Você tem recebido propina ideológica?

O psicólogo, Daniel Kahneman, em seu livro “Rápido e Devagar: duas formas de pensar” revela o meandro da coisa:

“Um jeito confiável de fazer as pessoas acreditarem em falsidades é a repetição frequente, pois a familiaridade não é facilmente distinguível da verdade. Instituições autoritárias e marqueteiros sempre souberam desse fato”.

Por isso que é mais fácil comprar um produto “familiar” — que você viu em alguma propaganda e, portanto, acredita que é confiável — , do que um produto que você nunca viu.

E agora, com as luzes da consciência acesas, pergunto: você tem recebido propina ideológica?

Ideologia, ao que me parece, foi concebida para gerar conflitos e discussões, e raramente para esclarecer e elucidar. O objetivo é ganhar; agregar e juntar pode esperar.

Na década de 60, a televisão americana criou um modelo de debate que é roteiro obrigatório dentro dos programas de TV até o dia de hoje. A fórmula: convidar dois intelectuais de ideologias opostas para discutirem temas sobre política, religião e sexualidade. E, o belíssimo documentário “Best of Enemies” (Netflix) retrata o início das artimanhas conquistadoras de audiência.

Em 1968, a rede ABC, criou um debate entre um liberal e um conservador, mudando a história da televisão para sempre — e a percepção das pessoas sobre os fatos também.

William F. Busckey Jr. e Gore Vidal

O documentário relata uma série de 10 debates entre o liberal e escritor, Gore Vidal, e o intelectual conservador, William F. Buckley Jr., numa época que diz muito sobre o nosso momento atual. “Acho que esses grandes debates não têm qualquer sentido. Do modo como eles são desenvolvidos, quase não há troca de ideias, muito pouco até de personalidade”, defende Vidal, cansado das disputas. Buckley, articulista de mão cheia, diz que “Há um implícito conflito de interesse entre o que é altamente visível e o que é altamente esclarecedor”.

No Brasil, as discussões se agravam… Tudo está a flor da pele: irritações, desrespeito e uma cegueira atroz dos que estão a nossa volta por pensarem diferente. No fundo, continuamos presos em nós mesmos, “lutando” por causas que não mudarão o que desejamos.

“A habilidade de entendimento já era. Mais e mais, estamos divididos em comunidades de interesse. Cada lado pode ignorar o outro e viver seu próprio mundo. Isso não faz de nós uma nação completa, por que o que nos une são nossas perspectivas. Mas se essas pessoas não estão compartilhando ideias… Não estão vivendo no mesmo lugar”, conta o documentário “Best of Enemies”.

Liberte-se do ciclo vicioso, do impulso emocional, do faz de conta que está tudo bem… Um meio melhor se dará com seres humanos melhores, e não o contrário.

Pergunto: você é fiel aos seus princípios ou tem recebido (e espalhado) propina ideológica?


Como não sabia em qual parágrafo colocar o trecho abaixo, do livro “Superprevisões”, entra aqui para reflexão:

“Raramente procuramos uma evidência que contradiga nossa explicação inicial, e quando essa evidência é esfregada em nossa cara, nos tornamos céticos motivados — encontrar motivos, por mais débeis que sejam, para menosprezá-la ou descartá-la inteiramente”.
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