Uma nova história: do medo para o amor

Encaramos o mundo a partir de histórias e narrativas que nos contam. Vivemos nossas vidas com base em uma história de medo e eu resolvi viver uma nova história. Uma história baseada em amor.

Há pouco mais de 1 ano, em uma dessas discussões que mudam a gente mesmo sem querer, alguém me disse: “nós, seres humanos, não sabemos amar de verdade e provavelmente jamais iremos experimentar o amor”. Era uma segunda-feira à noite, e segundas-feiras parecem ter realmente um poder sobre a gente, e ali algo em mim mudou. Afinal, eu não quero viver em um mundo onde não somos capazes de amar, eu não quero viver em um mundo sem amor. E ali surgiram projetos e ideias, sem muita certeza de para onde ir mas com a certeza de onde eu não queria ficar. Para chegar no mundo em que eu quero viver seria preciso se não um milagre, uma grande transição, que alguns meses depois entendi que seria uma transição do medo para o amor.

“Existem apenas duas emoções: uma é o amor e a outra é o medo. Amor é a nossa verdadeira realidade. Medo é algo que nossa mente inventou, e por isso é irreal”. Gerald G. Jampolsky

Uma história fundamentada em medo

Medo de envelhecer e medo de morrer cedo. Medo de ficar desempregado e medo de trabalhar em um emprego entediante. Medo de se comprometer e medo de nunca mais se apaixonar. Medo dos nossos chefes e medo dos nossos empregados. Se pararmos para observar, o medo está por toda parte. Desde que Eva comeu a fruta proibida, até quando assistimos vinte minutos do Jornal Nacional, o medo está lá, sussurrando algo bem chato nos nossos ouvidos. Está na ciência, na religião, no sistema econômico, dos discursos de vovozinhas preocupadas aos de presidentes de corporações.

Foto: Caleb Woods

O medo está na base da história que a gente se conta sobre o que é ser humano e sobre o que é viver nesse mundo: nos percebemos como seres separados, vemos todos os recursos como escassos, entendemos o mundo como um lugar hostil e competitivo onde ganha o mais forte e achamos que não podemos confiar nas pessoas (nem mesmo naquelas que deitam conosco em nossas camas ao anoitecer). E quando a gente se conta a história dessa forma, ela afeta toda nossa vida: a forma como criamos negócios, como nos relacionamos, como pensamos, como agimos e até como sentimos.

O nosso medo faz a gente tentar segurar tudo bem forte, porque ao nos contarmos a história dessa forma somos levados a uma busca incessante por segurança. E assim a gente se apega, tenta planejar tudo nos mínimos detalhes, criamos muros (nas nossas casas, nas nossas opiniões e nas nossas vidas) e, obcecadas com a nossa própria felicidade (afinal, quem irá nos proteger ou favorecer?), nos tornamos altamente egoístas sempre pensando em como as situações irão nos afetar positiva ou negativamente.

Atrelada a história do medo vem a história da separação e da dominação, que têm por trás uma natureza violenta e exploradora que dificulta experimentar o ato genuíno de dar. Com essa mentalidade, quando damos o que quer que seja (tempo, atenção, carinho, força criativa, etc), entendemos que estamos perdendo algo. E assim, esperamos receber algo de volta e/ou nos colocamos na posição do doador ferido (“eu fiz tanto por você, porque você não pode fazer isso por mim?”). Quando temos medo não sentimos o caráter produtivo de dar e assim nos tornamos realmente incapazes de amar.

“Se você quer mais amor na sua vida a solução não é tentar conquistar o amor dos outros. Ao invés disso, o que você precisa fazer é dar amor. Quando você dá amor incondicionalmente para os outros, você aumenta o amor em você” Gerald G. Jampolsky

Necessidades, separação, medos e crises.

Seja quando alguém grita comigo no trânsito, quando uma guerra tribal se inicia em um vilarejo na África, quando um terrorista desgovernado mata dezenas de pessoas em Nice ou quando eu e minha mãe brigamos e passamos uma semana sem nos falar, a raiz dos conflitos é basicamente a mesma: alguma necessidade não está sendo atendida. Todos nós, como seres humanos, temos necessidades, e elas são universais e interligadas. E quando necessidades não são atendidas, conflitos internos e externos são gerados.

