Uma série sobre gente fodida, para gente fodida
O texto a seguir, pode conter spoilers sobre a primeira e segunda temporada da série Love. E também sobre todas as temporadas da minha vida fodida.

Demorou muito para que eu volta a escrever, e não foi porque eu estava colocando series em dia, ou falta de tempo, ou tivesse algum tipo de bloqueio. Por conta da vergonha mesmo, sabe aquela vergonha de quando sabemos que estamos fazendo algo errado, ou estamos prestes a fazer e fingimos que não somos nos daquela situação. Esta ai.
Minhas series continuam atrasadas, deveria fazer algo melhor com meu tempo livre, e sempre tenho motivos para escrever. Mais a vergonha não me deixa vir pra cá. Ela falava comigo, ignora isso. Esquece que isso aconteceu e segue o baile. E eu fiz isso muito bem até hoje, até não conseguir mais.
“Ignorar a merda não vai fazer ela sumir, querida.”
E antes, de falarmos sobre a serie que prometi, preciso confessar algo sobre mim. Eu amo o amor, sim é verdade. Eu imagino que ninguém admita isso hoje em dia, mais eu adoro tudo haver com esse sentimento. Sou fã de filmes românticos, e comedias românticas, e de musicais aonde a carga dramática do amor se resulta em um fazer tudo para que o outro fique ao seu lado. Sou daquelas que se emociona e vibra, com relacionamentos alheios, a que se identifica com a protagonista do livro que se apaixona pelo bad boy. Essa sou eu, ai cara como é bom por isso pra fora. AGORA da pra continuar.
Conhecem a série LOVE? Espero que sim, pois falarei dela ou mais ou menos isso. Love tem um premissa que engloba tudo aquilo que amo em uma produção, personagens reais, com problemas reais, com soluções reais, que as vezes podem ser bem vistas ou não. É um espelho que nem todo mundo gosta do que se reflete.
Conhecemos Mickey uma garota bonita e descolada, totalmente dependente de amor e sexo, possui um gato chamado vovô, e um vicio por drogas e álcool. E também tem o Gus, um garoto estereótipo de nerd, que tenta sempre ser o bonzinho da turma, tem um sonho de ser roteirista, e acaba se apaixonando por Mickey.
Temos um serie romântica? ERRÔU como diz o Faustão. Temos apenas uma série sobre pessoas, ou contextualizando temos uma série sobre pessoas fodidas, para pessoas fodidas.
Agora vocês me perguntam? “ Mais porque uma série fodida Isabela, você não acabou de deixar claro que ama romance e blá blá ?” SIM, galerê amo. Mais é uma merda ta apaixonado nos dias de hoje, e tai porque me identifiquei tanto com essa série.

Se apaixonar ou estar amando significa apenas uma coisa nos dias atuais, uma voz do seu interior gritando “é roubada Bino, é roubada”. É exatamente isso uma roubada, é horrível o sentimento de vulnerabilidade que ficamos expostos, é estar entregue e as vezes entregar um pedaço seu que nunca foi pedido, por alguém que muitas vezes nunca quis. É estar preparado, pelo sim, ou pelo talvez, porque no dias atuais não existe um não e um ponto final. Existe as frases já prontas de ‘melhor sermos apenas amigos’, ‘não procuro um relacionamento atualmente’ ou ‘por agora to de boa’. Percebeu a semelhança nessas frases são todas feitas em banho maria, para se assim possamos regar algo que não vai passar de um talvez.
Nos dias atuais, estejamos preparados para encontros de uma noite, para mensagens ignoradas ou para o famigerado “oi sumida (o)” depois de alguns dias. Estejamos acostumados em nos apresentar milhões de vezes a alguém que será sustentado pelo silêncio. Estejamos prontos a assumir o que sentimos, mais o medo de ser o primeiro a fazer isso nos compromete a nunca fazer, e passamos a vivermos em ciclo com alguém que faz parte da sua vida, mais não se sabe bem qual parte é.

Nos primeiros episódios de Love partilhamos e nos identificamos com esse dilema que Mickey e Gus passam. Ambos se gostam, ambos tentam conter uma carência, e ambos não estão prontos para a primeira mensagem. Dito assim parece uma besteira tão grande, mais quem nunca ficou receoso a mandar a mensagem da noite seguinte, e se fazer parecer desesperado. Quem nunca demorou a responder a alguém, tentando praticar o desinteressando.
Love é uma série tão despretensiosa quanto seu roteiro. Uma série tão real quando o drama vivido por seus personagens. É uma série sobre nos, que queremos demais, que nos preocupamos demais, que cobramos demais outros e si mesmos. E sobre olhar as migalhas que aceitamos e tentamos tornar algo inteiro, é sobre ver as falhas de ambos protagonista e dizemos que “eu nunca faríamos isso ou aquilo”, sendo que fazemos e nos educamos pela logica de amar/ ser amado.

Love é uma paródia do amor. Talvez até uma farsa ou uma caricatura. Uma ironia, com certeza. É a tentativa, que não dá nada certo, de narrar uma relação amorosa e que acaba saindo como uma definição de falta, de carência, de falhas — o que é quase uma definição do não amor. Ou será que amor é isso também? Pra mim, a série vê o amor como uma palavra mal acabada, cujas letras mudam toda hora e o resultado é sempre incerto — o que tem tudo a ver com a abertura, não é mesmo? É também um pedido de socorro, por deixamos que certas coisas aconteçam conosco, e sobre não deixar mais que elas aconteçam.
A Isabela aqui continua amando amar, odiar o amor. E tentando o possível para se desprender daqueles filmes do anos 90 e dos melhores casais dos anos 2000. Descobrindo todos os dias que o amor não é um objeto e nem uma opção, que deslizar rostos da direita para esquerda pode ser um passatempo. E que os não opostos e nem iguais que se atraem, e sim os dispostos.

