O clamor de um povo que só quer liberdade, comida e viver em paz

Aline Castro
Sep 4, 2017 · 6 min read
Fonte: G1

A Venezuela está se esfacelando pouco a pouco, e não é de hoje. A mais ou menos 5 anos, a crise vem batendo à porta dos Venezuelanos, e agora, mais do que nunca, não só batendo mas, também, os expulsando de seus lares e os obrigando a lutar por sobrevivência. De um lado, um governo ditatorial, do outro, a população que só quer um pedaço de pão e condições humanas pra se viver. Infelizmente, esse cenário que pra nós parece distante e distópico, é real. Bienvenidos a Venezuela.

Retrospecto Histórico.

Você já deve ter visto inúmeras matérias e reportagens falando sobre a crise na Venezuela e o sofrimento do seu povo. Enquanto realizamos nossas atividades normais do dia-a-dia, centenas de venezuelanos cruzam as fronteiras do Brasil e da Colômbia buscando por auxílio, desesperados por abrigo e socorro. Mas, para entender a situação atual, é necessário que voltemos nossos olhos para o passado, a fim de compreender os fatos que corroboraram para as consequências de hoje.

Fonte: The Libertarian Republic

Hugo Chavez (foto anexa), ex-oficial militar, foi eleito presidente da Venezuela em 1998. Em suas promessas de campanha, prometia que utilizaria os recursos petrolíferos venezuelanos para reduzir as desigualdades e a pobreza de seu povo. Com seus ideais socialistas, durante seu governo, expropriou hectares de terra aos milhões e nacionalizou empresas privadas, incluindo algumas empresas petrolíferas, sempre acusando uma suposta corrupção generalizada das elites do país.

Assim como Maduro faz atualmente, Chávez almejava uma aliança dos países latinos contra o “imperialismo americano”, e dessa forma liderou a criação da plataforma de cooperação e integração social, política, econômica e regional intitulada de ALBA — Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América, que visava não só a cooperação dos países latino-americanos e Caribe, como também o auxílio econômico e social entre os países envolvidos.

Durante seu tempo na presidência do país, Chávez conseguiu que seus eleitores votassem um referendo para que a reeleição se tornasse possível no país, além de expandir os poderes presidenciais e reduzir o controle civil sobre os militares. Seis anos depois, em 2004, é removido temporariamente de seu posto, mas, anos depois já conseguiria a aprovação de um novo referendo que visava acabar com os limites presidenciais.

Chávez era popular no país devido sua narrativa de defesa dos pobres e de expansão de projetos de auxílio social — assim como vimos no Governo Lula, aqui no Brasil. Depois de uma longa luta contra um câncer, Hugo Chávez morre em 2013 — computando 14 anos no poder venezuelano, e Maduro é eleito com 50,6% da quantidade dos votos apurados, prometendo que continuaria o trabalho de seu antecessor, pelo qual possuía grande admiração e compactuava com seus ideais.

Entendendo o problema.

O petróleo representa quase que a totalidade da economia venezuelana. Segundo a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), 95% da receita de exportação do país se dá ao petróleo, o que representa 25% do PIB (Produto Interno Bruto). A empresa estatal Petroleos de Venezuela controla todo a exploração, produção e exportação de petróleo do país, cujo o preço caiu absurdamente em apenas dois anos: Em 2014, o barril custava U$111 e dois anos mais tarde, se encontrava em U$27. A receita de exportações de 66 bilhões de doláres em 2012 cai para 18 bilhões em 2016, fazendo com os produtos importados se tornassem cada vez mais caros e inacessíveis.

Isso sem contar os bilhões em dívida externa e uma crise inflacionária terrível, que estimada pelo Comissariado de Desenvolvimento de Finanças e Economia da Assembléia Nacional — Finance and Economic Development Commission of the National Assembly (AN), alcançará 679,73% este ano, e ao final de 2018 chegará aos 2.068,5%.

