Uma mímese chamada Verdades Secretas

Pois o que importa agora, na Globo, é a embalagem


A prudência me fez esperar dez capítulos para, enfim, escrever sobre Verdades Secretas. Pela primeira vez o horário das 23h abre espaço para uma trama inédita — antes, era a faixa especial de remakes de novelas clássicas. A nova trama também é a segunda do autor Walcyr Carrasco no horário.

Antes da estreia, Verdades Secretas causava curiosidade: afinal, depois de rejeitar sumariamente Babilônia e seus temas condizentes com a sociedade, mas rejeitados por um público conservador, o telespectador “compraria” uma história com modelos “ficha rosa”, nudez e drogas dentro do universo glamoroso das modelos?

Verdades Secretas é Walcyr Carrasco da primeira à última frase de cada capítulo. O texto caminha entre a naturalidade e o exagero, visto também em Amor à Vida. Desta, o autor aproveitou as afetações de um médico homossexual (o Félix de Mateus Solano) e as transferiu para o booker Visky. Aqui, a sutileza não existe, mas é muito mais eficiente. Entre tiradas ácidas e apelidos pejorativos, o público conservador “compra” o personagem estereotipado. Em um universo tão estereotipado como o da moda, o papel de Rainer Cadete caiu como uma luva.

foto: Globo/Zé Paulo Cardeal

Por outro lado, a trajetória de Angel/Arlete (uma estreante e segura Camila Queiroz) é construída como a maioria das heroínas de Carrasco. Uma doce jovem, linda e inocente enfrenta o dilema de entrar para o “book rosa” para sustentar a família, que passa por dificuldades financeiras. A angelização se dá no primeiro desfile de Angel: quase pura, cândida, virgem. Sua nudez é endeusadora. Seu medo no primeiro encontro logo dá vazão à atração pelo empresário. Logo, ela se apaixona. Coisas de novela ou ingenuidade da garota do interior. Opção comprada com sucesso.

Nudez esta que nunca se viu tanto na Rede Globo. Um festival de bundas femininas e, surpreendentemente, masculinas. Depois de Danny Bond (Paolla Oliveira) na minissérie Felizes para Sempre?, a bunda tornou-se fetiche da emissora. Fetiche e sinônimo de uma suposta ousadia. Uma ousadia atrasadíssima. O furor causado pelas cenas de nudez é constrangedor para um país que já exibiu justamente o glúteo em abertura de novela (!).

foto: Globo/Estevam Avellar

As tramas de Verdades Secretas transitam entre o absurdo (Visky e disputas toscas com a gordinha da agência — olha aí, novamente, o estereótipo), o aborrecente (as cenas no colégio são uma afronta ao bom senso em uma novela das 23h), e a sensação de ser uma história “fora de hora”.

O universo das modelos não causa mais o frisson de alguns anos atrás. O ocaso de Gisele Bundchen levou consigo a relevância da moda enquanto “sonho para muitas meninas”. A história do “book rosa” — em uma agência de modelos comandada por uma adorável e cínica Marieta Severo — é mais uma das lendas desse universo — assim como qualquer outro que possui seus “mistérios”. Porém, há uma interessante proposta de mostrar esse universo como ele é. Quem já cobriu uma SPFW (este que vos escreve, por três vezes), sabe que os bastidores são daquele jeito, quando não mais neurótico. O tema não tem mais o espírito do tempo de outrora.

A abordagem de Walcyr Carrasco fez, logo nos primeiros capítulos, emergirem críticas em relação à suposta ideia de que o universo da moda é infestado pelo “book rosa”. Um chegou a dizer que, se fosse nos Estados Unidos, processaria o autor pelas inverdades ditas do universo. Tão cômico quanto as cenas de pastelão tão comuns à Carrasco. Se fosse assim, veríamos o governo americano trucidando a Netflix por House of Cards…
Aqui está o grande e perigoso problema da novela no Brasil: a falta de leitura deu lugar à TV. Único entretenimento, criou-se o mito na sociedade de que novelas devem exibir conteúdos, digamos, mais “edificantes”. Como se novela — ou qualquer outra ficção televisiva — fosse instrumento de educação. Boas histórias precisam ser bem contadas. No lugar da educação, entra o espírito do tempo de uma sociedade — e leva esta para o puro entretenimento.

