Velho Chico: quem faz poesia em terra de macho é rei

Se Benedito Ruy Barbosa diz que faz “novela de macho”, o diretor Luiz Fernando Carvalho imprime lirismo e poesia a uma obra marcante e cara à TV brasileira.

Escrever para a internet não é tarefa fácil, apesar de todas as facilidades que a rede oferece. Não é fácil por dois motivos: ou você se precipita para caçar cliques e escrever algo risível — quando não, descartável — ou você escreve mal. Por outro lado, tem que pagar por não acompanhar esse ritmo dominante; sobretudo ao falar de televisão.

Este texto não seria o mesmo sem os prints dos twitters realitysocial e diogo_cc, e fotos de divulgação Globo/Cauia Franco.

Mas, consegui manter a prudência, e aguardei 12 capítulos para falar de Velho Chico, novela das 21h da Rede Globo. Assim como a nova trama, a prudência é fundamental: Velho Chico não é apenas para ser assistida e descartada. É para ser admirada e analisada em seus mínimos e preciosos detalhes.


Retrospecto. Velho Chico era para ser uma trama das 18h, horário em que tramas desse Brasil pouquíssimo explorado pela TV nos últimos anos tem encontrado um porto seguro. O horário principal, das 21h, ficou reservado à tramas que emulam uma realidade e concentradas no eixo Rio-São Paulo (ainda com lapsos, como Império, em 2014, que tinha Roraima como ponto de partida; apenas). A última novela do horário ambientada completamente no Nordeste foi Porto dos Milagres, no já longínquo 2001.

O horário seria ocupado por uma trama “realista” de Maria Adelaide Amaral, que estrearia às 21h, com uma trama “política”. Como 2016 é ano eleitoral, a lei não permite tal tipo de temática. Ficou para depois do pleito. (No entanto, é curioso: a minissérie Plano Alto, exibida pela Record em 2014, foi exibida em pleno período eleitoral. Mais curioso é que a obra retratava uma Brasília e suas entranhas, justamente em ano de corrida presidencial…).


Antes da estreia. Escalada para as 21h, Velho Chico traz o retorno do autor Benedito Ruy Barbosa ao horário nobre, que não ocorria desde 2002 com a problemática Esperança. Um “meio retorno”: a trama é escrita pela filha Edmara Barbosa e o neto Bruno Luperi. É também o retorno de Luiz Fernando Carvalho, que esteve recentemente no horário das 18h com a graciosa, psicodélica e lisérgica Meu Pedacinho de Chão, em 2014 (remake do mesmo Benedito).

O criador de “novela de macho” Benedito Ruy Barbosa e o diretor Luiz Fernando Carvalho

Velho Chico mostrou, logo em seus primeiros capítulos, que é uma trama com o DNA de Benedito: o Brasil rural, o Brasil interior, o Brasil suado. Não menos importante, em um arroubo de sinceridade (ou sincericídio?), Benedito afirmou no lançamento da novela que Velho Chico é uma “novela de macho”, fora opiniões questionáveis (detestáveis?), como “tenho orgulho dos meus netos serem ‘machos’”, ou “odeio história de bicha, não pode transformar isso em aula para crianças”.

São opiniões que vão contra tudo aquilo que exige uma sociedade igualitária, e contra tudo aquilo que a emissora “tentou” mostrar com suas tramas “realistas” anteriores. No entanto, é um arroubo de quem apenas vive esse universo — e sempre viveu, desde a infância. O argumento de que “o interior não aceita esse tipo de coisa” é tacanho, hipócrita e sujo. Benedito expôs aquilo que sempre esteve em suas obras e, evidentemente, nada o fará para mudar. Uma pena, pois ainda que uma telenovela seja entretenimento, ela é o reflexo de uma sociedade. No caso da brasileira, em constante transformação. Benedito não quer saber de transformação e isso fica extremamente claro na trama que é apresentada — e seus autores familiares nada podem fazer. No máximo imprimem poesia, tensão e doçura nos diálogos.

