se sai muito bem quando o esporte é surfar em polêmicas — isso desde a época que foi presidente do Atlético Mineiro. Mas se cumprir a promessa BH terá, então, a maior Parada do mundo, já que hoje o posto é ocupado pela edição paulista do evento.

Reconhecimento reverbera

Drag Perfect chamava a atenção e era constantemente abordada

Claro, o reconhecimento oficial da Parada pelas autoridades e a presença do prefeito reverberaram e foram elogiados por participantes. “Para nós LGBTs, que passamos diariamente e vivenciamos o preconceito, que vivenciamos a homofobia é muito importante ter um prefeito apoiando a nossa causa”, avalia a drag queen Surya Namaskar. Ela relata que esta foi sua segunda vez no evento. Na outra oportunidade tinha 16 anos. Agora aos 22, ela elogiou as mudanças notadas. “De lá para cá, muita coisa mudou! Hoje a Parada está muito mais organizada”, analisa. Vale dizer, esta é a primeira vez dela como drag na Parada LGBT. “Vir e encontrar toda essa gente, receber esse carinho, faz a gente se sentir acolhida”.

No palco ou na rua, as drags queens, pois, chamavam a atenção. Pudera, as artistas não pouparam na sua produção. Vide a Drag Perfect, que há 11 anos acompanha o desfile. A cada ano, vale frisar, ela costuma se superar em matéria de ornamentação e adereços. Embora tenha levado muito tempo para criar a fantasia, ela revela que é rápida na hora de montar. “Não foram nem duas horas, eu estou acostumada”, se gaba enquanto uma fila de pessoas espera para fotografa-la. Sthephanny di Monaco, por outro lado, precisou acordar às 7h para começar a se maquiar, chegando à Praça da Estação às 12h.

Na tentativa de ouvir qualquer uma delas, eis que um desafio se impunha: o tempo todo recebiam solicitações para uma selfie aqui, outra acolá. Não foi diferente com Sthephanny: a drag e transexual, como se define, era constante e carinhosamente abordada por uma legião de pessoas. Ela mesma perdeu as contas de quantas vezes já havia sido parada para ser fotografada. “Receber esse carinho é muito importante para nós! É o que faz todo esse esforço valer a pena”, disse, entre um registro e outro.

Acolhimento

Pois o acolhimento e carinho encontrado na Parada é um dos aspectos elogiados por Raphaela Maria, 26. Ela, que se identifica como mulher lésbica, lembra que assumiu sua sexualidade há cinco anos. “Colorir a cidade assim, vir para a rua é uma forma de a gente saber que não está só… É o que faz a gente ter a coragem necessária para enfrentar qualquer tipo de violência e de resistir”, analisa.

Consoante a tal sentimento, Victor Alves, 22, que se identifica como homem gay, aponta para um entendimento próximo ao relatado por Raphaela. “Este é um espaço feito especialmente para a gente. Tem muitos LGBTs aqui. Acho que a gente acaba se sentindo a vontade, não ficamos acanhados”, avalia. Para ele, enfim, esta é uma oportunidade de viver sua sexualidade de forma plena para nunca mais pensar em se esconder da sociedade.

Claro, pessoas bissexuais também levantaram sua bandeira na festa. Caso de Eliana Silva, 24. Apesar de participar da Parada pela primeira vez, ela relata que se entende bi desde os 13 anos. “Já fui em boates, tenho muitos amigos e frequento esses espaços há mais de 10 anos, mas aqui é bem diferente! Eu estou curtindo muito”, diz. “Bem, estaria curtindo mais se não tivesse acompanhada”, brinca entre sorrisos trocados com sua namorada, Priscila, 29, que veio de São Paulo para curtir sua primeira vez em uma Parada LGBT em Belo Horizonte.

Engajamento político

Em tom de protesto, Parada pediu saída de da presidência. Foto: Roberto Reis

Festivo, mas também um ato político por direitos, reconhecimento e visibilidade, a Parada LGBT de BH foi marcada por gritos de “Fora, Temer!”, discursos contra o autodeclarado presidenciável Jair Bolsonaro, alertas contra retrocessos e por falas contra a violência de gênero, sexual e LGBTfóbica.

Perto do palco montado na praça da Estação, o Secretário de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania do Governo de Minas, Nilmário Miranda acompanhou o ato. Ele elogiou a participação do poder público. “A Parada cresceu e tivemos a felicidade da prefeitura embarcar no ato deste ano”, disse, em breve entrevista.

Já as vereadores Áurea Carolina e Cida Falabella, do PSOL, defendem que tornar a Parada um evento oficial da cidade é um importante recado ao país. “Em um momento delicado, esse reconhecimento é muito importante para a causa LGBT”, diz Áurea. Para ela, no entanto, ainda é preciso muitos novos avanços. “Na Câmara a gente ainda enfrenta muita resistência”, relata.

De sua parte, Cida pontua da importância da luta no campo simbólico. “Colorir a cidade assim é uma forma de comunicar as demandas para uma população que muitas vezes está alheia ao tema”, avalia. “É festa e é também luta”, reforça a vereadora.

