Zootopia: o sonho democrata é o pesadelo de Donald Trump.

Zootopia | O pesadelo de Donald Trump

Animação reflete as divisões sociais e o preconceito no mundo real

Graças ao seu amplo poder de comunicação, atualmente, o cinema carrega uma forte responsabilidade social sobre o que realiza. Todavia, um dos principais filmes da história não apenas rechaçava ideais básicos dos direitos humanos, como fazia propaganda política para o grupo criminoso Ku Klux Klan, que, mesmo após tantos anos, segue pregando uma falsa soberania branca, cristã e altamente xenofóbica. Trata-se de O Nascimento de uma Nação, filme dirigido por D. W. Griffith e lançado em 1915. Apesar de ser o precursor no uso de técnicas cinematográficas utilizadas até hoje, o longa, que se passa durante a Guerra de Secessão nos EUA, é muito criticado por seu viés racista.

Em tempos de tensões raciais que, por enquanto, explodem de maneira isolada em alguns estados norte-americanos e pelo mundo, uma nova onda de preconceito e racismo preocupa os países com conflitos étnicos. Com os vários casos de refugiados buscando abrigo desordenadamente em solo europeu, misturado aos anseios de ameaça de terrorismo, nações estão cada vez mais fechando suas fronteiras. O Brexit, por exemplo, fortaleceu não apenas uma imensa ideia anti-imigração como tem deixado grupos políticos de cunho conservador nas causas sociais e imigração ainda mais populares e relevantes.

Presidente Trump: para ele, mexicanos são estupradores.

Com a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais, a onda agora chegou aos Estados Unidos. Quando candidato, ele deixou claras suas opiniões sobre a deportação em massa de imigrantes ilegais, o preconceito contra mexicanos, a construção de muros em torno do país e a proibição da entrada de muçulmanos na região. Não é à toa que diversos casos de preconceito surgiram no país logo após a eleição do empresário. Se ele vai ou não investir na perseguição contra os imigrantes, só o tempo irá dizer, porém, fica claro que o marketing radical de sua campanha já está surtindo efeito.

Aprendendo com os bichos

O reino animal é um dos sistemas mais sólidos que existem na Terra. Composto por uma hierarquia em que a lei do mais forte predomina, o conflito entre os predadores e as presas sustenta o que mantém toda a cadeia alimentar em total “harmonia”. Essa é a metáfora que serve como base para a animação Zootopia, filme que, provavelmente, Donald Trump não aprovaria e que em nada lembra dos deslizes ideológicos que marcaram o nascimento do cinema.

A intolerância entre espécies e gêneros é o mote de Zootopia.

Se apoiando numa analogia aos preconceitos vigentes na sociedade, Zootopia conta, em forma de fábula, a história de Judy Hopps, uma “fofa” coelha que veio do campo com a intenção de cumprir o seu destino: integrar a polícia da cidade. Vencendo todos os obstáculos, sendo o machismo um dos mais difíceis, aos poucos, ela prova que é capaz de assumir sua posição.

A cidade de Zootopia funciona como uma América romantizada, uma Nova York animal. Existe espaço para todas as espécies, com mecanismos de transporte e moradia adaptados para todas as espécies de mamíferos. São bairros de ratos, girafas, elefantes, etc. Todos vivem em deliciosa harmonia — como um sonho democrata.

Já o campo é mostrado como local para pessoa sem sonhos, conformistas — o que pode refletir bem certas regiões do país que apoiaram Trump . “Se não tentar nada novo, nunca vai fracassar”, aconselha o pai para a coelha, tentando convencê-la que plantar cenouras é mais importante que mudar o mundo sendo policial, algo impossível para ele.

Em Zootopia, raposas são vistas como mentirosas e trambiqueiras.

Apesar de Zootopia ser a representação do sonho americano, ainda existe espaço para tensões. Enquanto raposas são vistas como mentirosas e trambiqueiras, outros predadores assumem funções de acordo com antigos estereótipos socialmente construídos. O leão é o prefeito, animais como rinocerontes e tigres são policiais, ovelhas administram escritórios e preguiças são responsáveis pelas repartições burocráticas.

“Aprendi duas coisas naquela noite. Nunca ia deixar alguém ver que me afetou e que só verão uma raposa como um ser astuto e traiçoeiro. Não adianta tentar ser outra coisa”, relata Nick, uma raposa, após sofrer bullying apenas por ser desta espécie.

Zootopia é o retrato de uma América adormecida e entorpecida pela sociedade de consumo, da cultura pop, da tecnologia e regrada com leis e regras politicamente corretas. Só que as lembranças de um passado recheado de intolerância estão vivos nas memória da sociedade utópica. É o assombro da escravidão e da imigração em massa.

Essa visão política culmina em debates primorosos sobre o ódio entre espécies, que é fomentada após casos de ataques de predadores contra “cidadãos de bem”. Toda a questão evoca justificativas “biológicas” para o ressurgimento da violência. A histeria logo toma forma e a cidade fica dividida.

A amizade entre os diferentes culmina na (re)construção da tolerância.

Em nossa realidade, trocam-se predadores por estrangeiros (ou minorias) e presas por cidadãos com nacionalidade. É quando Trump chama mexicanos de estupradores ou afirma que muçulmanos são terroristas. A metáfora da animação da Disney é uma aula de como construir analogias, reflexões e entretenimento de qualidade para adultos e crianças. A “moral da história” incita o tempo inteiro a relação do que é visto na tela com situações do mundo real.

Enquanto que, em Zootopia, essa moral se constitui em forma de respeito pelas diferenças e na noção de que o que vale é o desejo de ser alguém em uma sociedade verdadeiramente livre, na nossa realidade, com Trump e o Brexit, a ilusão alimentada pelo medo e pela falsa sensação de segurança gerada por discursos isolacionistas sufoca um ensinamento muito importante: não se fazem sociedades livres com muros e discursos de ódio, mas sim com o diálogo e o apoio de todas as parcelas que as compõem.

A soberania da América se baseia nisso e sempre inspirou o mundo, porque agora seria diferente?

Colaboração: Renato Conceição