UM LIVRO PARA NOS DAR A DIREÇÃO: ‘OS INVERNOS DA ILHA’

Confesso que jamais tive a pretensão de ocupar este espaço no Medium e principalmente na Revista TrendR com uma…resenha de livro. Não é minha especialidade, embora já tenha arrumado confusão com diversos autores no velho caderno de Idéias do Jornal do Brasil, lá pelos idos de 2004, acredito. Não tenho a técnica da resenha — sigo um roteiro basicamente emocional, descrevendo de que forma o livro me impactou. E vamos lá: estou absolutamente impactado pelo extraordinário livro de estreia de (pausa para consultar o nome do autor, sem ofensas) Rodrigo Duarte Garcia. Sim, estou resenhando um autor praticamente desconhecido. O nome do livro? Os Invernos da Ilha (Ed. Record, 462 páginas). Anote. Compre. E leia sem parar. É basicamente isto: ler sem parar, com grande prazer, e um excepcional voyeurismo nos diálogos internos do narrador.

Livro para quem gosta de ter fome de ler

Seria chatíssimo me deter aqui em descrever os diversos tipos de leitores e para quais Os Invernos da Ilha se destina. Se conservadores, se esquerdistas, ateus ou modernistas, enfim, Os Invernos da Ilha têm uma destinação específica, independentemente do espectro ideológico: aqueles que sentem falta de um livro que os faça querer voltar para casa logo. Sim, aquele livro no qual você pensa quando está no trabalho. Quando está bebendo com os amigos. Quando está dando sua caminhada. E você pensa em poder retomar e mergulhar no universo criado pelo autor, um universo que é essencialmente definido pelas frustrações e anseios dos personagens. E que personagens espetaculares!

Vamos a eles.

Florian Links, digamos, o “nosso herói” (na verdade, o narrador e protagonista mesmo), é um sujeito que desembarca num mosteiro que fica numa ilha na costa chilena, cheia de histórias de corsários e viajantes que passavam por lá em navegações em torno do planeta. Ele é recebido por Dom Fernando, um dos monges, com o qual ele tem uma ligação anterior (não farei spoiler). Dom Clemente é o monge-chefe, ao qual Dom Fernando se reporta. No mosteiro, ele conhece o francês (há controvérsias, conforme se verá) Phillipe Rosseau, um sujeito pernóstico, caricato, um personagem propositadamente fictício, irreal, pouco verossímil. Quase uma espécie de coelho de Alice. Mas INVERNOS é tão perfeito que não se desmancha com um intruso destes — ele é absolutamente necessário.

Também surge, no caminho de Florian, a nativa Cecília. Ela, Rosseau e Florian são o trio básico de toda a trama que vai se desenhando.

Quando comecei, tive a sensação de estar em um livro de Camus, mais precisamente O Estrangeiro (que inspirou a música Killing an arab, do The Cure): a paisagem era sufocante, apesar de ser fria, quase gelada e repleta de ventos — ao contrário do calor do deserto que resulta em homicídio do livro de Camus. Fui precipitado. Se em Camus o calor, o deserto sufocante, a praia estranha, servem para explicar um momento, em INVERNOS este início permeia todo o livro, pois se refere também à alma de Florian, sobre quem Sêneca diria que “não há vento favorável para quem navega sem direção”. Não é à toa que em determinado ponto do livro ele reserva passagens aéreas para três pontos do planeta completamente diferentes. Florian Links, apesar do nome, está sem conexão com nada. Sofreu uma grande tragédia (spoiler que não cometerei) e perdeu completamente a direção.

O livro, portanto, neste sentido, me lembra Sêneca: tudo que Florian precisa é de uma direção. O leitor, no entanto, vai dividindo o dia-a-dia maçante (ma non tropo, diga-se) de Florian num convento com uma tremenda aventura descrita nos diários do corsário holandês Oliver van Noort, que por volta de 1600 passou pela ilha. Ali se misturam a violência carnal de O Coração das Trevas (Conrad) e a natureza herética, terrível, de Moby Dick (Melville). Me lembra até a frase de um filme de Lars Von Triers: Nature is the devil’s church.

Só que a trajetória de Van Noort e de Florian Links atingem, juntas, um ápice, lá pelas tantas. A tradução dos diários de Van Noort, feita por Rosseau, chega ao fim. E também chega ao fim determinada experiência de Florian. Aí, depois de mais de 80% do livro, começa o que se chama de Segunda Parte — e o momento em que o livro mais se torna uma aventura. E Camus nos retorna, precisamente nos lembrando de A Queda, aquele dilema ético, vivido por Florian pelo menos quatro vezes: salvar ou não salvar seu semelhante? Ao longo do livro, Florian vive o dilema, mas na Segunda Parte o vivencia de forma extrema, como se verá.

A narrativa de INVERNOS consegue com perfeição aliar filosofia com história e uma ação por muitas vezes desenfreada. E mais um motivo pelo qual eu não deveria ter feito esta resenha — não terminei o livro. Ainda me faltam cerca de 80 páginas. Que eu tento ler aos poucos, para preservar o livro “vivo” — mas a leitura de INVERNOS nos dá isso: fome de ler mais e mais. De seguir em frente, como em uma caça ao tesouro.

Os Invernos da Ilha é desses livros que você dificilmente aceita que virem filme — porque você vê o filme com muita nitidez durante a leitura, se embolando com seus personagens, que cumprem exatamente o que se espera de um personagem no melhor estilo Syd Field, ou seja, que queiram algo, mesmo sem saberem direito o quê, mas que tenham que superar mil barreiras para alcançar. E você, leitor, sentindo tudo junto, desatando e atando nós, juntando os cacos e quebrando velhas caixas de conteúdos misteriosos.

A boa e velha (?) literatura de ficção respira, levanta da cama e sorri, com este magnífico Os Invernos da Ilha. E sai andando. Com direção.

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