Vulnerabilidade, demonstrações de afeto e sexo casual

(ilustração por Beatriz Leite | contato: beatriz.hmleite@gmail.com)

Li esses dias um texto no qual a autora dizia que não vai mais fazer sexo casual, porque é sempre horrível, já que é sempre um cara que não a respeita e não está nem aí pra ela. Agora ela só quer fazer sexo com amor, mesmo que isso signifique ficar um tempão sem transar. Acho justíssimo e desejo tudo de melhor pra ela, porque não é fácil mesmo e eu também prefiro ficar sem do que aceitar algo ruim. Mas fiquei pensando: que mundo é esse em que sexo só existe nesses dois polos distintos e diametralmente opostos e que a gente tem que ficar escolhendo em qual dos dois vai jogar? Precisa mesmo ser assim?

É muito louco que tanta gente acredite — e pior, pratique — em sexo como algo que só é possível no formato de dois extremos:

1) casual com uma pessoa que não te respeita e não está nem aí pra sua parte da diversão e

2) com amor em um encontro de almas que estão destinadas a permanecerem juntas para todo o sempre (ou, ok, com amor, em um relacionamento sério).

Muito se fala atualmente sobre o medo que muitas pessoas têm de ficar vulnerável, medo de se importar. São pessoas que cortam uma relação que está legal porque têm medo de que fique mais legal ainda. Dar certo é a pior coisa que pode acontecer. Porque dar certo e ter algo bom na vida é uma forma de talvez se tornar dependente, de acabar precisando, de sofrer se acabar. Me pergunto se as pessoas que escolhem terminar por medo de sofrer se terminarem se dão conta de que, na verdade, estão escolhendo viver exatamente o que não querem viver. (É uma contradição tão bizarra que foi até difícil escrever uma frase com sentido pra descrever esse comportamento.)

Coleciono chaveiros desde pequena. Adoro chaveiros. Minhas chaves de casa não têm chaveiro nenhum. Por quê? Porque eu sou maluca e não quero arriscar perder ou gastar meus chaveiros. E aí o que acontece é que, por medo de ficar sem, acabo não usando o que tenho. E isso não é o mesmo que não ter? De que adianta ter tantos chaveiros e deixá-los todos guardados de modo que muita gente nem sabe que coleciono chaveiros? Chega a parecer que nem gosto de chaveiros, já que ninguém nunca me vê usando um.

Só me perdoo por essa birutice dos chaveiros porque são apenas chaveiros. Mas com pessoas, minha gente, a vida é curta demais pra ficar se limitando. Quando você interrompe uma relação que está legal porque teme que ela evolua e depois termine e você fique triste, é você quem está escolhendo não ter essa coisa legal na sua vida. A outra pessoa talvez estivesse super empolgada com você e foi você quem não deu a chance de aquilo se tornar algo que poderia ser lindo para os dois. Esse medo de depender, de precisar, de se comprometer e depois sofrer faz com que as pessoas prefiram não ter nem as alegrias. Tenta-se a todo custo controlar os sentimentos e esquece-se de viver o presente. Por que não viver aquela relação que está acontecendo ali no momento? Por que se preocupar tanto com o que significa andar de mãos dadas, dormir junto, mandar trecho de livro, ligar no dia seguinte?

Parece que desviei um pouco do tema central, mas foi com um objetivo. O que eu quero dizer é que esse medo de ficar vulnerável é tão profundo e tem tantos desdobramentos, que muitas pessoas preferem não demonstrar carinho por medo de serem “mal interpretadas”. O raciocínio é, por exemplo: “não vou passar a noite pra ele não achar que eu quero namorar”; “não vou mandar mensagem pra ela hoje, senão ela vai achar que eu tô querendo algo mais sério”; “não posso ficar muito tempo abraçado depois do sexo pra não passar a ideia errada”. E aí a pessoa pega todo um conjunto de rituais considerados “coisa de casal” no senso comum e evita reproduzi-los mesmo que tenha vontade de fazer tais coisas só porque sim. Há uma tentativa tão forte de marcar as diferenças entre ser ou não ser um casal, estar ou não estar envolvido, que acaba que sexo casual vira sinônimo de distância e desinteresse. O resultado é sexo casual sem vínculo, sem carinho, sem amizade, sem intimidade. Como é que se desenvolve intimidade com alguém, sendo sempre tão retraído?

E ainda tem a pessoa que termina com você porque te acha envolvido/a demais só porque você é legal, atencioso/a, simpático/a. A pessoa que não quer relacionamento sério e acha que a melhor maneira de deixar isso claro pra você e não te dar falsas esperanças é ser fria, distante e evitar qualquer tipo de intimidade que não seja ficar pelado se lambendo. Te perguntar se você quer algo sério ou se está se envolvendo, nem pensar. O modus operandi é não ser legal para você não se apaixonar. É tanta coisa pressuposta e não conversada e tanto passo programado, que não sei onde sobra espaço pra naturalidade, pra diversão, pra amizade e pra de fato aproveitar a experiência de estar com aquela pessoa.

É muito triste pensar que tanta gente sinta só “ter permissão” pra ser atenciosa e carinhosa e receber atenção e carinho quando está apaixonada querendo um relacionamento sério e, mais, quando tem certeza de que é correspondida nesses sentimentos. Acho que é isso que resulta em tanto sexo casual ruim, com pessoas que de verdade não se importam uma com a outra. Porque a neurose é tão grande, que se vive optando entre os dois extremos de não querer saber nada da pessoa ou querer saber absolutamente tudo sobre ela. Se você só curte fazer sexo com amor, é uma coisa, mas, se você sente que essa é a única alternativa a fazer sexo horrível com gente que não está nem aí, tem alguma coisa muito errada acontecendo no mundo.

Por uma vida com mais sexo meio termo. Sexo com gente com quem você não quer casar, mas gosta de bater papo. Sexo com gente que não vai ligar no dia seguinte e isso não vai significar nada, porque ambos estão bem sem ter que se falar todo dia pra provar alguma coisa. Sexo com gente que faz carinho sem precisar estar apaixonada pra ser carinhosa. Sexo com gente que cozinha pra você. Sexo apaixonado com gente que você adora, mas não precisa que seja pra sempre. Sexo com seu melhor amigo. Sexo com aquele cara que nem é seu melhor amigo, mas é super gente boa. Sexo com uma pessoa que lembra de você toda vez que vê na internet alguma coisa que você gosta e te mostra sem que ambos fiquem preocupados de estarem quebrando as regras de uma relação casual. Sexo sem medo de acabar se apaixonando. Sexo sem medo de ser a última vez que você faz sexo com aquela pessoa.

Já estou caindo no clichê de viver o momento sem pensar no amanhã e no que as coisas vão dar e vou parar por aqui. Mas, sério, gente, se você gosta de sexo casual, faça sexo casual com respeito, interesse, amizade e afeto.


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