Wild Wild Country e o magnetismo de Sheela

Babi Vanzella
Jun 3, 2018 · 4 min read

Desde que assisti Wild Wild Country na Netflix, venho tentando processar coisas que uma vez vistas não podem ser desvistas. Bem difícil me expressar com alguma coerência sobre uma história incoerente que eu sei lá o que pensar sobre ela.

Pra quem não tá ligado nos paranauê, o documentário gira em torno do Osho, que na época atendia pelo nome de Bhagwan Shree Rajneesh, e desenrola todo um período muito louco da história no qual existiu uma comunidade muito mais louca ainda no interior conservador dos EUA, liderada por ele e presidida, na maior parte do tempo, por uma mulher porreta e calculista, porém ainda assim incrível e encantadora e que por isso mesmo é de quem quero falar: Ma Amand Sheela.

Braço direito do Osho, um dos grandes líderes espirituais que o mundo já teve, Sheela é uma dessas pessoas que a gente tem vergonha de assumir que gosta. Mas que no fundo, no fundinho, a gente bem que gosta.

Só na última semana, três gentes comentaram comigo em voz baixa que, apesar de se sentirem culpadas, não conseguiam evitar a admiração pela Sheela. Uma pessoa que praticou atos indefensáveis e repugnantes, enfatizaram.

Mas também uma mulher competente, doce, forte, alegre, inteligente, destemida e capaz de mover montanhas pra conseguir viabilizar qualquer que fosse a vontade e os projetos do seu guru. E que com seu trabalho incansável tornou possível a existência de uma comunidade completamente inédita nos anos 1980 e cujos ideais eram bem interessantes se não tivessem sucumbido ao fanatismo, à ganância e a outras paixões do ser humano — mas isso é papo pra outro texto.

Quando assisti ao documentário não tive muito com quem comentar, porque ninguém próximo a mim tinha assistido, mas silenciosamente vi brotar uma ruguinha de culpa por ter simpatizado com alguém que, entre outras coisas, tentou matar uma cidade inteira com armas químicas e envenenou pessoas das quais tinha ciúmes porque recebiam a atenção do Osho, por exemplo.

Mas, ao ver tanta gente se debatendo com esse sentimento de gostar de alguém de quem é errado gostar, percebi que, na verdade — e assim como outros tantos “vilões” com os quais a gente simpatiza mesmo sem querer — , Sheela representa a coragem de uma pessoa que integrou as próprias sombras, assumindo quem é até as últimas consequências.

Ninguém é santo aqui, mas a gente faz pinta de bom moço porque o certo é ser uma pessoa legal. Todas as nossas vontades controversas e os nossos sentimentos amargos a gente enfia embaixo do colchão e sai assobiando por aí com cara de tacho.

Tá tudo certo em tentar ser uma boa pessoa a maior parte do tempo, buscar sempre evoluir e ser um pouco melhor a cada dia. É necessário, inclusive. O planeta agradece e a família também. Mas não importa o quão rápido a gente corra, nossa sombra sempre vai estar na cola acompanhando o passo. Porque ela também é parte de nós.

Somos pessoas duais vivendo num mundo dual, o que significa que luz e sombra são parte de quem a gente é. Bem e mal, bom e ruim: tá tudo aqui dentro. Negar a existência da sombra não faz com que ela desapareça e, inclusive, pode ser que a deixe enfurecida por ser ignorada e faça ela dar um jeito de nos corroer por dentro. Mas é o que a maioria de nós tenta fazer: fingir que a sombra não existe.

No documentário é visível (e chocante) que um iluminado que segue sendo uma das figuras mais representativas da busca pelo autoconhecimento e defensora da meditação bem como da importância do amor e do pensamento livres tem um lado sombra evidente. Só que, de alguma forma, mesmo o lado sombra do Osho é a Sheela quem peita. Ele nega veementemente e ela assume a responsabilidade sorrindo. “Fiz mesmo e fiz bem feito.” E a gente fica tipo “meu Deus, que pessoa louca-mágica-odiosa-maravilhosa”. Porque impressiona muito ver alguém com coragem de assumir integralmente quem é!

Por ironia do destino, foi o próprio Osho quem disse que o importante não é ser perfeito e, sim, ser espontâneo. E ser espontânea é o que Sheela faz de melhor. A naturalidade com que integra, assume e devolve sua sombra pro mundo é o principal elemento que justifica o magnetismo dessa figura.

Por isso é que ninguém precisa ser um monstro pra gostar da Sheela apesar de tudo. Basta ser humano. 💜

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