Quando sofremos ou quando alguém briga conosco, há alguma (ou algumas) necessidade (s) não atendida (s). Qualquer conflito é um pedido de socorro oriundo do medo, é um pedido por amor. Mas como nessa história fundamentada por medo não fomos educados para pensar em termos de necessidades, buscamos resolver conflitos e preencher nosso vazio latente com segurança. E buscamos segurança nos apegando a coisas e a pessoas, usando da força, tentando controlar tudo, acumulando dinheiro e posses, ansiando por status, entulhando nossa mente com informação ou tentando conquistar poder. E assim multiplicam-se os conflitos e também os produtos, os artefatos, as startups, os aplicativos e até mesmo as relações, mas as nossas necessidades continuam não sendo plenamente atendidas. E as crises não param de surgir.

“Pensamos que segurar firmemente as coisas nos trará segurança e segurança nos trará felicidade e essa é a nossa ilusão fundamental porque é o próprio apego que nos faz inseguros e é a insegurança que nos dá a sensação de mal estar e desconforto.” Jetsunma Tenzin Palmo — No coração da vida.

Uma história fundamentada em amor

“Não há nada no universo que também não esteja em você, e não há nada em você que também não exista no universo” Gerald G. Jampolsky

A história do amor é uma história de conexão. Temos medo porque achamos que estamos sozinhos e não conectadas, competimos com o outro porque achamos que somos diferentes e não a mesma coisa, achamos que o mundo é um lugar hostil porque não entendemos que nós somos o mundo. Sabe aquele sentimento que “somos todos um”? A história do amor é a história de que estamos mais do que interligados, nossa existência é literalmente relacional.

Foto: George Pagan

Eu confesso que entender que somos todos um não é lá muito fácil, talvez porque um dos princípios dessa nova história é permear o pensamento com as forças do sentir. Existem evidências científicas da existência de um inconsciente coletivo e há alguns anos a fenomenologia já estuda o quanto nossos atos, por mais que pareçam isolados, têm um significado e um efeito no cosmos. Mas a história do amor não é sobre usar apenas nossa inteligência, força e lógica, por isso prefiro deixar os argumentos de lado e falar com aquela parte que por muitos anos foi deixada meio de lado, o coração.

Agir com amor é ousar ser grande, ousar acreditar que existe algo maior que nós e assim entrar em um fluxo de menos controle e mais confiança. Quando agimos a partir do princípio de que não somos separados, a motivação dos nossos atos deixa de ser o medo e passa a ser o amor. Se vejo o universo como parte de mim, e eu como parte do universo, experimento uma inteligência maior, e assim surgem sincronicidades, possibilidades e novos caminhos se abrem. Se a outra pessoa sou eu, percebo a ligação central que nos conecta e não apenas as diferenças superficiais que nos separam. Se a outra pessoa sou eu, não condeno atitudes que poderiam ser entendidas como “erradas”, porque vejo que aquilo também é parte de mim por mais que eu o manifeste de forma diferente. Se o mundo sou eu, não preciso tirar o máximo que conseguir dele pois estarei tirando de mim mesma, e experimento o ato de dar sem esperar se virá algo em troca.

Importante ressaltar que quando falo de uma transição do medo para o amor, não penso que o medo deveria parar de existir. O medo também faz parte do que é ser humano, e a polarização de bom e ruim faz parte da velha história. A transição para o amor consiste em abraçar a verdadeira segurança que reside em se sentir seguro dentro da insegurança. É sentir o medo mas não mais ser movida ou dominada por ele, é aprender a reconhecer quais medos são reais e quais são artificiais ou imaginários e, principalmente, entender que o medo talvez até tenha sido importante em outros momentos, mas diante dos problemas que enfrentamos hoje, ele não pode mais ser o único a escrever a nossa história.

Gosto muito da definição do Charles Eiseinstein para transição: transição nada mais é que a transformação da experiência de estar vivo e do papel da humanidade no planeta. Se queremos um mundo onde as nossas necessidades, as necessidades dos outros e as necessidades do planeta sejam supridas, entendo que precisamos escrever uma nova história. Entendo que a experiência de ser vivo pode ser uma experiência de amor e que todo ato de amor pode ser um ato de transformação. Por isso eu escolho o amor em detrimento do medo e por isso eu acredito em fazer do amor revolução.

Foto: Javier Ramos