Beatriz Mazzei
Jul 13 · 6 min read
Imagem: Unsplash

Na aula de yoga que eu faço, a última parte é a do relaxamento. Nessa etapa da prática, deitamos de barriga para cima, com os braços e pernas esticadas e semi abertas, como uma estrela do mar menos espaçada. Na última aula, quando cheguei nessa finalização e a professora me pediu para fechar os olhos, eu chorei. Chorei timidamente. Aquele tipo de choro que mal escorre pelos cantos. Não era pranto, era um tiquinho de emoção diluída em lágrimas. Enxuguei rapidinho e ninguém notou.

O motivo do meu choro pode parecer bobo, mas vou revelar: eu estava emocionada porque naquela aula eu havia feito uma postura da yoga pela primeira vez, depois de meses (quase um ano) de aulas semanais. O topo da minha cabeça estava colado ao chão, assim como as palmas das minhas mãos que se abriam paralelamente, dando sustentação para o meu corpo, que se erguia com as pernas esticadas lá no alto. Eu havia conseguido fazer uma invertida com a cabeça para baixo, e toda a alegria da conquista se transformou em emoção no momento do relaxamento.

Alguns podem pensar que sustentar as pernas com a cabeça para baixo não deve ser motivo de orgulho, afinal, não deve ser tão difícil. Para outros, o contrário: a posição parece impossível. Eu sou do time que achava aquilo impossível. Tentava, tentava e não conseguia chegar nem perto. Era difícil tirar os pés do chão. Minha cabeça doía, eu tremia, achava que não estava conseguindo porque eu não era tão magra quanto a professora, ou porque não estava tão reta, ou não respirava direito… Eu queria achar a raiz da minha incapacidade. Até que meses depois eu encontrei o problema: não conseguia fazer a posição porque achava que iria cair e me estatelar no chão. Eu tinha medo de me machucar.

Lidando com os medos

O medo tem acompanhado minha vida de uns anos pra cá. Como jornalista recém-formada, nos últimos dois anos tudo se resumia ao medo. Medo de não ser efetivada no estágio, medo de me atrasar na reunião por morar longe e depender do ônibus e metrô, medo de não conseguir equilibrar os estudos, o trabalho e a vida pessoal. Medo de me formar e estar desempregada, medo de me formar e estar empregada, mas não dar conta do trabalho. O medo dormia e acordava comigo nos últimos anos da faculdade, até que virou ansiedade.

Foi depois de uma crise de ansiedade terrível, daquelas que o coração palpita a mão sua e a mente fica toda embaralhada, que eu percebi que precisava cuidar mais de mim. Então segui em frente, comecei a terapia e logo que descobri os benefícios da Hatha Yoga, iniciei as aulas.

Posso dizer com todas as letras que foi o medo que me levou para a yoga. Todos aqueles receios faziam com que eu não respirasse direito, não vivesse o momento presente e não me conectasse com o meu interior, sempre ansiando o futuro ou remoendo o passado. Então busquei a yoga para resgatar a famosa paz.

De imediato fui observando os efeitos mentais: me sentia mais relaxada, com mais facilidade para focar e mais “alegria de viver”. Era pura gratidão. Aos poucos, fui me aproximando também da filosofia.

O que a yoga despertou em mim

A yoga é uma prática milenar oriental que trabalha o corpo e a mente. Portanto, além das posturas, que são chamadas de Asanas, a yoga também contempla disciplinas morais e práticas meditativas. Todas essas etapas reunidas formam a Ashtanga, que são os oito passos fundamentais da prática de yoga.

Na parte da teoria e disciplinas morais, os yamas são as abstenções, ou seja, aquilo que você idealmente deve evitar ou não fazer. Consiste de forma resumida em: Himsa, a não violência consigo mesmo e com todos os outros seres vivos (é aí entra a questão do veganismo para boa parte dos praticantes); Satya, falar e viver a sua verdade; Asteya, não roubar; Brahmacarya, continência; e Aparigraha, o desapego e respeito aos ciclos.

