Você deu sorte

A sortuda

Sim. Eu concordo que dei sorte nessa vida. Cresci em um lar estruturado repleto de afeto, estudei em boas escolas, fiz cursinho de inglês, entrei em uma faculdade pública, nunca precisei colaborar com as contas da casa, pude fazer um intercâmbio e por ai vai.

Ao longo da minha vida sempre fui muito lembrada de como sou sortuda. Porém, quase sempre que alguém falava para mim “Ah, você seu sorte!”, não estava se referindo aos inúmeros privilégios que desfrutei, mas sim ao meu cabelo. As pessoas diziam que eu dei sorte por ter nascido com “cabelo bom”, ou seja, liso.

Minha pele não é clara, mas sei que tenho uma passibilidade branca. Especialmente pelo fato de meu cabelo ser liso. Quando criança, minha pele era era escura (ainda é) e ficava ainda mais pelas idas constantes à praia (fosse inverno ou verão), mas muita gente achava que isso não era lá uma grande qualidade. Então achavam que era legal me lembrar que a quantidade generosa de melanina que possuía era neutralizada pelo meu cabelo liso.

Por muito tempo acreditei nisso. Acreditei que estava “livre” de ser negra porque meu cabelo é liso. Que eu verdadeiramente tinha dado sorte e que tinha um “cabelo bom”. Eu não me via como racista, eu não conseguia compreender porque negros tinham sido escravizados, achava cruel a escrevidão e não achava que negros eram uma raça inferior. Mas eu era racista porque não queria ser negra. Eu me gabava do meu cabelo liso e gostava do fato de que ele tinha me “salvado”. Então ostentava orgulhosamente o título de morena.

Porém com o tempo fui percebendo que meu cabelo nada tinha de bom: ele não luta pela paz mundial, não faz trabalho voluntário em um hospital infantil e tampouco busca a cura da Aids. Vi que meu cabelo é apenas o que é: liso. Sim, o tipo de cabelo valorizado pela ditadura da beleza. Eu não me via representada nas modelos brancas e magras das propagandas, mas me via representada nas propagandas de shampoo que prometiam alisar o cabelo em três semanas. O meu cabelo estava quase no topo da cadeia alimentar, só não subiu o degrau da cor. Eu não sou loira.

Eu não sei com qual raça me identifico, fisicamente sempre fui chamada de índia, mas minha relação com povos indígenas é nula. Não sei se posso me chamar de negra, mas sem dúvida alguma não me considero branca. Porém talvez eu usufrua de privilégios brancos que não usufruiria se meu cabelo não fosse como é.

Meu cabelo liso talvez abra portas que estariam fechadas caso ele fosse crespo ou cacheado. Ele que me deu a minha passibilidade branca, mesmo que não me sinta como uma. Ele talvez tenha impedido que eu sofresse preconceitos e violências que gente de cabelo crespo sofre.

A verdade é que, por essas e outras, o fato de meu cabelo ser liso pode sim ser considerado um fator de sorte. De todas as características do meu corpo, o meu cabelo talvez tenha sido a única que não me causou alguma vergonha, por muito tempo tive até mesmo orgulho dele. Hoje, deixo esse orgulho para os cabelos que contam mais histórias que o meu. E espero que sorte não seja mais estar dentro de um padrão de beleza e que ela chegue para mim com os números sorteados da mega sena da virada.