O The Economist definiu a situação em 2014 como uma tremenda má gestão e má administração da empresa estatal, que não conseguiu pagar suas contas durante uma grande queda do preço do petróleo. Naquele ano, a Venezuela já era vista como vulnerável e dependente de inúmeros fatores que a impossibilitariam do cumprimento dos compromissos financeiros.

Fonte: LIT-QI

Crise Humanitária, Falta de alimentos e produtos básicos e violações dos Direitos Humanos.

Muito se fala sobre a grande crise humanitária da Venezuela, mas talvez, sem olhar as estatísticas se torne mais difícil para que possamos visualizar o problema de um macro panorama. Segundos dados de 2016, relatados pela CNN e Council on Foreign Relations, quase 85% de remédios básicos estão disponíveis ou difíceis de se obter, assim como 87% da população não tem dinheiro para comprar comida — isso quando há comida, visto que os supermercados estão vazios, as filas para conseguir o pouco que há são enormes, os preços absurdos (o que algumas pessoas afirmam ser culpa dos empresários e das políticas de controle de moeda do governo) e, muitas vezes, as famílias têm que tentar encontrar algum alimento no mercado negro.

Novas doenças que já haviam sido erradicadas ressurgiram, como a malária; e a mortalidade infantil cresceu 30%, juntamente com o crescimento da pobreza em 82% e da violência, com mais de 28 mil homicídios no último ano. As pessoas estão cada vez mais mal nutridas e estima-se que 150.000 venezuelanos conseguiram deixar o país. Diante desse cenário, Maduro nega a necessidade de ajuda e auxílio internacional.

Fonte: Exame

A onda de protestos no país se deu de forma excepcional, principalmente por conta dos resultados da votação da Constituinte — que escreveria uma nova Carta Magna para o país, realizada em junho deste ano, e cujos rumores relatam fraude na contabilização dos votos, em que o governo afirma que mais de 40% da população foi às urnas, enquanto a oposição relata apenas 12%.

O Escritório do Alto Comissariado da ONU relatou na última quarta-feira (30) que das 124 mortes, quase 50 seriam causadas pelas forças de segurança venezuelanas, além de vários casos de desaparecimentos e de detenções, que segundo a ONG Foro Penal Venezuelano foram mais de 6.000, incluindo mais de 400 menores de idade e políticos de oposição, como Leopoldo Lopez e Antonio Ledezma. Os presos, inclusive os menores de idade, segundo relatório do começo de agosto das Nações Unidas, são submetidos à tratamentos cruéis e de tortura física e psicológica, como queimaduras e descargas elétricas. A ONU então solicita em Assembléia Geral a adoção de medidas para preservar as liberdades individuais do povo venezuelano e seus direitos humanos.

Em matéria para do site da emissora de televisão do Catar, Al Jaazera, relata-se que países como Colômbia, Peru, Estados Unidos e México não reconheceram as eleições da Constituinte como válidas e legítimas, assim como países como Canadá e Brasil condenaram tanto as eleições como a violência perpetuada contra os manifestantes. Em contrapartida, Bolívia, Rússia e Cuba apoiam o presidente. Os EUA afirmaram que tomarão medidas contra o autoritarismo governamental de Maduro e inúmeros países afirmam a falta de democracia no país e o comportamento ditatorial proveniente dos líderes de governo.

Diante de tudo isso, nos resta refletir e analisar qual será o futuro do nosso país vizinho e quais são e serão os impactos sociais, econômicos e políticos das ações presentes. Pessoas sem casa, sem comida, presas por expressarem seus anseios democráticos de contrapor posições autoritárias e ditatoriais e morrendo na luta pela plena liberdade de seu povo. A Venezuela de Maduro é resultado de múltiplas questões reunidas, que, uma vez juntas, mais uma vez na história da humanidade, decidiram pelo posicionamento desumano, rude, sanguinário e tirânico frente à seres humanos, frente à um povo…À uma nação.

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Aline Castro

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Estudante de Relações Internacionais, que costuma nadar contra a corrente e expor suas opiniões sem medo de ser feliz. Vamos evoluir juntos? | SP | 20

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