O governo do Estado também deu seu apoio ao acontecimento. Douglas Miranda, Coordenador Especial de Políticas de Diversidade Sexual/Sedpac, aliás, informou que 23 servidores distribuíram cartilhas e leques entre os participantes. No material gráfico lia-se na frente um portentosa “Vráaaa”. “A ideia é mostrar que a comunidade LGBT faz um ‘Vráaaa’ para o preconceito”, explica. No verso, o leque destaca o Disque 100, número dedicado a denúncia de violência e discriminação contra pessoas LGBT.

O engajamento político, observa Felipe Chagas, muitas vezes é maior nos bastidores. Ele lembra que acompanha a Parada há quatro anos. Nas primeiras três vezes, trabalhou nos bastidores. “Atrás do palco você tem uma visão mais política da Parada. Na plateia, a galera tem uma coisa mais de festa…”, pontua.

Abraçados pelas famílias

Grupo de mães se unem para apoiar parentes LGBTs. Foto: Roberto Reis

Com o tema “Famílias e Direitos: nossa existência é singular, nossa resistência é plural”, a 20° Parada de BH reúne também apoiadores e simpatizantes da causa. Entre eles, chamava a atenção um grupo de mães que passaram a se organizar este ano em prol de seus filhos, sobrinhos e netos LGBTs. O “Mães pela Diversidade”, como explica Cássia Cristina, 47, uma das fundadoras da organização, surgiu em forma de uma resposta à negativa da Câmara dos Vereadores de BH de instituir um Conselho LGBT na cidade.

Durante a sessão de votos que rejeitou a criação do órgão, em junho passado, muitos vereadores justificavam seu voto contra a iniciativa afirmando fazê-lo em nome da família. “Então nos organizamos neste grupo, que vem para mostrar que estas pessoas têm família sim!”, lembra Cássia.

Muitos outros pais e mães levaram para o evento seus filhos. Exemplo são Paulo Barcala, 59, e Ana Paola, 46. Defensores da diversidade sexual e de gênero, esta foi a estreia do casal. A razão? Esta era uma vontade de seu filho, Francisco, de 13 anos. O adolescente era só elogios a tudo que via na Parada. Já seu pai refletia sobre como o lema desta edição se punha em contraposição ao pensamento dos jovens casais heterossexuais, que, segundo observa Barcara, não têm a ideia de casamento e constituição de família como uma prioridade.

Já Adriana Franco, 37, foi acompanhada de sua filha, Andressa, 15 e uma amiga da família, Izabely Caroline, 16, e também do caçula da casa, Saulo, de 11 anos. “Exercício de cidadania” e “oportunidade de diversão” foram as formas que a mãe se referiu à sua participação no evento.

E, claro, apareceram curiosos, como Alexandre da Silva, 38, Ana Cletis Lopes, 33, e seu filho, Pedro Henrique, de 11 anos. Eles passavam pela região e decidiram adentrar a Parada. A impressão que ficou, diga-se, foi a melhor possível. “Está tudo muito bonito, muito colorido, sem bagunça, com todo mundo unido pelo amor”, elogia Ana Cletis.

Fé e inclusão

Siomara, à direita, e Tereza, à esquerda, casadas há três anos na Igreja Contemporânea

As igrejas evangélicas inclusivas também se fizeram presente na 20º edição da Parada LGBT da capital mineira. É o caso de Siomara Souza, 47, e Tereza Raquel, 39, fiéis da Igreja Contemporânea, onde se casaram há três anos. Elas explicam que participam de uma “instituição cristã que acredita na capacidade de integração e inclusão das famílias LGBT”. “Estamos juntas há 13 anos e nos casamos graças a vinda da igreja para BH”, diz Siomara.

Por sua vez, da Igreja Apostólica Benção e Vida, o pastor Gregory Rodrigues, 25, também participou do evento. Há dois anos e meio na capital mineira, ele diz que “sempre que venho passo e dou uma palavra”. Para o pastor, o tema da Parada neste ano é muito oportuno. “Até porque a igreja inclusiva e o público LGBT não querem destruir a instituição família, a gente quer o contrário, quer constituir família! Queremos mostrar a amplitude do que é família”, sustenta.

De toda Minas Gerais

Praça da Estação fica lotada com a realização da 20ª Parada LGBT de BH

Para a Parada LGBT de BH, aliás, chegavam pessoas de toda Minas Gerais. Militantes de Itabira, há cerca de 100 Km da capital, vieram em um ônibus e a três vans fretados exclusivamente para o ato.

Entre os passageiros da viação mais colorida rumo à capital estava Crismara Loureiro, 28, que participou pela segunda vez do evento. Chegando por volta de 13h, a itabirense se surpreende com o volume de pessoas que já se encontravam na praça. “Tudo está muito organizado”, elogiou e imediatamente passou a dizer da importância do encontro para a defesa dos direitos LGBT.

Por sua vez, de Conselheiro Lafaiete vinha Breno Rocha, 21, que acompanhava com entusiasmo o desfile ao lado do amigo Victor Gabriel, 20, de Jeceaba. Eles relatam que de suas cidades, em vans, vieram cerca de 100 participantes. Já perto do encerramento, os rapazes ainda mostravam ter pique para mais horas e horas de festa e luta. Se valeu a viagem? Claro! Tanto que “ma-ra-vi-lho-sa”, assim, soletrado, e “um hino”, foram as definições que usaram para descrever a 20ª e maior Parada do Orgulho LGBT de Minas.

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