Os 8 elementos do estado de fluxo (Mihaly Csikszentmihalyi)

Fui a uma palestra chamada Os caminhos do Flow, que me deixou cheio de pensamentos sobre o que é estar presente e inteiro nos processos criativos. O que a Verena Pessim e a Paula Macedo trouxeram foi baseado em uma pesquisa feita a partir do trabalho de Mihaly Csikszentmihalyi acerca do “estado de fluxo”.

O estado de fluxo é algo que muitos de nós, senão todos, já experimentamos. É aquele instante em que estamos completamente entregues a uma determinada prática ou momento.

Estado de fluxo

Quando temos baixa habilidade junto a um desafio pequeno, o resultado costuma ser a apatia.

Conforme nossa habilidade aumenta, mas o desafio se mantém estável, evoluímos da apatia para o tédio, do tédio para o relaxamento.

Se aumentamos apenas o desafio, ultrapassando nosso nível de habilidade, saímos da apatia para a preocupação e, eventualmente, para a ansiedade frente a um problema que não conseguimos resolver.

O estado de fluxo surge quando equilibramos uma habilidade afinada com um desafio provocativo, que nos estimule a experimentar e buscar problemas ou soluções novos.

São oito características que definem o estado de fluxo:

  1. As metas são claras. Enquanto estamos no estado de fluxo, sabemos o que deve ser feito e não perdemos tempo considerando se os objetivos são pertinentes ou não. Um jogador de basquete sabe qual seu objetivo de forma tão intensa que não precisa parar e refletir sobre elas durante o jogo. Como escritor, quando entro em estado de fluxo, paro de me questionar sobre o que farei com o texto e passo a lidar apenas com como farei o texto.
  2. O feedback é imediato. Por conhecer seu trabalho e saber o que deve ser alcançado, o sujeito em estado de fluxo independe de retornos, opiniões e críticas externas, sendo autossuficiente para dar continuidade ao processo que está desenvolvendo.
  3. O que importa é o presente. Em estado de fluxo, nós desfazemos as memórias do passado e as ilusões do futuro e nos centramos naquilo que está de fato acontecendo.
  4. A noção de tempo fica alterada. O estado de fluxo interrompe nossa percepção de tempo, fazendo com que períodos longos se pareçam com instantes. Quando estamos imersos num processo criativo, por exemplo, podemos nos surpreender ao olharmos um relógio e descobrirmos que várias horas já se passaram.
  5. A concentração se aprofunda. Enquanto experimentamos o estado de fluxo, a distinção entre pensamento e ação desaparece. Não precisamos refletir sobre qual é o próximo passo porque já estamos dando o próximo passo, de tão imersos que ficamos no processo.
  6. O controle não é problema. Durante o estado de fluxo, chegamos a um patamar de confiança em nosso próprio processo no qual prescindimos da preocupação de fazer certo, pois acreditamos naquilo que estamos fazendo. O estado de fluxo é um estágio de serenidade semelhante ao treinamento de artistas marciais, que não vivem em estado de alerta constante — e sim de preparo e presença.
  7. Há equilíbrio entre capacidade e oportunidade. A confiança e presença que marcam o estado de fluxo se manifestam na percepção das oportunidades, uma percepção que só é possível porque estamos preparados para notá-las e agir a partir delas.
  8. O ego se perde. Em estado de fluxo, nos envolvemos com atividades que são maiores do que nosso próprio ego. Quando escrevo um texto, ele é maior e mais importante do que eu e do que os louros da criação. Se ele ficar um bom texto, ficará porque estou dedicado a ele e não porque quero ser reconhecido.

É importante marcar que o estado de fluxo é diferente de um estado de distração. Assistir televisão ou acompanhar novidades no Facebook certamente nos tira a noção de tempo, mas não nos desafia, tampouco estimula a utilização de nossas habilidades. Para Csikszentmihalyi, essa é uma distinção essencial.

Vários são os obstáculos que se interpõem entre nós e o estado de fluxo: a preocupação com o resultado final, a ansiedade, o medo do julgamento, a necessidade de aprovação externa, a expectativa, a culpa, as motivações extrínsecas para o agir, as distrações, a insegurança, a crença de que somos multitarefa, a falta de foco ou propósito, a inquietude (diversos tipos de poluição visual e sonora), o sentimento de que não estamos sendo desafiados, o medo de não conseguir (quando o desafio é grande demais), o ego, a competição.

Como escritor, considero importante observar quais momentos de escrita são vividos em estado de fluxo, pois certamente não são todos. O que me coloca em fluxo? Mihaly Csikszentmihalyi sugere que é a combinação de alta habilidade e desafio inspirador.

Parece que tenho aqui um bom estímulo para continuar me desafiando enquanto escritor, ao invés de sossegar na escrita de textos que já consigo fazer sem pensar.

É algo que desejo experimentar. :)


Originally published at Tales Gubes.