Vocalista do Linkin Park deixa como legado o fim do rock

Flavio Barboni
Jul 21, 2017 · 4 min read
Banda em seus primórdios nos anos 2000, com Chester Bennington no meio (Imagem: Divulgação)

O Dia Mundial do Rock passou e, uma semana depois, o gênero perde mais um de seus ícones. Chester Bennington se junta a Chris Cornell (seu grande amigo), Kid Vinil, Chuck Berry, Robert Dahlqvist (guitarrista do The Hellacopters), Gregg Allman (Allman Brothers Band) e John Wetton (vocalista do Asia), entre outros menos conhecidos.

A morte de Chester carrega uma curiosidade, pois o Linkin Park foi o último grande grupo de rock capaz de lotar estádios em qualquer lugar do mundo. O curioso é porque estamos falando de artistas que apareceram para o mundo há quase 20 anos. Além disso, o Linkin Park era altamente contestado como “rock” pelos mais puristas, já que mesclava hip hop e música eletrônica em suas composições carregadas, densas. Tanto que ao ler a notícia do suicídio de seu vocalista não me impressionou…

Fim dos grandes shows de rock

Goste você ou não (eu, por exemplo, nunca gostei tanto), Linkin Park representou o que foi o rock na primeira década do milênio como ninguém. Tive a oportunidade de vê-los no SWU em 2010. Um espetáculo atmosférico e esquizofrênico, para nenhum Nine Inch Nails botar defeito.

Seus herdeiros mais próximos são nomes como Imagine Dragons e Royal Blood, ambas com um som interessante e potencial crescente. Verdade seja dita: o Royal Blood ainda não tem uma base de fãs tão grande a ponto de lotar estádios, mérito que os Dragons têm maior facilidade. Aliás, The Killers, outra banda de Las Vegas também teve seus grandes shows em estádios. Não sei dizer se continuam com a mesma força.

Resta a nomes como U2 e Coldplay o rótulo de “dinossauros do rock”, capazes de encher estádios em shows megalomaníacos com o chamado guitar driven rock. O resto está restrito a bares, pubs e inferninhos, num círculo segmentado, underground. Se por um lado, o rock ficou cada vez mais interessante por se libertar das amarras das gravadoras, por outro, se tornou comercialmente difícil contra um mundo dominado por Lady Gaga, Anitta, David Guetta e rappers com muita bala (na agulha e nas letras).

Apaixonados pelo rock em sua forma mais clássica tremem em aceitar isso, mas o gênero, enquanto música, perdeu relevância cultural. No Brasil, a coisa aconteceu até mais rápido, ainda que um NX Zero aqui e uma Malta ali tenham surgido esporadicamente.

Rock é “vergonha alheia”

Crianças e jovens em geral já não curtem mais guitarras estridentes, riffs incessantes e vocais nem sempre competentes. O pop está tão ultraproduzido que possivelmente nem a Madonna e suas audíveis falhas vocais teriam chance na música atual. O The Voice e seus calouros melismentos atraem muito mais audiência televisiva do que qualquer programa recente com o objetivo de apresentar bandas novas.

Aquelas pessoas ostentando camiseta de banda há algum tempo causam vergonha alheia, como “nunca antes na história deste país”.

Não há muito frescor e nem juventude na maioria das ideias recentes do rock. Em seu objetivo de voltar a ser mais purista, se tornou coisa de tiozão. Um dos discos mais interessantes da safra recente, El Camino do Black Keys, tem produção de Danger Mouse, conhecido principalmente por seus trabalhos no hip hop.

Chester e o Linkin Park abriram espaço para isso lá em 2001. Chegaram com postura, som e visual que nada tinham a ver com bandas de rock convencionais. Seus ouvintes eram muito mais ecléticos que os cabeças-duras que viam no rock Mozarts e Bachs que o gênero nunca teve. Muita gente só conheceu JayZ, um dos maiores rappers da história, por causa da banda californiana.

Estilos de produção de Mark Ronson, RedOne e Timbaland se tornaram de muito mais interessantes aos ouvidos das massas. Martin Hannett, lendário produtor do Joy Division, jamais teria espaço em uma rádio hoje em dia, apesar de ter sido o responsável por definir as bases de um dos gêneros mais radiofônicos e influentes da década de 1980, o pós-punk.

Nem o Linkin Park escapou. Foi se adequando às novas propostas sonoras mais radiofônicas até chegar ao One More Light, lançado em 2016, criticado até pelos fãs de ser “pop do começo ao fim”. Se até o Queens of The Stone Age buscou deixar o som “dançante” no futuro Villains, produzido por Mark Ronson, o que esperar do resto?

Linkin Park representou o que foi o rock na primeira década do milênio como ninguém

Gêneros que representam outros públicos

Se isso é bom ou ruim, eu não sei, mas é fato que há (e sempre houve) muita coisa boa sendo feita fora do rock. Coisas que conversam com outros públicos, mulheres, LGBTs, jovens de periferia, minorias que nem sempre foram bem representadas pelo gênero rock tradicional.

Nos circuitos alternativos, a coisa sempre foi mais aberta, mas os chefões — com louváveis exceções — do meio sempre acharam mais interessante investir em cock rock. Uma hora a fórmula cansa, né?

E assim, a cada ídolo que morre, fica um espaço vazio que é preenchido por artistas competentes de outros gêneros, ainda que vivam da influência e dos espaços abertos pelo rock ’n’ roll.

Será que o rock morreu? Não sei, mas o astro do rock, aquele que come todas as groupies e cria suas próprias leis, esse foi brutalmente assassinado em Seattle na década de 1990 (ainda bem).

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Flavio Barboni

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Jornalista paulista no RS. Editor da NEW ORDER (medium.com/neworder) e do Infosfera (atl.la/infosfera)

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