Diário do Ninho de Escritores #5

Tempo para sentir, para manter o leitor e para treinar

Os aprendizados deste texto foram vividos no Círculo do Ninho de Escritores por Wallace Martins, João Bueno, Ana Carolina e Rafaella Caropreso e colhidos e comentados por mim, Tales Gubes.

Aprendi que sentir demanda tempo para perceber e muitas palavras para descrever

O texto acontece num tempo diferente do tempo da experiência tanto para quem escreve quanto para quem lê. Mas para escrever, precisamos da disposição de parar, perceber e refletir. A escrita é uma arte que pede por demoras e desvios, do contrário deixamos passar a riqueza maravilhosa da vida.

Você já parou para pensar o que há depois da sua janela? O que você vê? Ouve? Cheira? O que significa tudo isso que você percebe?

Aprendi que escrever sobre a negação de algo pode nos levar a um novo lugar

Há temas que não gostamos ou que achamos que estão equivocados. Tudo bem, podemos escrever sobre nosso desgosto ou sobre as razões do equívoco. O que devemos evitar é a paralisia por análise ou, pior ainda, deixar de escrever porque um tema não nos move o suficiente.

Se uma ideia ainda não está nos afetando, o jeito é olhá-la por outro ângulo, um que faça mais sentido. Escrever precisa fazer sentido.

Aprendi que o sensorial pode determinar a forma de escrever sobre alguma coisa/algo e também ser uma forma de compreender o mundo

Se um personagem ama músicas, é possível que sua relação com o mundo seja diferente daquela que vive alguém cuja experiência seja mediada principalmente pela visão. O que dizer de pessoas sinestésicas, cujas sensações se misturam?

Aprendi que manter o texto num único tempo verbal ajuda o leitor a se manter imerso na narrativa

Leitores se distraem com facilidade (escritores também, mas essa é outra história, senão me distraio também). Cada recurso literário que interrompe o fluxo da narrativa é um convite para que o leitor baixe o livro, mesmo que por um segundo. Esse convite já acontece a cada virar de páginas e cada notificação de celular, então o melhor que podemos fazer é manter o leitor imerso na história.

Um jeito de fazer isso acontecer é por meio do tempo verbal: ele sustenta a ação no mesmo lugar quando os verbos partilham o mesmo tempo. Se trocamos o tempo verbal — por exemplo, para comentar no presente algo que vivemos no passado — fazemos o leitor ir e vir, o que pode nos levar a perdê-lo. Não perca seu leitor.

Aprendi que a escrita, às vezes, nos leva a lugares aos quais não estamos prontos para acessar

Acredito que escrever tem a ver com compartilhar verdades. Quando falo em verdade, não estou falando de “ah, isso é fato para o mundo inteiro” e sim de como determinadas situações e sensações são profundas e verdadeiras para nós que escrevemos. Em geral, as nossas verdades ressoam com outras pessoas e dão força para nossa literatura.

O difícil é que não vivemos em uma cultura aberta à verdade. Somos tão treinados em fingir que está tudo bem e em não querer incomodar ninguém que com frequência ignoramos nossas próprias dores e desejos.

Quando escrevemos, se fizermos nosso trabalho com intensidade, essas dores e desejos podem ficar expostos. Cabe a nós decidir, a cada momento, com o que estamos dispostos a lidar.

Aprendi que a escrita é como musculação, a necessidade de treinos é mandatória

Escrever é um ofício cujo aprendizado é contínuo. Infelizmente, curso algum ensina tudo o que há para se aprender sobre literatura porque cada novo texto nos impõe desafios até então desconhecidos. Como descrever um personagem diferente de mim? Como narrar uma cena de ação? Como explicar a cena de um crime? O brilho no olhar de quem vive um primeiro encontro amoroso? E um último encontro amoroso?

O que a gente aprende sobre escrita fica com a gente pela vida inteira, mas o que aprendemos informa o que percebemos, então estamos o tempo inteiro desenvolvendo novas formas de sentir o mundo. O próprio tempo do sentir é informado pela escrita, por aquilo que estamos dispostos a observar.

Os melhores escritores são os perseverantes.


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