Por outro lado, os próximos capítulos podem fazer emergir uma discussão que, esta sim, capta o espírito do tempo: drogas. No sétimo capítulo (talvez a cena mais interessante da trama em relação ao conteúdo), a mimada Giovana (Agatha Moreira) foi flagrada fumando (até então não se sabia o que) junto com as amigas pela mãe, Pia (Guilhermina Guinle). Rindo de tudo e todos, a mãe rica e conservadora esperou o pai de uma das garotas chegar e, claro, fazer uma “reunião” sobre as garotas estarem fumando maconha (acho que esta foi a primeira vez que ouvi o nome da erva na emissora). As garotas, rindo ainda mais, dão o xeque-mate: ELE É A FAVOR DA LEGALIZAÇÃO! KKKKKKKK! O pai, um economista, justifica: “Sabe como é, muito trabalho, ajuda a relaxar!”. Uma discussão relativamente pífia, curta, sem reflexão, mas muito mais interessante.

Mas, é preciso aguardar: a viciada personagem de uma surpreendente Grazi Massafera tem muito a mostrar— como não lembrar de Loemy Marques, ex-modelo encontrada na cracolândia, em São Paulo?

O sétimo capítulo também rendeu uma das mais belas filmagens que já vi na TV aberta. O striptease de Angel para Alex (o invariavelmente canastrão Rodrigo Lombardi) foi de rara beleza: sob a luz do projetor, formas, volumes e cores davam vida ao corpo nu de Camila Queiroz.

Chegamos ao ponto central: a fotografia é cuidadosa, se permite transitar entre contrastes, luzes, posicionamentos, enquanto também abre espaço para clipes toscos, com efeitos pretensamente “cool”, inundados de cores fortes, sobreposições, divisões de tela, enfim: o horror.

Esse cuidado é a mímese do título: nos últimos anos, a emissora se preocupa muito mais com a embalagem de seus produtos do que com seus conteúdos e histórias. Com exceção de Felizes para Sempre? e Os Experientes, feitos pela produtora O2, a maioria dos produtos globais primam pela qualidade técnica, mas falham nas tramas: ora são simples demais, ora são mal contadas. Verdades Secretas é o espelho da Globo: prioriza a produção em detrimento do conteúdo.

A única verdade secreta de Verdades Secretas é que o horário deveria continuar com remakes de clássicos. Afinal, ter a mesma audiência (ou, em alguns dias, menos) que O Rei do Gado, novela da década de 1990 e exibida à tarde, é sinal de que o conteúdo é mais importante que a embalagem.

E sempre será.


Algumas verdades sobre Verdades Secretas:

  1. Este pode ser o melhor trabalho contemporâneo de Walcyr Carrasco. O horário permite mais liberdade, ainda que o estilo do autor esteja presente em quaisquer obras.
  2. A direção de Mauro Mendonça Filho remete à obras anteriores: a série Dupla Identidade (o retorno dos comerciais segue o mesmo conceito: não há “estamos apresentando” ou “voltamos a apresentar”) e até mesmo O Astro, primeiro remake do horário em 2011.
  3. O horário deveria continuar exclusivo para remakes. Afinal, seria muito mais interessante — caso fosse possível — ver uma nova versão de Xica da Silva, escrita por Carrasco sob o pseudônimo de Adamo Rangel na extinta Rede Manchete em 1996. Mas fica a dúvida: se Xica da Silva já exibia relativa nudez, como seria agora? Verdades Secretas poderia render muito mais no formato de série/minissérie — assim como O Rebu, em 2014.
  4. A trilha sonora é matadora. Mais livre, não há a fixação por temas de personagens. Em O Rebu, a situação foi semelhante… Por outro lado, a trilha sonora incidental padece de um problema crônico na produção nacional pelo excesso. Em uma interessante cena onde Alex conversa com o filho sobre sexo, a trilha infantilizou a situação, por exemplo.
  5. …semelhança que também se repete na abertura de Verdades Secretas. Há ecos fortíssimos da abertura de O Rebu na nova trama: desfoques, travellings, cores.
  6. Carrasco e Mendonça não tem culpa. O produto entregue é bom, cuidadoso, a história — até o momento — tem ritmo e prende, mas peca na relutância da emissora. Esta, sim, a culpada por não apostar em produtos mais interessantes. Quando aposta, refuga (as mudanças em Babilônia e a pouca exibição de Os Experientes) ou está atrasada.