Velho Chico: com quantos quilos de arte se faz uma tradição?

Delírio audiovisual, novela das nove mergulha no Brasil profundo e o transforma em uma obra cheia de lirismo — mas querem podar um processo criativo indispensável para a evolução da TV no Brasil

Digo que o diretor Luiz Fernando Carvalho é o Quentin Tarantino brasileiro. Os dois são especialistas em jogar na (e com a) tela suas referências (de obras próprias, acima de tudo), de modo a criar uma linearidade em praticamente todos os produtos que criam. Carvalho, em telenovelas, apropria-se de tal maneira do produto criado pelo autor, que sua marca de direção é incomparável. É, de longe, o diretor de TV brasileiro que mais se identifica com os produtos que concebe. Algo do tipo: “é a novela do Luiz Fernando Carvalho” — sem desmerecer os autores que com ele trabalham.

Isso porque Carvalho deve essa marca de estilo ao autor Benedito Ruy Barbosa, com quem mais trabalhou na TV. Velho Chico, a exuberante novela das nove da Rede Globo, é a 5ª parceria da dupla. Carvalho compreende Benedito, que compreende Carvalho, a roda gira e temos a busca do “Brasil profundo” que o diretor citou antes de Velho Chico estrear.

Passados quase 70 capítulos, o que se vê na tela é um dos produtos audiovisuais mais bem concebidos nos últimos anos pela TV aberta brasileira. Audio, pois a trilha é um baú repleto de tesouros da MPB. Visual, pois é mais um delírio que Carvalho se propõe — ainda que com referências (ou repetições), reinventa o modo de fazer novela no Brasil.

O processo artesanal do diretor em uma telenovela foi visto em Meu Pedacinho de Chão (2014), novela das 18h. Psicodélica, quase lisérgica, a trama (remake da mesma obra de Benedito, em 1971). À época, a linguagem causou impacto pela explosão de cores e pelo exagero proposital nas atuações. Um pedaço riquíssimo na história da TV.

Velho Chico X Meu Pedacinho de Chão

Pouco tempo depois, autor e diretor viram-se mergulhados em Velho Chico, que seria uma trama das 18h. Alçada às 21h, a mídia televisiva logo prontificou-se a alardear que seria o retorno de O Rei do Gado, seria a fuga das novelas contemporâneas no horário, que seria o retorno do Brasil rural, etc, etc, etc.

Tudo mostrou-se uma grande balela — exceto, por óbvio, o universo sempre rural de Benedito Ruy Barbosa. Velho Chico bebe na fonte de Meu Pedacinho de Chão ao manter o processo artesanal de criação. Foge das novelas pseudocontemporâneas, e é estritamente contemporânea. Uma fábula audiovisual contada nos mais mínimos detalhes. Cada pixel da tela é invadido por uma criação única. Cada inserção musical é repleta de significado. Cada situação mostra que o Brasil pouco mudou — o Brasil profundo, de coronelismos das bandas do cafundó e dos grandes centros urbanos.

É uma pena que um produto com tamanha qualidade amargue tão baixa audiência — baixa é um termo relativo, já que Velho Chico é líder incontestável no horário. A audiência chega a ser a terceira (às vezes a quarta ou quinta, perdendo para o Jornal Nacional ou telejornais locais) da emissora, algo impensável até pouco tempo atrás. Perde para Êta Mundo Bom (18h) o sucesso Totalmente Demais, finalizada há pouco. São dois produtos que, ao contrário do das 21h, subiram a curva de audiência e são fenômenos recentes. Cabe lembrar que Velho Chico não tem audiência maior que as outras duas tramas desde 11 de abril, quando estreou a segunda fase. No entanto, a novela tem média geral (até a 10ª semana)de 28,5, número próximo do total angariado pela problemática A Regra do Jogo (28,2).

Com público já consolidado, Velho Chico começou a ser alvo de críticas até dentro da emissora. É uma surpresa: a Globo sabe que Carvalho não é nenhum marinheiro de primeira viagem, e sabe que o diretor é firme no propósito de levar um outro tipo de linguagem para a TV.

O experiente autor Silvio de Abreu, hoje Diretor de Teledramaturgia Diária da emissora, afirmou que “ou Luiz Fernando Carvalho aceita as mudanças artísticas ou está fora do projeto”, justificando que “falta de romance, narrativa lenta, figurino incompatível com a região (Nordeste) e época (contemporânea) e erro na caracterização dos personagens de Antonio Fagundes (Afrânio) e Iolanda (Christiane Torloni)”.

É inacreditável, no mínimo. Leia mais aqui:

Luiz Fernando Carvalho não se atreveria a mentir, no caso de dizer que Velho Chico seria uma coisa e entregou outra. A emissora também não seria ingênua ao alçar a trama para o horário das 21h sem saber do processo criativo que, obviamente, começa muito tempo antes e tem a marca do diretor. Um erro de cálculo? Talvez. Silvio de Abreu também mostra absoluta falta de sensibilidade ao afirmar que existem erros de caracterização (a intenção com figurinos e cenários é uma alegoria, uma caricatura da realidade) ou que a narrativa é lenta. É a proposta. Não nos esqueçamos que o próprio Abreu entregou um produto (ótimo, por sinal) incompreendido (leia-se: baixa audiência): As Filhas da Mãe.

