“Por que você continua solteira?”

Stray K
Stray K
Aug 28, 2017 · 6 min read

Alguns motivos pelos quais a “carreira solo” ainda é uma opção

Perdi as contas de quantas vezes eu já ouvi a frase que dá título a esse texto e de quantas vezes a respondi com um sorrisinho vago e um silêncio que talvez respondesse muita coisa ou, absolutamente nada.

Uns 4 anos atrás, inclusive, minha mãe me perguntou algo parecido mas, de outro modo (mais explícito): “Minha filha, você não se sente triste por viver sozinha?”. Eu até entendi a pergunta vinda dela afinal, 46 anos vivendo com o mesmo homem (meu pai), deve ter feito com que ela não lembre o que é ser solteira — ou como diz um amigo meu, “seguir carreira solo”.

Para a minha mãe — talvez pelo respeito para com ela — senti que eu precisava desabafar (ainda que sucintamente) e foi mais ou menos isso que eu disse:

Estar com alguém não significa necessariamente ter companhia

Conheço casais (na minha família mesmo) que passam a semana inteira trabalhando, estudando, e no fim de semana em que poderiam estar juntos (por viverem sob o mesmo teto), estão ocupados com seus compromissos individuais (não estou criticando a individualidade mas outra coisa): o homem socializando com os amigos, no bar ou no futebol e a mulher fazendo a faxina que não pôde fazer durante a semana ou cuidando praticamente sozinha dos filhos do casal (“porque o papai precisa descansar depois do almoço”).
Quando não fazem isso, um está mexendo no computador / no smartphone e o outro vendo tv. Não há interação e, se há, é muito breve — durante a refeição — tendo como temas principais as tarefas a serem realizadas ao longo da semana (trabalho e estudo) e /ou as despesas domésticas.

A sociedade ainda tem preconceitos contra a mulher solteira

“Suas irmãs casadas e só você solteira?!?” (como se fosse um indicativo de que elas são felizes e eu sou uma ‘peça com defeito’, uma pessoa ‘difícil’ ou ‘rebelde demais’ para ceder a um marido babaca).
Eu ainda posso me permitir ter sonhos e fazer o possível para que eles se tornem reais. Posso investir nos meus estudos (extensão acadêmica e outras especializações) sem ter medo de ouvir um “sinto vergonha de não ter estudado tanto quanto você” (típica chantagem emocional de quem não tem estrela e quer impedir que a do outro brilhe, parafraseando os parachoques de caminhão).

“Nunca te vi com namorado… achava que você fosse sapatão, sabia?”. A proprietária do imóvel onde resido me disse isso, ao observar que eu nunca recebi nenhum homem na minha casa.
Certamente não passou pela cabeça dela que eu sou uma pessoa bastante reservada e não é qualquer pessoa que frequenta meu lar.

“Sua irmã (no caso, eu) é uma mal-comida, infeliz”. Um cunhado meu disse isso para a minha irmã mas, eu não sei quais critérios ele utiliza para classificar a vida sexual e a felicidade alheia. Talvez se eu tivesse um marido /namorado, eu suspiraria o tempo todo, em todos os lugares. É isso mesmo? Nossa… preciso de um marido /namorado e de um inalador então, agora!

Desrespeito à individualidade do outro

Um dos maiores equívocos da vida a dois é embarcar no discurso “Agora somos um só”. O que poderia ter uma simbologia poética, romântica, é levado ao pé da letra e o repertório de cada um parece ser jogado no lixo assim que há a troca de alianças.
A grande graça do casamento poderia ser o compartilhamento desses repertórios individuais: um aprender com o outro e juntos, descobrirem coisas novas (falo de coisas triviais como, um ensinar o outro a cozinhar ou a jogar videogame, por exemplo).

Por que será que, durante o namoro as coisas são de um jeito e durante o casamento tendem a piorar? