Ele vai embora…
Fui convidado pra conhecer os pais do meu namorado.
Não os pais, o pai. A mãe já começa a chorar quando ouve meu nome. Conheci o sogro, ele não conseguiu olhar na minha cara. Não me senti surpreso. A gente que é LGBTQ+ sempre espera o mau trato.
Mau trato que segura, mau trato que impregna.
Impregna por que meu relacionamento atual teve um relacionamento heterossexual anterior. E pra mim, é inevitável pensar que a situação fosse diferente se fosse ela no meu lugar.
Será que haveria tanta resistência, tantos problemas, tanto tabu no momento que ela entrasse naquela casa ao invés de mim?
Obviamente que não.
Possivelmente ela seria convidada pra festa da família no natal depois de 15 minutos de bate-papo.
Pra mim, a conversa é negada. Não interessa nenhum dos meus atributos e qualidades.
"Ele influencia meu filho, ele é o demônio, ele que trouxe essa maldição pra dentro da minha casa."

Essas frases não me foram ditas diretamente, mas na minha mente elas são recorrentes e constantes por quê a gente ouve isso o tempo todo.
A influência é mais fácil de encarar do que a realidade.
É mais fácil achar que o mal vem de fora do que entender que naturalmente as pessoas nascem do jeito que nascem.
Mas tudo bem, eu não me importo com o que os pais do meu namorado pensam sobre mim e nem sobre o que os meus pais pensam sobre ele.
Mas e se ele perceber isso?
E se ele, que já teve essa vida normativa antes de mim perceber tudo isso que fica rondando a minha mente antes de dormir? E se ele achar que a luta não é válida e desistir de mim? Não é difícil perceber a razão pela qual a população LGBTQ+ sofre com tantos níveis de estresse e ansiedade por que…
… toda noite eu me pergunto: e se ele for embora?

