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Está no manual? Ignore.

por Rubens Aguiar

Bastam alguns minutos na internet para você ser impactado por posts, tweets, mensagens ou artigos do tipo "5 dicas de profissionais", "as 10 lições top", "3 passos para", "como fazer", "descubra o segredo" e por aí vai. Inventaram um manual para se dar bem em tudo e eu não sabia.

Ok, aprender com a bagagem dos outros é valido. Muita gente já se deu bem com projetos, ideias, empresas e compartilha o que aprendeu. Mas muito mais do que certificar o que funciona, a experiência aponta exatamente para o oposto. Experiente é o sujeito que sabe, de carteirinha, o que não dá certo. O sujeito foi lá, pensou — ou nem tanto–, realizou, botou a cara a tapa e se estrepou. Diferente do estereótipo do bem-sucedido, o experiente que se preza foi um fracassado no passado. E, de alguma maneira, se regozija disso. Ele aprendeu que a riqueza da vida está sobretudo no aprendizado real adquirido com suor e lágrimas, sob temperaturas tórridas e tempestades imprevisíveis, e não em manuais estéreis. A experiência forjada no fracasso é a que impregna a gente do que chamo de "sujeira do mundo". Aliás, adoro um poema da escritora Julia Panadés que diz: "jamais terei ideias limpas; só penso quando me sujo de mundo" (sem julgamentos morais, por favor).


Fracassar não é o fim do mundo, pelo contrário. Em um estudo sobre o ecossistema de inovação no Vale do Sílício, na Califórnia, o programa Novos Paradigmas para Inovação, realizado pela PUC do Paraná, descobriu que os gringos de lá valorizam a experiência de quem já fracassou em um empreendimento quando se está empreendendo novamente. Assim, esta é a principal contribuição do experiente: mostrar aos outros — e para si mesmo — que é preciso se arriscar de novo, fazer diferente, errar novos erros, em vez de seguir pelo caminho que tenta enquadrar as ideias, as pessoas e o mundo numa fórmula mágica que possa ser seguida em passos, lições ou o que quer que seja.

Quando alguém se diz experiente e, por isso, fala com certeza sobre caminhos futuros, duvide. Sobre o futuro, somos todos inexperientes. Ele nos iguala. Coloca iniciantes e veteranos no mesmo patamar. E isso é genial.

Ser ou imaginar ser, eis a questão.

Vivi tempos turbulentos nos meus 20 e poucos anos. Desilusões de toda sorte: pessoais, familiares, amorosas, profissionais. A cada novo episódio, era dilacerado pelas emoções. Mas algo curioso acontecia. A vontade de viver era tão grande que pouco me importavam os infortúnios. Se aquele era o preço a ser pago para descobrir o meu caminho, estava disposto a pagá-lo. Nos arroubos da juventude, viver intensamente até as últimas consequências era o que valia a pena, fossem alegrias ou tristezas. Preferia isso a viver de maneira medíocre. Ainda bem.

Procurar a trilha mais fácil, percorrer os caminhos já trilhados buscando segurança faz parte da natureza humana. Afinal, ninguém quer se dar mal em um relacionamento ou fracassar em um negócio. E é exatamente aí, na brecha da busca ilusória por segurança, que os manuais faturam alto. Se alguém já fez e deu certo, pra quê eu vou arriscar e tentar fazer diferente? A resposta dada por um amigo há muitos anos é irônica mas sábia: "não arrisque porque periga você conseguir".

Outro dia, participando de uma concorrência na agência, decidimos testar um jeito novo de trabalhar, mais colaborativo e interdisciplinar, abrindo mão do processo tradicional com que tocamos tradicionalmente esse tipo de job. Durante o trabalho, uma colega se aproximou de mim e, com a expressão apavorada, disse que não tinha a mínima ideia do que deveria fazer naquele momento; que, no processo tradicional, ela produziria determinados documentos e faria algumas reuniões com determinadas áreas. Eu segurei sua mão e disse: "fique tranquila, porque eu também não faço a menor ideia do que fazer agora. Vamos sentar e pensar nisso juntos?". Foi libertador. A expressão de pavor cedeu lugar ao alívio e à vontade de encontrar soluções para os problemas que tínhamos de resolver. Ao procurar um dos líderes do projeto, diante de tantas incertezas, ela esperava que eu apontasse o caminho a seguir. Mas naquele momento, não havia caminhos prontos ou rotas pré-estabelecidas — nem mesmo alguém que pudesse dar uma falsa sensação de segurança. Juntos, irmanados na total obscuridade, demos as mãos e experimentamos os primeiros lampejos da inovação. Preferimos ser algo novo a apenas falar em ser.

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