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Votar ou vetar?

Eis a questão…

Nessas eleições, eu não tenho “voto”; tenho “veto”. Ainda mais quando nos deparamos com o presente cenário político, em que as mais recentes pesquisas eleitorais contrapõem duas opções praticamente inviáveis na liderança para a corrida presidencial.

Explico melhor: Bolsonaro e Mourão não demonstraram até agora o menor sinal de competência, experiência, conhecimento ou traquejo político necessário, o que os deixa sem nenhuma governabilidade. E isso é um grave perigo à democracia.

Pois se antes a ideia do “autogolpe” circulava aos sussurros pelos bastidores, hoje sabemos que ela já foi ventilada publicamente pelo General, vice do Capitão. É fácil delinear, portanto, que em pouco tempo, diante de sucessivos fracassos, sejam estes por inépcia ou mesmo por falta de quorum, eles iriam jogar o povo (ainda mais) contra o Congresso e o STF, “legitimando” assim qualquer medida antidemocrática, como o fechamento dessas casas. Como se chama isso mesmo?

Por outro lado, se a chapa do PT, encabeçada pelo Haddad e pela Manuela (PCdoB), fortemente vinculados à imagem do Lula (o que é bom, mas é ruim, se é que vocês me entendem…) se eleger, não faltarão subsídios para “legitimar” um outro tipo de golpe.

Haddad já possui diversas acusações e pendências judiciais. Mais que isso, não foi capaz de se reeleger em SP com a máquina na mão. Com a ajuda do Lula ainda livre. Ou seja, ele é muito mais fraco politicamente do que a própria Dilma, que caiu com acusações muito mais leves do que as que recaem sobre o Haddad.

Embora o Haddad até possa vencer, em alguns cenários, há muito risco nesta insistência. Ele vai ser enxotado da presidência em razão das suas denúncias e ações penais (e escrevam: vão impugnar a chapa toda, derrubando também a vice dele) e isso implicará na eleição do Bolsonaro. O caminho com uma eventual vitória do Haddad é da virada de mesa. Votar no Haddad é atiçar o sentimento de raiva de uma parcela significativa da população e, mais especificamente, do Exército.

Ou vocês não acreditam que isso pode acontecer?

Vocês já disseram, sobre o impeachment: “eles não passarão”. Passaram. Vocês disseram: “não vão prender o Lula”. Prenderam. Agora vocês acham que irão permitir que o Haddad vença?

Seja por inépcia, pelo esgotamento político e também pela falta de governabilidade do PT, teremos um forte clamor popular contrário ao candidato eleito. Até mesmo a falácia da fraude eleitoral (se meu candidato perder, é culpa das urnas eletrônicas) pode incutir um sentimento de revolta e incendiar as ruas desse nosso país.

Qualquer que seja a premissa, basta ver a postura do Comandante das Forças Armadas às vésperas do julgamento do habeas corpus do Lula. Independente da opinião e do desejo pessoal de cada um, o que nós tivemos foi um “voto de cabresto” durante a mencionada sessão. E, se atarmos todas as pontas soltas, poderemos perceber que nos encontramos diante de um processo que pode igualmente nos levar à uma ditadura.

Ciro, Alckmin, Marina, Meirelles e Alvaro Dias poderiam ser opções que, se eleitas, dariam um fôlego à nossa democracia — mas também dariam fôlego à corrupção e ao status quo, embora a manutenção das atuais instituições, bem como a continuidade da Lava Jato, à longo prazo, talvez seja muito mais educacional e eficiente do que “fuzilar ou metralhar” determinados segmentos da sociedade.

João Amoedo é de longe o melhor nome em termos de ficha limpa e de descontaminação política, e as pessoas que votam nele pela sua ideologia são as mais coerentes em todo o processo eleitoral. Infelizmente, eu não fecho com a sua política econômica liberal e não votaria nele, a não ser no segundo turno, como voto útil — leia-se — veto.

Uma pena que a social-democracia não tenha um nome tão isento quanto. O que eu me pego pensando agora é: qual dos males é menor: corrupção ou fascismo/ditadura? Qual vai doer menos?

Farei minha escolha, mas não tenho orgulho, nem vontade ou mesmo confiança para defender qual delas for. Embora as pessoas quem pensem como Lombroso tenham a ávida ânsia de rotular qualquer um que vota nessas opções acima como hipócritas, incoerentes, de má índole, bandidos ou desonestas, elas simplesmente ignoram que muitas pessoas estão votando coagidas pelo medo de ver algo muito, mas muito pior do que mais um corrupto no poder.

Mas tentar explicar isso, para essas pessoas é perda de tempo. É o efeito Dunning-Kruger; enquanto muitos de nós estamos em uma sinuca de bico, cheio de dúvidas, esse pessoal só tem uma certeza — e toda a razão do mundo.

Qualquer que seja a minha opção, ela é descartável, não durmo com ela, não faço carreata com ela, não adesivo meu carro com ela, sequer defenderei ela, pois eu vou escolher um(a) presidente menos pior, e não um candidato(a) de estimação.

Repetindo o que eu disse ao iniciar essas considerações: nessas eleições, eu não tenho “voto”; só tenho “veto”. Mas temo por chegar o dia em que não terei nem uma, nem outra destas opções.