Aliás, as primeiras cenas com Afrânio (Rodrigo Santoro) e Iolanda (Carol Castro) foram uma afronta àquilo pregado por Benedito: uma Salvador cultural em plena Tropicália, no final dos anos 1960, mostraram uma festa eminentemente colorida e sexual, com direito a pó explicitamente exibido. Um arroubo, apenas, pois as situações (leia mais abaixo) continuam lá e não seria lá muito coerente exibir algo que não existia no interior baiano naquela época. Se hoje ainda assim permanece, imagine naqueles tempos de cabras-machos…


A novela. Uma história de disputas familiares por terras às margens do Rio São Francisco é a premissa de Velho Chico. Nessa disputa, entram romances e duelos armados, as belezas de um rio que outrora exuberante, as crenças e costumes de um interior da Bahia na década de 1960 (nesta primeira fase)… Não chega a ser uma novidade. Disputas rurais são constantes na obra de Benedito: O Rei do Gado, Meu Pedacinho de Chão, Renascer, Pantanal.

Coloque aí nessas referências e situações doses de machismo — quando não, misoginia — dos locais explorados, as questões resolvidas à base de tiro e sangue, o colonialismo de barões e baronesas que não esquecem a herança escravocata brasileira… Velho Chico reúne essas características sem apresentar um contraponto. É o universo de Benedito Ruy Barbosa que deve ser “engolido goela abaixo”, sem questionamento. Uma pena. Em tempos de radicalismos e extremos, uma trama como Velho Chico, aparentemente ingênua, se mostra um precedente perigoso para estimular — e reafirmar — preconceitos.

A história, nesses dez capítulos, anda sempre para a frente. Das disputas de terras à cenas tórridas de romance, Velho Chico se mostra um produto refinado, sem apelar para “narrativas seriadas em novela”. Estão ali os cânones da teledramaturgia, o romance, a poesia, o bem e o mal bem definidos — ou quase: Afrânio, o protagonista de Rodrigo Santoro (e depois Antonio Fagundes) não é o “mocinho” (ou “machinho”) tradicional, pois, perdido, não sabe se continua com as ações do pai (em breve e imponente participação de Tarcício Meira), ou se lança ao amor.

No mais, é uma “novela de macho”, que só tem esse “papel” atenuado pela poesia da direção daquele que é, de longe, o mais inventivo diretor da TV brasileira: Luiz Fernando Carvalho.


A direção. Carvalho, assim como Benedito, usa expedientes já vistos em obras anteriores. A mão pesada do diretor é vista nos mínimos e preciosos detalhes, na fotografia árida, nos enquadramentos de câmera, na direção dos atores.

Carvalho é, de longe, o único diretor de TV aberta no Brasil que consegue se sobrepor à obra do autor. Ele dita o ritmo, imprime a marca, reinventa o modo de fazer televisão.

Se a trama de Velho Chico é uma história contada há tempos por Benedito, Carvalho dá outra cara. É aí que reside a qualidade da novela. O diretor se permite criar cenas de extremo bom gosto, desde a cenografia à direção de atores precisa. Velho Chico é barroca, pesada, mas ao mesmo tempo leve e colorida, exuberante e inquietante, bossa e palhoça (da exuberante e colorida abertura com a música Tropicália, na voz de Caetano Veloso).

Há ali referências de todas as mais recentes obras do diretor, como Meu Pedacinho de Chão. O mise-en-céne é semelhante, com o uso de trilha sonora instrumental em praticamente todas as cenas. Sou um crítico a esse expediente, mas a obra permite: Velho Chico é uma ópera, um musical. Atuações declamadas e/ou teatrais, musicais no meio da trama, enquadramentos inusuais, figurino exuberante — até fantasioso. Velho Chico é um “pedacinho” mais próximo do real — se é que Carvalho, com sua inventividade, consegue algo do tipo. E isso é fantástico!