Velho Chico não é para principiantes: é preciso comprar (e devorar) a ideia. Ou você se entrega àquele universo, ou não. Não é um produto preso àquilo que a telenovela se propõe: um entretenimento descartável, fast-food. A linguagem rebuscada, entrecortada, operística, confunde o telespectador que não está acostumado com os delírios narrativos de Carvalho. Ainda que seja uma história de fácil assimilação, a forma como é contada não aproxima o telespectador médio, acostumado com telenovelas de baixo esteio narrativo e audiovisual.

Da trama, restam momentos de absoluta arte. Um elenco afiadíssimo, com as exceções de Lucy Ramos (Luzia, uma personagem histérica) e Marcos Palmeira (Cícero, longe de ter o carisma do pai Clemente/Julio Machado, ainda que este fosse um assassino de marca maior; personagem abobalhado, capataz capacho, infantilizado e preso a um amor de criança — e o trata assim).

Por outro lado, Zezita Matos (Piedade), Suely Bispo (Doninha), Selma Egrei (Encarnação) e Luci Pereira (Ceci) são as “velhas chicas”: a essência, cada uma ao seu modo, mas todas arraigadas ao sertão, ao sofrimento, alegria e fé que este oferece. São cenas de absoluta verdade, ainda que Encarnação seja a personagem mais estilizada da trama pela caracterização.

Se os personagens femininos mostram força, os masculinos dão mostras de sua fraqueza pela força… Física. O Afrânio de Antonio Fagundes- injustamente criticado — é a representação do coronelismo, uma herança maldita, a total entrega ao sistema. A comparação com o Afrânio de Rodrigo Santoro é infundada: Saruê passou por um processo, e a mudança de tom se justifica. Engraçado, irônico, ressentido. A trilha (Senhor Cidadão, de tom zé), é a perfeita representação da personagem: “na briga eterna do teu mundo; tem que ferir ou ser ferido”; “que vida amarga; com quantos quilos de medo se faz uma tradição?”.

Uma jornada amparada por um sistema corrompido — Afrânio é a caricatura da política brasileira, do modo de falar ao figurino. O “coroné”, um personagem tão rico e cheio de camadas — da fúria ao rival, da fúria ao achar que é corno, da fúria ao querer ter a família sempre por perto, o machismo indecente e ainda tão presente, um jeito errado de amar; além de todos os questionamentos que Velho Chico se propõe (novo x velho, meio ambiente x lucro) — é “criticado” por uma peruca. O sempre certeiro Maurício Stycer explica:

No mais, resta torcer para que prevaleça a arte de Velho Chico e as grandes atuações dos personagens de Cristiane Torloni (a sofrida e amável Iolanda), Domingos Montagner (o sonhador Santo), Dira Paes (Beatriz), Carlos Vereza (padre Benício) e o sempre impecável e visceral Irandhir Santos (o político Bento).

Luiz Fernando Carvalho não pode ceder às pressões. Velho Chico deve continuar seu curso, até o fim.

E, que ironia: se na ficção um dos temas é justamente o embate entre o novo e o velho (uma geração de coronéis contra uma nova geração de jovens idealizadores), a vida real também mostra que a realidade é bem próxima da ficção: uma nova proposta narrativa contra a manutenção do status quo da telenovela. Nesta entrevista, Luiz Fernando Carvalho explica os rumos da TV aberta no Brasil como poucos.

Fica a pergunta: com quantos quilos de medo se faz uma tradição, senhor cidadão?


P.S.1: Camila Pitanga (Tereza), a despeito das críticas, é superior aos trabalhos recentes.

P.S.2: O capítulo de 17 de maio contou com um dos vários grandes momentos da trama. Enquanto Santo tenta convencer os cooperados a continuar na cooperativa, eis que surge Bento, o vereador e irmão de Santo. Um discurso memorável, contemporâneo àquilo que o Brasil vive hoje, e que somente poderia ser declamado por um gigante que é Irandhir Santos.

P.S.3: Não há na história recente da TV brasileira um produto com uma trilha sonora tão marcante. Ouça:

P.S.4: Velho Chico também nos brinda com vários novos nomes. Zezita Matos (dama do teatro paraibano), Lee Taylor (estreia na TV aberta), a capixaba Suely Bispo, Marina Nery (Leonor na primeira fase da trama), Mariene de Castro (cantora de voz exuberante — e interpretação danada de boa!) e mesmo Lucy Alves, que ficou conhecida por participar do programa musical The Voice Brasil são gratas novidades. A TV brasileira anseia por novos nomes.

P.S.5: Ouça Mariene de Castro agora:

P.S.6: A Globo explora seus produtos de maneira multidimensional. Além das plataformas tradicionais (TV e app), produtos específicos — como Velho Chico — ganham outra dimensão, por vezes com publicações ou conteúdos extras que não são divulgados e ficam restritos a meios acadêmicos. O Caderno Globo — Vozes do Velho Chico dá um panorama do ambiente que a novela retrata:

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