Você está vivendo no Show de Truman?


Ou devo dizer no Show de Mark Zuckerberg?


Considerações iniciais e sobre o filme.

Recomendo que se você não conhece, nunca assistiu e nem ouviu falar sobre o filme O Show de Truman, vá assistir antes de ler este texto. Caso contrário as ideias e relações com o Facebook ficarão um tanto quanto vagas somente com o release do filme e, muita associação que eu vou fazer aqui, é melhor perceptível com as imagens do filme em mente. Desse modo, deixo claro que haverá, obviamente, spoiler do filme. Obrigado.

The Truman Show é um filme norte-americano de comédia dramática de 1998 dirigido por Peter Weir e escrito por Andrew Niccol. Truman Burbank foi um bebê abandonado pelos pais e adotado por uma rede de televisão que o criou num mundo irreal. Foi montado um cenário de uma imensa cidade, no qual todos com quem convive — amigos, pais, esposa, vizinhos — são atores contratados para com ele viverem uma farsa. Entretanto, a sua falsa vida é filmada e transmitida pela TV, acompanhada por milhares de telespectadores 24h por dia desde o seu nascimento. Ele é o único que não sabe que é a estrela desse reality show. Nessa cidade, chamada de Seahaven, ele é um pacato vendedor de seguros que segue naturalmente a sua vida. Tudo corre bem até o momento em que ele é despertado por uma garota para o fato de ser o protagonista do show. A partir daí ele começa a desconfiar de certos acontecimentos, tem a sensação de estar sendo observado e uma série de situações estranhas aguça a sua desconfiança até que ele descobre a verdade. Ao perceber que está aprisionado, ele decide que seu único objetivo é escapar da cidade. (Release do filme)

Primeiramente, Jim Carrey e o Truman.

Em 1998, Jim Carrey já havia estreado em Ace Ventura, Debi & Lóide, O Máskara, Ace Ventura 2, O Pentelho e O Mentiroso, respectivamente. Quando, então, fez o papel de Truman Burbank, protagonista de O Show de Truman. Uma excelente atuação, faz com que o espectador esqueça do filme e foque no reality show que está sendo gravado.

Truman é um homem que vive sua vida como protagonista de um programa de televisão no final dos anos 90 sem ao menos saber disso. Truman trabalha, tem esposa, amigos, salário, casa, carro, bicicleta, tudo o que uma pessoa “normal” poderia ter. Todas as pessoas que fazem ele feliz são atores contratados para fazer da vida, uma vida essencial. Menos uma vida livre.

Desde sua infância, muitas coisas aconteciam de errado no cenário de sua vida. Algumas situações deixam de fazer sentido quando ele conhece “Lauren” (Natascha McElhone), uma mulher que interpreta uma colega de classe de Truman, que se apaixona por ele e que tenta, então, mostrar a verdade por trás da “vida” que ele estava “vivendo”. Ele começa a notar a monotonia e a automação em sua rotina.

Sobre a nossa ilha.

Refletindo sobre a ilha de Seahaven, podemos fazer uma parábola com a rede social usada por mais de 1 bilhão de pessoas. Sim, estou falando do tal do Facebook. Seahaven proporciona, para Truman, o emprego ideal, a esposa perfeita, formação acadêmica autêntica e até um melhor amigo, desses de infância que está a vida inteira ao seu lado.

O Facebook nos proporciona a mesma coisa. Em todos os sentidos. Cada “like” é como um elogio; cada compartilhamento, uma ideia que foi aprovada e passada para frente por um conhecido e, cada cutucada —ainda que ninguém mais use essa ferramenta — considerada como alguma indireta subentendida (pleonasmo?) entre o cutucado e o cutucador.

É fácil perceber a mentira, e muitas vezes criticada, que o Facebook fornece. A felicidade constantemente manipulada e compartilhada dá aquele gostinho de “quero mais” ao acessar a interface social. É onde todo mundo tem o emprego ideal, a esposa perfeita, a formação acadêmica autêntica e fotos com o melhor amigo que está ao seu lado desde criança. Sacou?

O merchandising é algo sempre colocado em jogo durante o filme. Sua esposa faz apologias a produtos durante situações em que a audiência é alta. Seu amigo sempre chega carregando meia dúzia de cervejas em primeiro plano. Já reparou o tanto que aumenta o número de anúncios na sua timeline quando acontece algo no mundo ou no país? E em horários de pico em que todo mundo está assistindo o program… digo, em que todo mundo está online no Facebook?

Pensando ainda na economia e status por trás da alegoria: que sonho, primeiramente, trabalhar na empresa Facebook Inc., não? Que sonho seria, também, trabalhar na corporação que desenvolveu o reality show. Duas megaestruturas dos tempos modernos, assistidas e vividas por todo o mundo.

Ed Harris, ator que interpreta Christof: criador do reality show; e Mark Zuckerberg, criador do Facebook.

O amadurecimento de Truman, a percepção da pseudofelicidade e o êxodo do Facebook.

Truman Burbank cria, desde a faculdade, o sonho de ir para Fiji. Destino este suposto pelo seu amor perdido que quase desvendou todo o mistério do reality show. Lauren avisa Truman que tudo é uma mentira, mas ele não entende nada, seu “pai” chega, então, para levá-la embora e diz que irão se mudar para Fiji. Podemos afirmar que Truman é um cidadão comum, como já dito anteriormente, com tudo que um indivíduo pode ter de ideal.

Pensando sobre a idade que “cai a ficha” de Burbank, aos 30 anos, percebemos também o motivo dessa idade. Truman está estabilizado, socialmente falando, e a monótoma rotina faz ele perceber a sequência do seu dia-a-dia, do trânsito, de sua interação com o rádio e com os bens materiais que o cercam. Com 30 anos, ele vê a possibilidade de ir viajar, conhecer o mundo e encontrar Lauren novamente. Ele vê a possibilidade de “sair da caixa” em que estava vivendo quando tudo ao seu redor se torna oficialmente falso. Quebra seu maior medo: velejar. Sai do cenário e então acaba o filme.

Este é você no Facebook. Estável, com uma rotina de entrar automaticamente nessa rede social para que essa ação complemente o seu dia. Eu conheço muitas pessoas que saíram do Facebook. Voltaram. Saíram novamente. Xingaram. Reclamaram. Voltaram. “Ah, eu ativei por causa da faculdade…”… Cara… Sério? Eu, particularmente, odeio o Facebook. Mas por enquanto ainda sou Truman Burbank sonhando em ir pra Fiji. Ainda sou Truman Burbank achando que vou fazer a faculdade ideal, achar a esposa ideal e ter como padrinho desse casamento aquele velho amigo da infância. E você? É Truman Burbank achando que nunca vai sair do filme?


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