Sempre defensor do Brasil interior, Carvalho tem expertise na área. Suas obras (Hoje é dia de Maria, A Pedra do Reino, Alexandre e Outros Heróis, e até a carioca Suburbia) estão todas ali na tela, sem miséria ou economia. E reinventadas. E um Nordeste exuberante. Um São Francisco que emana o mais puro elemento. A televisão que mostra uma qualidade sem precedentes.

Nesses dez capítulos, a montagem dos capítulos é fator importante. Os acontecimentos são encaixados um ao outro, seja para mostrar relação temporal (flashbacks não usam recursos de estilo: a lembrança é uma cena já mostrada, sem clichês-efeitos “esfumaçados”. É a cena, e ponto) ou dramática (um casamento e uma morte, por exemplo). Não há a montagem comum. Os fatos se sucedem, e criam uma narrativa poética surpreendente. Um recurso tão banal — e até óbvio — mas pouco usado. Carvalho o faz com maestria; usa, às vezes, um ou dois segundos de cena para voltar a um ponto anterior. É também um recurso que prende o telespectador. Novamente, tão óbvio, mas pouco usado. Pesa, no entanto, que esse recurso tem que ser usado diante de trama tão convencional.

Outro ponto a favor de Velho Chico é a diminuição do tempo de arte. Enquanto outras tramas contavam com mais de 50 minutos, a atual novela das novela tem, em média, 45. Não há cena perdida. Tudo é mostrado nos mínimos detalhes, e, na visão deste que escreve, é o que torna Velho Chico uma obra de arte imperdível. Carvalho já usou desse expediente em Meu Pedacinho de Chão, com capítulos curtíssimos (além de ter sido uma trama com apenas 96 capítulos. Velho Chico também será mais enxuta, porém mais próximo do padrão das 21h, com mais de 150 capítulos.

O início da trama já rendeu momentos históricos na TV brasileira. Esta cena do primeiro capítulo fez este frio escritor, admito, ir às lágrimas. Toda a sequência é um lamento, a essência de um povo sofrido e batalhador, o Brasil interior que todos devem saber para refletir sobre essa terra:

Senhor… Tenha pena de mim, que o sofrimento é cruel, e não tem fim…

Outros momentos de poesia eletrônica e já marcantes na TV foram mostrados: as festas de Afrânio e Iolanda em Salvador, a festa de roda de São Gonçalo, e, acima de tudo, a batalha nos campos de algodão. Chega a ser incrível o poder da equipe de Carvalho em produzir uma obra fast-food como uma novela em tão pouco tempo e com tamanha qualidade.

É de uma sensibilidade sem igual. Não tiro o mérito de Benedito Ruy Barbosa, mas o serviço que Luiz Fernando Carvalho presta à televisão e à cultura brasileiras é sem precedentes. A quebra da parede na TV aberta é incomum (na cena acima) e, com uma trama tão tradicional, Carvalho subverte essa ordem. Não somente nesse exemplo, mas na montagem já falada acima, e, mais ainda, na falta de ganchos. Velho Chico não é para ser assistida. É para ser analisada e admirada em seus mínimos detalhes: de cada renda do figurino à gota de suor que transborda na tela.


Os atores. Muito se falou em Rodrigo Santoro, já que foi o retorno do ator às novelas depois de um longo período dedicado ao cinema hollywoodiano. Não é que Santoro seja um mau ator, mas sucumbe quando está diante de Selma Egrei, a matriarca dos Sá Ribeiro. Egrei incorpora a amargurada Encarnação de tal maneira repulsiva, que é impossível não gostar. Não dá para configurá-la como vilã. É a dor encarnada de quem ainda está apegada ao passado, perfeitamente descrito no figurino soturno e arraigado ao colonialismo.