Já os Niyama são as observâncias, ou aquilo que você deve trabalhar em si mesmo. Os niyamas são: Sauca, a purificação e o ato de purificar o corpo; Santosha, o contentamento e a alegria de viver; Tapas, a austeridade e a simplicidade de viver com pouco; Svadhyaya, o estudo e a devoção a esse ato; e Ishvara Pranidhana, a consagração de Deus.

Para a prática da meditação, o Pranayama é o controle respiratório para meditar e auxiliar as posturas, e a Pratyahara é a retração dos sentidos, para desligar os estímulos exteriores. A maioria das pessoas só atinge esses dois níveis, porém, com mais empenho, podemos chegar na yoga mental, que se baseia no Dharana, que é quando fixamos a atenção e nos concentramos em um objeto meditativo, que pode ser a sua respiração por exemplo; e no Dhyana, que é a capacidade de dar continuidade a essa concentração por alguns minutos ou horas. O último estágio é o Samadhi, que alguns chamam de o ápice da meditação, a iluminação, a conexão com o eu. Esse eu “nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”, assim como o caviar.

Aprendi tudo isso depois de poucos meses de yoga. Alguns ensinamentos foram lindamente compartilhados pela Larissa, minha professora, que sem nem saber é um anjo em minha vida. Outros eu pesquisei, para me aprofundar mais no assunto. Contudo, com o passar do tempo, cheguei em um ponto conflitante com a yoga: após cerca de nove meses de aula, eu ainda me sentia muito tímida nas posturas, as famosas Asanas. Foi nesse momento que eu percebi que o medinho lá de trás ainda residia em mim, e resolvi encará-lo mais uma vez.

Depois de tanto perguntar a mim mesma porque eu não conseguia fazer a invertida com a cabeça para baixo, eu simplesmente parei de me perguntar e fiz. Me machuquei sim, como eu previa. Cai várias vezes, mas nada grave. Eu caia dando risada, porque depois de tantas quedas, falhas e corações partidos nessa vida, eu sabia que cair era fundamental para impulsionar a subida. Se eu não arriscasse, não sairia do lugar.

Logo, depois de tentativas sem medo, a postura veio e eu chorei. Chorei porque consegui realizar um asana que exigia habilidades que eu não estava cultivando nos últimos anos: equilíbrio, calma e coragem. Coragem para inverter a lógica natural da qual estamos acostumados e literalmente trocar as pernas pelas mãos. Coragem para sair da zona de conforto. Coragem para ver beleza no caos, em um ângulo diferente, quando a vida vira do avesso.

Naquele momento de relaxamento, depois de me equilibrar de cabeça para baixo, percebi que na verdade aquilo não era fácil e nem impossível. Era simplesmente difícil, mas deixou de ser, depois de uma boa dose de coragem. Então após o choro, com as costas deitadas confortavelmente no tapetinho, eu de fato relaxei como nunca mais havia relaxado. Realizada.

Após tanto tempo me cobrando, tentando achar o controle da minha vida e me sentindo obrigada a conquistar metas e objetivos que eu nem sabia quais eram, comecei gradativamente a resgatar o controle do que mais importa: de mim mesma. Do meu corpo e da minha alma. Voltei a confiar em mim e no universo, sabendo que jamais conseguiria se não me arriscasse.

Aos poucos vou entendendo que não há mais o que ansiar. Entre riscos e quedas, é possível. Até quando tudo parece de cabeça pra baixo.

BEATRIZ MAZZEI pratica yoga, faz terapia e busca alternativas para lutar contra a ansiedade. Além disso, escreve muito, come brócolis e se emociona com comercial de margarina e perfume.

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Beatriz Mazzei

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Jornalista, assessora e cronista. Ouve do rock ao samba, passando pelo rap. Acredita em empatia, signos e brócolis. @beamazzei_

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