Arquivo pessoal

Você já percebeu a influência que os objetos têm sobre você?

Não estou querendo falar sobre sentimento de posse, consumo, propriedade, ou qualquer coisa do tipo. Falo da influência emocional, psicológica, interna. Mística? Quem sabe…

O que motiva a minha pergunta é o fato de ter voltado hoje a usar um colar que ganhei de presente há alguns anos atrás. Não o usava há uns três ou quatro anos, não sei ao certo. Coincidência, o ganhei nessa mesma época do ano…

O colar não envelheceu comigo. Vesti-lo foi como aqueles reencontros com amigos antigos que você mal reconhece, depois de tanto tempo sem contato. A princípio foi desconfortável, estranho, até eu me adaptar com a sensação do aço envolvendo o pescoço e tentando se agarrar à pele.

Tentando se agarrar, sim, de uma forma quase que desesperada, irracional. Simultaneamente, delicado. Já quebrei esse colar algumas vezes. A cada vez que quebro, tenho que tirar uma argola quebrada e prender o pingente em outra. Para conseguir continuar se agarrando à pele, ele se quebra, perde uma parte importante de si mesmo, se reinventa, e se constrói de novo. Dicotômico, eu diria.

A natureza não é imediata. Envelhece, amadurece e apodrece. Quando quebra, se reinventa, se transforma.

Me olhei no espelho depois de vestir o colar. Reconheci o velho amigo. Diferente, estranho, nem um pouco familiar. E o pior é que eu tinha vivido tudo aquilo. Se enxergar com outros olhos, de fora, ou em outro momento, é realmente peculiar. Mas apesar de tudo isso, era aconchegante, nostálgico.

Tive vontade de chamar o Pedro de dezessete anos pra ficar mais um pouco, tomar um café, conversar, tentar entender algumas atitudes da época na minha própria visão dos fatos. De qualquer forma, duvido que ele conseguisse me convencer de qualquer coisa…

A aparência não se distinguia muito, percebi olhando pra ele no espelho. Mas mesmo com dezessete anos, nós já entendemos que é necessário ler as entrelinhas. E o olhar entrega essas entrelinhas de mãos beijadas. Muitas cicatrizes somadas à alma, mesmo depois de poucos anos. Alguns conflitos, amizades novas e perdidas, em um período de tempo muito curto. Um curso incompleto, um relacionamento complicado, uma doença crônica e a ansiedade.

Não vale a pena, o Pedro de quatro anos atrás era novo demais pra entender qualquer uma dessas coisas. Não ia se acostumar com o café sem açúcar. Não ia gostar dos questionamentos que a gente só adquire com um pouco mais de tempo, e ia me odiar por ter mudado de opinião em alguns aspectos que considerava indiscutíveis.

Quem sabe daqui quatro anos eu vista o colar de novo, só pra me questionar sobre outros aspectos e perceber que cresci mais um pouco. Por hora, é isso

Talvez esteja na hora do colar quebrar de novo, preciso substituir uma argola.

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para…

Pedro Vinicius Paliares de Freitas

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Estudante de Ciências Sociais na Unicamp. Leitor de Filosofia, Sociologia, História e Romances. Interessado em política.

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Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

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