Fabiula Nascimento (Eulália) e Rodrigo Lombardi (Capitão Rosa) são bons destaques — Lombardi conseguiu não ser canastrão como em todos seus outros trabalhos, e Nascimento imprime a força necessária para a mulher sofrida. Julio Machado (Clemente), o “diabo” no ouvido de Afrânio, é o típico capataz fiel e cruel, na medida para mover as ações de um Afrânio que começa a dar mostras que tomou rumo.

No entanto, são dois personagens secundários que são a alma de Velho Chico: Piedade (Cyria Coentro) e Belmiro (Chico Diaz). Toda e qualquer cena que os dois estão é garantia de momentos espetaculares. Aqui, a atuação sensível — basta um olhar de cada um para imprimir a emoção da cena — não precisa das (ótimas) psicodelias de Carvalho ou da poesia dos autores. Cyria e Chico são a essência do Brasil sofrido, do velho Rio São Francisco que nutre a esperança e o amor, do sertão que faz da terra um porto seguro.

A primeira fase de Velho Chico é lirismo puro. Novos rostos foram (Mariana Nery/Leonor, esposa de Afrânio e muitas vezes superior a Santoro nas cenas; foto abaixo) e serão apresentados. Nomes conhecidos, na terceira fase — como os protagonistas Antonio Fagundes (Afrânio), Christiane Torloni (Iolanda), Camila Pitanga (Tereza), Domingos Montagner (Santo), Irandir Santos (Bento) e Marcos Palmeira (Cícero) — são garantia de atenção.

Resta saber se o lirismo imprimido pela direção de Luiz Fernando Carvalho permanecerá na terceira fase da trama. Quase nada foi mostrado, e é evidente que a marca será outra.

No mais, estas primeiras fases (a segunda também manterá o tom da inicial) já são marcantes na TV brasileira. O início de Velho Chico é riquíssimo, um material que tem peso de ouro para a cultura brasileira. A existência desse Brasil só é vista na emissora, em tempos recentes, graças ao talento de Luiz Fernando Carvalho. As “machezas” de Benedito Ruy Barbosa são dispensáveis. A poesia que fique a cargo de Edmara e Bruno Luperi e da direção.

Que estes — lirismo e poesia — permaneçam nos próximos capítulos.


P.S.: Velho Chico enfrentará, nas próximas semanas, a sequência de Os Dez Mandamentos, na Record. A mudança de Velho Chico para as 21h também foi motivada pelo fenômeno da Record, que derrotou A Regra do Jogo algumas vezes ou, quando muito, ficou pouquíssimos pontos atrás. O suposto interesse do público por tramas mais “fantasiosas” — e, consequentemente conservadoras — também motivou a Globo a “promover” Velho Chico para as 21h. No entanto…

Velho Chico enfrenta concorrência até dentro da Globo: já teve audiência menor que a novela das 19h, Totalmente Demais, um fenômeno do horário nos últimos anos considerando o retrospecto de novelas anteriores.

A disputa será ferrenha. São dois dos maiores e melhores (cada um ao seu estilo, proporção e técnica) já mostrados na TV brasileira. Não é possível saber se veremos uma Globo novamente acuada, ou uma Record iludida com o primeiro sucesso.

Repito o que disse no texto sobre o final de A Regra do Jogo: a TV brasileira viverá em 2016 momentos de naftalina pura (Os Dez Mandamentos e, na sequência, Terra Prometida; Liberdade, Liberdade, nova novela das 23h na Globo sobre a história da filha de Tiradentes, Êta Mundo Bom!, novela de época das 18h em exibição; Escrava Mãe, na Record sabe-se lá quando, com a saga da mãe de Isaura; e até mesmo a terceira fase de Velho Chico: ainda que nos dias atuais, não deixa de ser uma história clássica.

E o horário das 19h, com tramas “modernas”, segue de vento em popa.


Like what you read? Give Bruno Viterbo a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.