A inconveniência das leis trabalhistas

O desenvolvimento tecnológico sem o desenvolvimento moral e espiritual torna-se facilmente criminoso.

Foto: Rogério D.Santis

Texto: Eduardo Marinho

Publicado na edição #NEZMAG05

N o final do século dezenove, sob pressão do Império Britânico, foi “abolida” a escravidão, depois de toda uma arrumação pra evitar que os ex-escravos se tornassem verdadeiros cidadãos, com acesso à instrução, à informação, ao desenvolvimento pessoal, humano e profissional. Monteiro Lobato, um raro mestiço com presença social, sugeriu no senado da recente “república” um programa de alfabetização para as vítimas da escravidão, até como uma reparação às incalculáveis injustiças sofridas por séculos. A pergunta que ouviu de um senador — um latifundiário do café, então um dos maiores produtos de exportação — é simbólica e explica a posição da elite até hoje:

“ô Lobato, se ensinar essa negrada a ler e escrever, quem é que vai pegar no cabo da enxada?”

A ignorância sustenta a escravidão, informalmente. É a natureza hipócrita do sistema social em que vivemos. É uma sociedade escravista. A “república” proclamada por banqueiros e latifundiários nunca teve nada de república. Fala-se em nome do povo sem se levar em conta as necessidades e os direitos do povo. A base da sociedade é o trabalho escravo, braçal, ignorante, desinformado, inconsciente da estrutura social pela própria formação estrutural. Os luxos e privilégios dos pequenos grupos dominantes necessitam da exploração brutal do trabalho e, pra isso, direitos humanos e constitucionais, tidos como fruto do desenvolvimento humano, das sociedades e das relações entre as pessoas, são roubados à esmagadora maioria da população.

O desenvolvimento espiritual, moral e afetivo demora mais a chegar na minoria mais rica, pois é quem depende da exploração pra manter privilégios, excessos, luxos e poderes. Ali se valoriza apenas o desenvolvimento tecnológico — inclusive pra servir à manutenção desse estado de coisas.

A maior das crises é a moral. Essa tem sido permanente em meio à farsa apresentada como democracia

A espiritualidade foi feita refém de religiões que, ao mesmo tempo que funcionam como controle de grupos, servem à formação de divergências e divisões, separando, segregando e impedindo a união e a solidariedade irrestrita como elemento agregador e harmonizador na coletividade. A nível institucional, não há ligação entre religião e espiritualidade. Na arrogância religiosa, não basta perceber a interação entre várias dimensões, a existências de realidades além da matéria como a conhecemos. É preciso explicar, entender e acreditar. A razão humana, tão precária e restrita, a mesquinha a espiritualidade. E a espiritualidade mesquinha é um elemento conservador da estrutura social, um obstáculo ao desenvolvimento verdadeiro na formação de uma sociedade sem excluídos, sem miséria, sem ignorância. Um entre tantos elementos estratégicos armados pra manter o domínio de tão poucos sobre o todo, tentativas de parar a mutação natural de tudo o que existe. Nada fica como está e, quando se bloqueia o fluxo das coisas, há um gradual acúmulo e depois é a avalanche que leva tudo de arrasto. É o que estamos vendo acontecer a nível planetário.

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Alguns anos atrás, a organização Repórter Brasil divulgou uma pesquisa concluindo que quarenta mil pessoas são escravizadas por ano, no país. Naquele mesmo ano, as equipes estatais de busca e eliminação de trabalho “análogo” à escravidão — um total de seis, chamadas força-tarefa, pra todo o território nacional — anunciava a libertação de quinze mil trabalhadores encontrados nestas condições, de fazendas amazônicas às fabriquetas de roupas pra grifes famosas, em São Paulo. Dos outros vinte e cinco mil, não se falou. O centro de importância da nossa atual sociedade está longe do ser humano. Mais importante que a vida é o lucro e o patrimônio. E os privilégios de uns poucos consomem direitos da esmagadora maioria. É preciso ver a realidade como ela é — e limpar a visão de mundo das lentes distorcedoras que nos impõem — pra conseguir decidir o que fazer, sem as induções e condicionamentos que são a marca registrada deste sistema. De outra forma, decidimos como induzidos, como fomos condicionados — e até as contestações são feitas da forma programada, incapazes de tocar na estrutura social tão profundamente quanto é preciso pra torná-la menos injusta, perversa, covarde e desumana.