Uma época não pode diminuir uma dor

por mais que a política prefira que a gente se esqueça de sermos humanos

Acabei de ler no Instagram da Maria Ribeiro o trecho de um texto que o Marcelo Rubens Paiva escreveu no The New York Times sobre o que aconteceu com a sua família durante a ditadura. Eu não vim aqui falar sobre os comentários terríveis que algumas pessoas fizeram.

Hoje eu quero refletir sobre traumas, sobre a crueldade.

Já escrevi sobre o meu amigo assassinado e como a minha visão de mundo mudou desde Setembro de 2000. Convivo desde então com o que o psicanalista Christian Dunker chama de efeitos positivos: na minha mente tenho gravada todas as imagens que ilustram aquela época em que fui obrigada a entender que o mundo não se resumia ao bar em frente a faculdade ou a festa Open Bar de sexta-feira: ele não foi nada delicado quando me fez ver no jornal a foto do corpo do meu amigo sendo tirado de um matagal depois que o encontraram amarrado a uma árvore.

Sadismo puro que mudou toda a minha vida jovem de poucos arroubos de solidariedade e medo.

Depois dessa ruptura com a tranquilidade passei pelo MSN, Orkut, Instagram, Facebook, um cabelo vermelhão e comprido, outro curtinho e com luzes, beijei, casei e vivi para ter minha ansiedade engatilhada e sentir pavor por dores que muitas vezes não são minhas, porque passei a ver os efeitos dos crimes pelos olhos das vítimas.

Uma vez me disseram que devo ter hormônios demais.

Eu não tinha assistido os vídeos da votação do último processo de Impeachment pelo qual o Brasil passou até três ou quatro meses antes da eleição, e quando finalmente tive coragem parei no voto do presidente eleito domingo passado. Se arrependimento matasse.

Eu senti tristeza. E muito medo.

Odiamos e tememos a violência mas temos dificuldade em estender essas sensações até às pessoas que sofrem com ela em situações que não vivemos ou viveremos, nesse ponto é que a crueldade acha um habitat pronto para se reproduzir.

Eu não pensei em política quando vi o nome do homem que comprovadamente torturou pessoas nos anos 60 ser usado contra uma das suas vítimas. O que me assombrou foi imaginar como alguém que carrega tamanhas cicatrizes se sentiu ao ver seu algoz sendo ovacionado como herói ( com certeza não aconteceu só com a Dilma naquele momento).

Independente do contexto , sangue será sempre sangue.

Não há dignidade alguma na alegria em vê-lo ser derramado.

A foto do texto do Marcelo no insta da Maria não mostra muito dele, mas eu li Ainda estou aqui, seu livro tributo à mãe Eunice Braga e ao pai o deputado Rubens Braga, morto no regime militar, fato só reconhecido mais de quarenta anos depois do seu assassinato. A família do Marcelo também tem estado nos meus pensamentos e vibrações junto com as outras pessoas que estão sofrendo ao ver os seus piores pesadelos serem esquecidos e desdenhados por uma cegueira desmedida, que renega a História de seu país.

Ter uma pessoa amada tirada violentamente de nós é endurecimento, desesperança, dor que não sara. Não sei se os assassinos do meu amigo estão presos ainda, mas diante de um cenário caótico como o brasileiro criei para mim um cenário digno de filme de terror: e se um deles virasse um político idolatrado, um cantor famoso, um esportista contratado?se a memória daquele que eu amava se tornasse irrelevante?

Como eu me sentiria?

A tristeza que ainda me habita pela morte do Anselmo nunca foi usada contra mim, então não há no meu corpo, na minha memória, na minha consciência espaço para achar normal que com outras pessoas possa ser diferente.

Não é utopia.

Dor não se mede, ainda que o prazer em dizer “foi vítima porque era bandida !”, “ ele torturou, mas não matou” , “ passou já, bola pra frente” que guarda uma sensação de moral ( relativa) e bons costumes ( seja lá o que isso quer dizer) queira se convencer e nos convencer do contrário.

Haja estômago para não se deixar levar.

Que uma escolha política para um país destroçado pela violência urbana não nos torne insensíveis aos traumas e dores alheios. Nosso voto não tem nada a ver com o respeito por quem teve, seja lá a razão ou a época sua família humilhada, sua existência anulada pela violência.

O senso de humanidade sim.