Uma sociedade armada é solução?

O estatuto sobre porte de armas

Ilustração da autora

O desarmamento ou não da população reapareceu como discurso político e pauta de muitos candidatos. O projeto de lei, em andamento desde 2012, defende o uso de armas por qualquer pessoa acima de 21 anos, independente da ocupação — incluindo “deputados, senadores e agentes de segurança socioeducativos” (!). Esse é um tema que creio tão perigoso e delicado que preciso escrever e arriscarei entrar na polêmica.

“Cuidado com estranhos na rua! Melhor não retrucar! A gente nunca sabe com quem está lidando! Vai que tem uma arma?”. Tenho certeza de que muitos de nós já ouviram isso. Ou seja, temos medo do outro, medo da rua, medo a céu aberto. No simples cotidiano muitas vezes já deixamos de colocar nossos direitos e opiniões por medo — reclamar com quem furou a fila, com quem está ouvindo som alto, com quem trava a passagem da esquerda, com quem te passa uma cantada — “vai que tem uma arma”? Com um armamento legalizado, o que antes era uma hipótese, e já alimentava uma atmosfera de medo, passa a ser possível e mais próximo da realidade. Ou seja, mais um item para inflar nosso medo compartilhado.

Muitos podem dizer que a lei é ineficaz, porque muitas pessoas já fazem o porte ilegal. Mas pelo menos, ainda há o controle da lei. É difícil de acreditar que se as armas de fogo forem legalizadas só serão usadas em situações extremas. Armas podem criar potenciais agressores — qualquer um pode tirar a vida de qualquer outro por qualquer motivo banal. E assim, aumenta-se o ibope de nossos noticiários sensacionalistas de tragédia. Violência NÃO É empoderamento. Isso é uma crença distorcida de uma sociedade que se sente oprimida, não enxerga soluções, e retroalimenta a violência e o medo.

Eu acredito que em uma sociedade não deveria SEQUER HAVER ARMA NENHUMA. Armas só deveriam existir no esporte olímpico de tiro ao alvo. A evolução de uma sociedade se faz com menos armas, retirando armas de circulação, e não estimulando seu uso. MENOS armas, MAIS educação, saúde, qualidade de vida, IDH.

Além de tudo isso, pregando a legalização de armas, o governo TIRA sua própria responsabilidade de promover todos esses outros aspectos que constroem uma sociedade digna — para que ninguém sequer precise de armas. “E até a sociedade evoluir assim, o que acontece”? Não temos a sociedade perfeita, mas isso também é jogar a segurança pública que ainda precisamos na mão do cidadão — literalmente! Se a lei atual sobre porte de armas não é respeitada, mais esforços deveriam ser investidos na sua fiscalização e eficiência.

Sei que muitas pessoas inocentes são ameaçadas por armas, traumatizadas, oprimidas, independentemente da cor, etnia e classe social. O sentimento em situações como essas deve ser tão forte a ponto de uma arma parecer uma defesa. Não culpo o cidadão por esse raciocínio. Porém, a nível de governo, candidatos políticos que deveriam ser RESPONSÁVEIS pelo povo, trazerem esse argumento da legalização das armas como uma solução fácil e rápida, ao invés de analisarem a questão com muito cuidado, é VERGONHOSO.

Em resumo, acredito que se as armas forem legalizadas, quem mais uma vez se dá mal na história é o cidadão, cidadã, trabalhador, trabalhadora, que não tem nenhuma vontade de portar uma arma, nem pensa na possibilidade de ameaçar ninguém com uma. Sou eu, você, que ouvimos o “vai que tem uma arma” de nossas mães, pais, avós, amigos, etc.

Ilustração da autora