Um texto sobre bissexualidade antes que seja censurado falar sobre isso

Thuyla de Freitas
Oct 25, 2018 · 5 min read

Na adolescência eu tinha uma amiga, para não expor ela vou chamar ela de Maria. Eu amava a Maria, ela era linda, inteligente, dedicada aos projetos dela, independente, ela me inspirava a ser uma pessoa melhor e eu só queria poder ficar mais na companhia dela. Mas um certo dia ela se afastou de mim, não me disse adeus, só sumiu e eu fiquei muito triste porque não tinha entendido o que tinha levado a Maria a sumir da minha vida. Anos depois ela me procurou e me contou que estava apaixonada por mim, mas como teve medo e ficou confusa decidiu se afastar. Eu entendi, mas fiquei muito chateada, porque eu também gostava da Maria, só não sabia lidar com isso. Fiquei pensando como teria sido bom se eu e ela tivéssemos a oportunidade de compreender juntas nossa sexualidade, de apoiarmos uma a outra, como teria sido bom se a gente tivesse a chance de tentar entender juntas o que aquele sentimento significava. Mas isso é idealizado demais para a nossa realidade heteronormativa. Então Maria teve namorados homens e eu também.

Durante a faculdade a maior parte do tempo eu namorei, com homens, por longos anos, poucas foram as vezes em que fiz festa e pude aproveitar todo o contexto de bebedeiras&ressacas, fui viver isso aos 22 anos, formada, morando sozinha e trabalhando, a legítima adolescência tardia, mas antes tarde do que mais tarde, né? Nas poucas vezes que saí durante minha primeira graduação em algumas beijei meninas. Não entendia ao certo o que isso significava, outras amigas faziam o mesmo, era normal, era um beijo não tinha nada demais nisso, como diria a Katy Perry. Passou. Terminei a faculdade, segui me envolvendo com homens. Trabalhei, toquei minha vida, me interessando por homens. Fiquei solteira, criei uma conta no Tinder, coloquei para homens e mulheres, mas só conseguia dates com homens. Saí, fiquei, transei, com homens. Quebrei a cara, me envolvi em relacionamentos curtos, com homens. Uma vez, uma única vez fui em uma festa, bebi muito e transei com uma mulher. Não entendi, eu estava muito bêbada, vivi a experiência, mas não consegui compreender a dimensão dela para a minha sexualidade. Eu vivi uma vida compreendendo o funcionamento de um homem, o ego frágil, os joguinhos, a infidelidade, a disputa, as relações de poder, os abusos, eles não me assustavam. Não é como se eu fosse a expert no assunto mas depois de um, dois, três tombos você acaba pegando a prática do que é se relacionar com um homem e isso eu já sabia bem.

Eu cresci sem compreender se gostava de mulheres ou de homens, minha cabeça limitada pelos moldes em que cresci me obrigavam a fazer uma escolha, sem modelos, com uma série de medos e um ideário moralista a respeito dos meus desejos. Minha família é religiosa, se envolver com alguém do mesmo sexo era tido como algo errado, nojento. Consegui desfazer essa ideia racionalmente com muito trabalho, ainda era difícil beijar uma menina sem me sentir culpada. Mas mesmo superando essa parte, ainda não sabia o que fazer a respeito da menina que fui, uma menina que brincava de casal com as amiguinhas e os amiguinhos, porém, sempre viu isso como coisa de criança só para não ter que encarar a verdade do que era ser alguém bissexual.

Sempre me achei muito segura a respeito da minha sexualidade, porque na minha cabeça eu nunca havia me privado de viver uma experiência caso eu quisesse. Então eu acabei me envolvendo com mais uma menina e bom, foi estranho. Dessa vez eu não estava bêbada, vivi a experiência ciente o tempo todo do que estava acontecendo, gostei. Finalmente, depois de 24 anos pude assumir para mim mesma que ok, eu gosto de meninas e de meninos. Então qual a origem do estranhamento? Era como se eu pudesse ver a barreira, tocar nela, entretanto, desfazer ela era complicado. Eu consigo identificar tudo racionalmente, mas ainda assim meu corpo e meu ser agem de maneira aversiva. É como se inconscientemente eu negasse minha sexualidade. Sei que consigo trabalhar isso com o tempo, mas é doido como ficou evidente isso tudo após eu me permitir viver novamente uma experiência com uma menina. É algo psicológico, que vai além de escolhas conscientes. É um bloqueio. Somos naturalizadas a gostar de homem e por isso ficar com mulher, por mais que seja prazeroso gera estranhamento porque aprendemos a achar “normal” gostar de homem.

Não sei como é ser gay. Não sei como é ser lésbica. Não é meu local de fala, mas o que posso dizer é que se entender como bissexual é complexo porque a visão que a gente cria a respeito disso tudo fica nublada e tem a ver com os padrões de um construção moral, social, uma convenção na qual crescemos. Como aceitar algo que achamos que não é real? Há a certeza de gostar de homens, enfiar num baú profundo o desejo por uma mulher é tão mais simples do que assumir as implicações que isso traz. Nunca tive oportunidade de desenvolver nada com uma mulher. O estereótipo do bissexual é o de alguém confuso que não sabe o que quer. Até mesmo entre os LGBTS há desrespeito porque se criou uma ideia de que as bissexuais ficam “preterindo” as lésbicas por causa de homem. Quando na verdade nós, mulheres bi, só não sabemos como nos relacionar com mulheres porque nunca tivemos a oportunidade de entender isso em uma sociedade que nos condiciona a viver relacionamentos mais fáceis e cômodos, leia-se: relacionamentos com homens.

Não quero cagar regra com esse texto, esse foi o meu processo para entender a minha sexualidade, ele ainda está acontecendo, ainda há estranhamentos e diversas coisas que não entendo. Eu estou aprendendo e me entendendo e levei 24 anos para dizer para mim a verdade a respeito disso, ninguém tem o direito de apontar o dedo com relação a isso porque é algo muito pessoal, é algo só meu. Dói saber que na situação atual e no nosso contexto social oprimam ainda mais qualquer possibilidade de compreensão acerca disso e o B da sigla LGBT seja praticamente invisível e signifique “bóra ficar no armário”. Espero que nós mulheres possamos nos sentir cada vez mais seguras a respeito do nosso corpo, da nossa sexualidade e como ele é feito para nós, para nos dar prazer. Hoje ao menos posso dizer que me sinto feliz por ter certeza que gosto de meninos e de meninas e que não tem nada de errado nisso, só falta convencer meus bugs inconscientes a colaborarem com isso.

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às vezes faço uns textos de umas coisas que vivo e sinto

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