Websérie: Vidas em Transição

Só quem vence o medo do desconhecido sente a felicidade e os prazeres do que é mudar.

O surfista, antes de sobrevoar o mar com demasiada satisfação, primeiramente, deve vencer a natural imposição do mar: remar dolorosamente até que ele consiga ultrapassar a arrebentação (lugar na proximidade da costa onde as ondas se quebram, gerando grande turbulência e correntes). O fato em si é, de certa maneira, conhecido também por quem só se limita a colocar os pés na areia. E, se nadarmos por todos os canais de televisão do segmento, quase não se nota essa aventura inicial do surfista; tampouco, as recorrentes quedas quando se deseja pegar uma onda.

Assisto com frequência a harmonia gerada entre homem, prancha e mar. Chego a pensar, quando estou confortavelmente afundado em meu sofá, mas longe de ter conclusões convictas, que o ofício não exige astronômico esforço. Só que me esqueço de que tudo é feito por profissionais: as manobras e a edição dos programas. Só tomei conhecimento das dificuldades que é surfar, quando estava em ação, remando, e tentando me equilibrar na prancha. Passar a arrebentação foi a mais bela onda que consegui pegar. Mas posso garantir que, de todos os esforços exigidos, e com resultado da atividade praticamente nulo, a felicidade se apresentou triunfante quando retornei para a areia encharcado de cansaço.

Dessa maneira, apresentou, pelo menos pra mim, e acredito que para quem dá o primeiro passo numa nova jornada, um cenário: transição é vida. Percorrer o processo, do objetivo proposto, ao que tudo indica, garante plenitude de vida.

Transição é movimento, energia, e a própria manifestação da realidade a nossa volta; é a condição que nos dá a possibilidade de (querer) mudar e, portanto, evoluir. Peço agora licença ao leitor, pois, aqui vai uma crença pessoal, que a morte pode ser um instante de transição que nos faz confiar na eternidade da vida. Vencer essa arrebentação, e de qualquer outra esfera, precisa de coragem.

Só que quando se está no mar, tentando pegar a bendita onda, escassos são os momentos de clareza, esclarecimento, consciência. E o medo latente, configurado em nosso circuito interno, castiga com severos afogamentos nossos pensamentos. O conflito, subitamente, se revela. E então começa a emblemática luta interna, como se estivéssemos no fundo do mar sem a menor possibilidade de retornar à superfície.

Nestas condições, sufocados em incertezas, tencionamos a acreditar que tudo está do avesso. Aparecem então os habituais sintomas: ansiedade, angústias, medo… Que deplorável e horrível sensação. “Quando é que isso vai passar?”, pensamos exaustivamente, gerando ainda mais desconforto.

Mas mesmo assim, inserido no revolto mar de sentimentos, enquanto uso esse corpo, acredito convictamente, que eu e todo o gênero humano, estaremos sujeitos a tais forças. E que bom! Agradeço todos os dias; afinal, só quem vence o medo do desconhecido sente a felicidade e os prazeres do que é mudar — evoluir.

Aspectos mais agudos do cotidiano, como profissão e relacionamento, vivem em constantes transições. De ciclo em ciclo, obtendo os resultados das experiências vivenciadas — ou pelo menos é assim que deveríamos caminhar -, vamos cumprindo, aos trancos e barrancos, com o ritmo da evolução.

Tudo o que se deu até agora faz parte da minha transição de quando comecei a formular a ideia sobre o assunto. Não sabia se deveria ou não expor, e nem em que canto do texto colocar adequadamente. Como é óbvio, para quem chegou até aqui, veio por inteiro antes da minha explanação sobre a websérie “Vidas em Transição”.

Quem também esteve vulnerável no mar, e usou a coragem para vencer o medo, foi a jornalista Clara Vanali. Depois de abandonar a empresa de 4 mil funcionários e deixar a prazerosa rotina de trocar experiências e ouvir histórias dos colegas de trabalho, de início, Vanali sentiu uma euforia contagiante em seu peito, mas logo em seguida, trancafiada em seu quarto na companhia de um computador, o desespero lhe roubou a liberdade do pedido demissão. “Onde eu fui me meter?”, escreveu. Por outro lado, sentia confiança dentro de si mesma: “A gente sabe que vai sentir medo, mas a curiosidade de experimentar é maior”.

Avançaram-se dois anos depois de finalizar a burocracia do desligamento da empresa, em 2012. Muita coisa aconteceu. Mas parece que nada acontecia também. Entre encontros e desencontros, nasceu, em 2013, a produtora de vídeo Às Claras Filmes. Começou a dirigir as primeiras cenas e, em paralelo a isso, muitos relatos, de pessoas em transição de carreira, começaram a se aproximar de Vanali. Inserida nesta condição, inexorável foi a sua identificação. E com a sua fiel companheira, a irmã Natalie, decidiu agrupar os mais diversos questionamentos absorvidos em um documentário.

A websérie documental “Vidas em Transição” é o mais profundo e verdadeiro relato de histórias reais de transição de carreira e, consequentemente, de vida. Depois de ouvirem centenas de corações angustiados e esperançosos ao mesmo tempo, e beberem litros de cafés, decidiram registrar o estágio em que as pessoas ainda estão tentando atravessar a arrebentação dos seus próprios limites. No emaranhado de sentimentos delatados, o meio do caminho é que despertou a atenção das irmãs. É o processo que ainda está sendo percorrido, e não o objetivo proposto alcançado, que “Vidas em Transição” captura com oportunismo, sutileza e sensibilidade.

No final de 2015, o próprio projeto deixou a fase de transição, e passou a construir as histórias. Em março deste ano o primeiro capítulo foi apresentado e, na última semana, seguindo a programação das quartas-feiras, findou-se a 1º temporada com 6 episódios.

O símbolo do projeto é uma cadeira branca em que os personagens, quase que narrando para si mesmos, buscam um novo lugar. E escrever na cadeira retrata o início das primeiras páginas de uma nova vida que está se constituindo.

É possível viajar em cada registro emocional e aprender com cada personagem. Demissões, angústias, dúvidas, medos, vontade de empreender, descobrir aquilo que gosta de fazer, coragem, planejamento e insistência (sempre), é à base do roteiro em transição que, cada um de nós, escreve e vivencia diariamente. Estar numa situação não é uma condição de ser. Estar em transição, em mudança, é a oportunidade que nos é dada para evoluir. Mais uma vez: só quem vence o medo do desconhecido sente a felicidade e os prazeres do que é mudar. E boa sorte em sua transição!

A série completa, da 1º temporada, você pode se relacionar abaixo:

Episódio 1 — Lyna Barbosa. “Eu nunca fiz um currículo. O meu currículo era o meu trabalho”.

Episódio 2 — Fernando Del Debbio. “A gente planeja nessa vida e as coisas acontecem do jeito que elas têm que acontecer”.

Episódio 3 — Mariana Dias. “É um tijolinho de cada vez”.

Episódio 4 — Leandro Guima. “Não é queda livre. É meta. É planejamento”.

Episódio 5 — Natalia Marchi. “Quando veio a gestação e eu fui pra casa cuidar da minha filha, isso gerou uma frustração em muita gente”.

Episódio 6 — Viviane Palladino. “Transição é um processo de aprendizado contínuo”.

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