Você sabe o que você (não) está dizendo?

Tudo o que a gente comunica sem palavras

Babi Vanzella
Mar 8, 2018 · 4 min read

Noah Buscher, Unsplash

Essa noite tive uns sonhos muito loucos com monstros translúcidos que tinham capacidade sensitiva e línguas verdes que capturavam a gente (eu e meus companheiros de loucura) mesmo a longas distâncias. O cenário era um mix em ruínas das cidades onde já morei. Enfim, uma viagem. Acordei meio exausta de bancar a Tomb Rider durante o sono e fui tomar café da manhã com minhas amigas. Italianas. Porque eu moro na Itália. E esse é o ponto.

Inocente, tentei contar de forma rápida (porque ninguém se interessa tanto assim pelos sonhos dos outros) o que tinha sonhado e percebi que era praticamente impossível narrar essa aventura em italiano. Faltava vocabulário não só no meu cérebro como no próprio idioma. Não era bem aquilo que eu queria dizer. Não era bem assim. Não eram aquelas palavras, não era daquele jeito.

Depois de onze meses de Itália, já consigo me comunicar de forma bastante satisfatória, mas que talvez nunca venha a ser completamente suficiente. E quando eu cheguei era ainda pior. Era um desastre. Dizer qualquer coisa era uma missão desgastante e quase sempre frustrada. Chorei muitas vezes de agonia por não conseguir me comunicar.

A gente se sente muito impotente quando precisa se defender de alguma injustiça e não consegue porque não tem domínio sobre o idioma. Quando precisa dizer alguma coisa importante pra alguém e as palavras vêm de uma forma primária, infantil, escassa. Quando precisa explicar um fato que aconteceu e não sabe nem por onde começar a formular frases. Quando quer dar um conselho, palavras de apoio, de carinho e não sai nada. É exaustivo não conhecer as palavras certas pra passar uma mensagem, pedir uma informação mais complexa, jogar conversa fora. Meu Deus como é difícil jogar conversa fora!

E foi assim, tentando tentando tentando aprender um idioma que eu aprendi que, na maioria das vezes, é muito mais eficaz tudo o que a gente comunica sem palavras.

Foi por não conseguir dizer nada direito que passei a testar outros métodos de comunicação. Me apavorava a ideia de que as pessoas podiam me interpretar de forma errada, pensar que eu fosse burra, analfabeta, que não me importasse com elas, com o trabalho, com tudo. Me senti por muito tempo como se o não domínio do idioma me diminuísse como pessoa. Diminuísse minha capacidade intelectual e até mesmo minha capacidade de sentir. Foi (e ainda é) um exercício de humildade estar imersa numa cultura diversa com um idioma diferente do meu.

E foi assim, de forma silenciosa, que larguei um pouco de mão (da ilusão) de ter uma comunicação linguística exemplar, aceitei a lentidão do processo de aprendizagem e passei a utilizar muito mais o poder do olhar, do sorriso e da minha própria energia pra comunicar tudo o que não era capaz de fazer com palavras.

E funcionou. Tem funcionado muito bem e talvez tão bem como nunca tenha funcionado toda minha fluidez linguística no português.

O nosso corpo todo comunica. Permitir-se sentir com profundidade gratidão, empatia, amor, amizade, compaixão, confiança pelas pessoas e canalizar tudo isso pra que transborde de nós por meio de um sorriso, de um olhar e da energia que a gente emana é uma especie de superpoder pessoal que quanto mais a gente exercita, mais eficiente se torna.

Tô lendo um livro escrito pelo neurocirugião americano James R. Doty. Ele também é professor no Departamento de Neurocirurgia na Universidade Stanford e diretor do Centro para Pesquisa e Educação em Compaixão e Altruísmo, CCARE, cujo benfeitor é ninguém menos que o Dalai Lama. O livro em italiano chama “La Bottega di Magia”. Nesse livro Doty conta sobre quatro ensinamentos que mudaram a sua vida e escreve essas belíssimas e certeiras palavras que transcrevo na minha tradução livre:

“Não acredito que exista uma lei da física capaz de descrever completamente o poder e a força que se criam quando a mente e o coração são utilizados em conjunto, mas guardo na memória a primeira lei da termodinâmica: a energia não é algo que se cria ou se destrói, mas é capaz de mudar de forma e fluir de um lugar ao outro. Este é um dom que todos nós recebemos.

A energia do universo está dentro da gente. Está na poeira estelar da qual todos nós somos feitos. É o poder da criação. O poder da expansão. Um poder extraordinário, simples, sincronizado. A energia é capaz de fluir de um lugar ao outro e de uma pessoa a outra.”

Trecho de “La Bottega di Magia”, James R. Doty

É exatamente isso. A energia que a gente troca com o mundo é uma ferramenta poderosa que temos à disposição e que deixamos meio que de lado na maioria das vezes porque confiamos demais na assertividade das palavras.

Só que por mais bem colocadas e bonitas que sejam, palavras são só palavras, no fim das contas. Elas podem inclusive dizer exatamente o contrário do que a gente tá sentindo. Podemos dizer com palavras exatamente o oposto do que pensamos. Não necessariamente elas contêm verdade, essa verdade visceral que as outras formas de comunicação transmitem em silêncio.

Se — dito a grosso modo — a capacidade de se comunicar em um idioma tem suas bases no intelecto, as outras formas de comunicação vêm de um lugar muito mais profundo e subjetivo, um lugar bem lá dentro da nossa alma que sabe de fato quem a gente é. E é por isso que são capazes de dizer tanto. Basta que a gente (se) permita.

Thanks to Cassius Gonçalves

Babi Vanzella

Written by

I don't have a story. I'm just a girl in a bar.

NEW ORDER

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade