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Como não atrapalhar uma pessoa com depressão

O motivo por eu ter optado aos 30 anos por uma carreira em psicologia é a identificação da depressão como uma coisa a ser combatida na minha vida e no mundo. A depressão é um monstro que se alimenta da escuridão. Uma maneira de combatê-la é jogar luz nela. Desmistificá-la e entendê-la.

Estamos falando de uma doença crônica e debilitante. Ela não se encaixa nos clichês geralmente atribuídos a ela. A ignorância generalizada sobre o tema faz com que a depressão seja um problema difícil de lidar não só pelos terríveis sintomas, mas também pelos palpites e conselhos vindos de pessoas que não entendem sobre o assunto.

Quem já sofreu com depressão e se abriu com amigos e familiares fatalmente acabou ouvindo coisas deste tipo:

“Às vezes eu fico deprimido também, é normal”

Ficar deprimido não é simplesmente ficar triste. Todo mundo já ficou triste em algum momento. A depressão tem variações, de leve até grave e pode ocorrer por vários motivos diferentes. Se uma pessoa está se abrindo sobre o assunto, leve a sério. Quando alguém fala que tem um problema cardíaco você não vai falar que às vezes o seu coração também bate um pouco mais forte ou descompassado.

”Vamos lá, reage…”

Esse é o discurso de quem acha que depressão é uma questão de falta de vontade, de fraqueza. Que é uma escolha. Que a pessoa deprimida não tentou reagir de diversas formas. Mais uma vale uma analogia com outras doenças: você não sugere que um hipertenso tente abaixar a sua pressão.

“Mas você tá falando de problemas físicos. A depressão é um problema emocional.”

Não, não é apenas emocional. Já tem muito tempo que a depressão é estudada no nível neurológico, baseado em disfunções na atuação dos neurotransmissores. Vale destacar também que pessoas com depressão por um tempo estendido tem danos cerebrais, especialmente no hipocampo, parte do cérebro relacionada à memória de longo prazo.

“Você tem dois braços e duas pernas, não te falta nada. Tem tanta gente pior…”

Esfregar isso na cara não vai adiantar nada. Este tipo de fala deixa a pessoa se sentindo ainda mais culpada e confusa pela falta de sentido da situação. É importante que a pessoa seja grata pelo que tem, mas não há como simplesmente implantar esta ideia na cabeça de uma pessoa que está num buraco que parece não ter fundo.

“Mas você é tão alegre! Tão divertido! Tão inteligente!”

A quantidade de comediantes com problemas sérios de depressão é tão grande que tem gente que acha que pessoas engraçadas usam a comédia como mecanismo de defesa ou até automedicação. Não faltam exemplos de pessoas extremamente talentosas, expansivas e criativas que chegaram ao extremo do suicídio. De Fausto Fanti a David Foster Wallace.

Na dúvida, é melhor não falar nada.

Se quiser ajudar, escute mais e fale menos. Especialmente se você tiver pouca experiência no assunto e tendência a querer resolver os problemas de imediato. Não meça ou tente comparar o sofrimento alheio. Se você achar que está sofrendo de depressão, procure ajuda de um especialista e leve o seu tratamento a sério.

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Pedro Carboni

Pedro Carboni

Psicoterapeuta. Informações de contato em pedrocarboni.com.br

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