White God e a conta que dividimos na hora de pagar

“Tudo o que é terrível precisa do nosso amor”

Se tivesse adaptação em romance, eu colocaria essa arte pra capa.

Creio que eu tenha desenvolvido o hábito de assistir e debater filmes que estão muito próximos de escorregarem de seus dois ou três horários remanescentes nos cinemas. A bola da vez foi o húngaro White God, do mesmo país do vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Son of Saul.

Fui sabendo de pouco e me surpreendi com toda a carga que eu levava em meus ombros no final da sessão. Li na sinopse que se tratava de uma garota separada de seu cão, e nisso não mentiram.

O filme começa com Lili (Zsófia Psotta), uma garota que precisa passar três meses com o pai, que trabalha em um matadouro como controlador do teste de qualidade das carnes. Logo de cara temos o “processo natural” acontecendo dentro do lugar, e a sequência serve como um aviso para que o espectador blinde o estômago. Não que vá acontecer algo mais pesado que a evisceração de bovinos, mas as duas horas de filme estão recheadas de cenas fortes, que se agravam pelo que não é mostrado e pelo que é sugerido. Coisa de cineasta consciente do peso de suas mãos — e aqui estamos falando de Kornél Mundruczó.

Pôster incrível, né? Espera pra ouvir a trilha dessa cena.

Lili é muito ligada a Hagen, um cão sem raça definida que aparenta ser um misto de Labrador e Shar-pei. Com mais alguns minutos de filme percebemos um ar levemente distópico, já que cachorros mestiços precisam ser registrados (o que envolve dinheiro, claro) ou serão recolhidos para um abrigo.

Hagen e o nariz de Lili

O pai de Lili odeia cachorros e se recusa a pagar por algo que seja da ex-esposa — um pensamento um tanto frio, já que o laço ali é entre a filha e o cão. Mas essa frieza do pai da garota já está presente ali de maneira calculada, desde a introdução do personagem no matadouro.

Hagen causa alguns problemas simplesmente por existir e por ser o que é — indefinido, sem raça. O pai de Lili força uma separação dolorosa entre a filha e o cão, e aí entramos em um segundo ato onde a narrativa acompanha ora Lili, ora Hagen. O clima do filme muda, e ficamos aflitos ao ver o bichinho tentando atravessar avenidas movimentadas e revirando lixo.

Até o final das mais de duas horas de duração do longa, temos impressão de ter experimentado 3 filmes diferentes, tamanha a diferença na densidade e na atmosfera da história. Vemos a perda da inocência em Lili e em Hagen, e as mudanças bruscas que ambos experimentam pela privação do amor. Quem experimenta a pior face da humanidade nessa narrativa bifurcada é Hagen, que é diferente, marginal, fora dos padrões. Açougueiros, empresários de rinhas de cachorros, golpistas e aproveitadores: as quatro patas do cão cruzam com esses tipos intermitentemente, ainda que também encontre momentos de alívio com outros semelhantes, cães abandonados e sem raça, em momentos de um Oliver Twist canino.

A citação de Rainer Maria Rilke que inicia o filme e compõe o cartaz fica rondando o nosso imaginário e encontrando lacunas onde aportar a frase: tudo o que é terrível precisa do nosso amor. Um diálogo espinhento entre Lili e o maestro de uma orquestra juvenil (a qual a garota toca trompete), envolvendo Tannhäuser, confirma o centro gravitacional da história. À mercê da humanidade e do ódio, Hagen vai se moldando no que as pessoas esperam de um cachorro indefinido — se tornando raivoso, violento, bestial.

É, é o Hagen. Eita.

A reta final de White God, anunciada em um flashforward nos primeiros instantes do filme, é apoteótica. Creio que eu nunca tenha visto tantos animais em cena sem o auxílio de computação gráfica — o tanto de adestradores nos créditos finais mostra que não deve ter sido nada simples a execução das cenas. O clima opressivo do filme se intensifica — flertando com o realismo fantástico de Saramago e Borges, e com a rebeldia de Ray Bradbury e Anthony Burgess — e nos faz encontrar alguns alívios rápidos ao mostrar personagens terríveis levando… o que merecem?

Aí é que está o ponto do filme: o ódio. Gente horrível aparece o tempo inteiro na esteira de Hagen, em diversas escalas de maldade. Porém, na hora de chamar o garçom e pagar a conta, todos pagam o mesmo preço. Quem deseja o mal, quem pratica o mal: todos sofrem uma consequência só. Acumulada, distribuída em porções iguais. Quem se dá ao trabalho de observar o curso de nossa própria história sabe que a única forma de igualdade encontrada onde há opressão e discriminação é a igualdade dos danos, que não poupam ninguém e que não fazem distinção na hora de dar a sua resposta.

Confesso que não sei interpretar tudo. O título, White God, em um primeiro instante disléxico me pareceu se tratar de White DOG. O que talvez seja uma das intenções, talvez não, já que Hagen tem seu momento messiânico no terceiro ato do filme. Aliás (momento Luisa Mell) os dois cães que interpretam o bichinho de Lili merecem destaque. Eles passam drama no olhar e no focinho amassado, incrível. Quero oito desses indefinidos lá em casa.

Hagen em trajes de gala, porque sim.

Conclusão: não é um filme para todo mundo, pois causará aflição em muita gente — vi ao menos três pessoas deixando a sessão. Mas a mensagem passada é abrangente e necessária. Acredite, Gregor Samsa aplaudiria as metáforas e as cutucadas de White God (se suas patinhas de inseto assim permitissem).

____

Felipe Castilho é escritor, roteirista e editor. Pensa que cães shar-pei parecem ser toalhas felpudas amontoadas (o que é lindo).

Twitter: @felcastilho