Izabel da Rosa
Aug 14 · 4 min read
Photo by Gabby Orcutt on Unsplash

Uma família nos tempos de ontem se separou de um bebê. Trinta anos depois, há uma busca que desliza pelos nomes, sobrenomes, lugares. Uma brasileira de olhos profundos e que usa no peito o mapa do país que chama de seu. Mas a língua que fala é outra, o céu que ela fita está em outro meridiano no mapa global. Seu sangue de branca, de índia, de negra quer saber qual é o seu lugar.
Quer saber sua história. Por que sua mãe não a pôde criar? Por que não sugou o leite materno, não teve seu colo, não aprendeu os sons da língua latina? Por que o seu pai não viu seu primeiro sorriso, não lhe deu sua mão para amparar os seus passos, por que não comprou o seu pão?

São muitas perguntas e pistas incompletas de percentuais, matches, centimorgans do DNA no site de genealogia. Graus de parentesco escondidos entre os ramos e arbustos da árvore da vida.
Esperanças se criam — fugazes — e se perdem em histórias incertas nas frases que confundem pessoas, lugares e datas em meio a emoções infantis.
Dados perdidos em catástrofes, incêndios e inundações são lacunas que levam a nenhum lugar. Fecham-se portas, vielas se ocultam, e pessoas e amores e filhos e pais ficam sem ligação.

São horas e horas de pesquisa e de tentativas de tentar compreender. Serão estes os parentes dos outros, será este nome o tio que ela busca? Será esta a sua bisavó?

Quem sabe a mãe a teve nos braços e depois a cobiça a roubou do seu colo. Quem sabe a pobreza a fez pensar que a vida que tinha não seria capaz de tornar aquele pequeno ser em alguém com uma vida digna de viver. Trinta anos passados, essa mãe carrega escondido no fundo do peito a dor de saber que um pedaço que é seu está perdido no mundo. Mas como encontrar?

O s registros são vidas que se iniciam em nomes, sobrenomes, lugares. E se unem depois em datas de casamentos com testemunhas, escrivães, assinaturas. Frequentam igrejas em batismos e bodas de outros casais.
Depois, numa marca final, são óbitos de causas naturais, acidentes, fatais.
E repousam no eterno dos livros, das imagens de um século atrás.
Os nomes não têm mais poder, não têm mais lugar, não têm mais história. Estão perdidos em cidades inteiras que se sobrepõem aos locais, ao ontem. Talvez estivessem em luta quando a vida corria nos vales, nos campos, nas cidades pequenas que os séculos mudaram. Hoje compartilham da mesma data, da mesma página em caligrafia irregular.

E, no meio desse caminho, muita solidariedade de gente que a brasileira de olhos profundos não pensava encontrar. Gente que não se conhecia e que hoje quer ser parte da história perdida. E que tenta arrancar pequenos detalhes das memórias ocultas nos meandros do tempo. Gentes que não sabiam das outras se unem num laço de força e amor, que quer acolher, que quer descobrir, que quer desvendar. Esforço hercúleo. Mulheres unidas em uma mesma causa. Queremos encontrar essa mãe que teve seus motivos para perder seu bebê. Quem sabe esteja procurando também. Não sabe que os olhos tristonhos são daquele bebê que somente uma vez ela ouviu chorar.

E homens e mulheres dessa parte do mundo chamada Brasil se unem no esforço de encontrar onde foi que essa célula surgiu. E as horas se alongam, e os dias vêm e logo vão. Novos exames, números, rostos, o desejo tão forte, mas as pistas não têm nitidez. A esperança perde sua força. O foco não vem.
Mais outro exame. Uma família nova. No emaranhado das gerações, nos ramos partidos da árvore que se torna enorme, sobrenomes se cruzam, questionam-se as datas. E dá um desconsolo saber que em algum lugar está a informação que poderia levar a brasileira exilada para o colo da mãe. Como desvendar?
Continuar é difícil, mas como esquecer da brasileira de olhos tristonhos, do mapa no peito, do verde e amarelo que ela quer ostentar? Como deixá-la ser uma estrangeira no próprio país?

Não há como desistir.
E o grupo se une e tenta mais uma vez. Quem sabe os ramos da árvore do sul mostrem onde está a mãe que perdeu e, então, vão se reunir os olhos tristonhos da filha e da mãe, e ela terá o seu lugar no colo da mãe.


Mais informações no texto Retrato dos Genes

Texto baseado na busca que um grupo de pessoas, na maioria mulheres, está fazendo para ajudar uma jovem que foi levada ainda bebê do Brasil e que hoje quer descobrir sua família biológica por meio de exames genéticos e pesquisas em documentação das pessoas que compartilham genes com ela.
Existem muitas pessoas nessa situação fora do país. Veja você também o site para informações sobre esse exame que vai lhe dar dados de todas as etnias da sua família e que ainda pode ajudar alguém a descobrir a família biológica.

registros digitalizados dos cartórios do Brasil

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Izabel da Rosa

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Uma pessoa, muitos personagens, múltiplos interesses. Escrever é dividir o que vivo. Escrever me faz sentir viva.

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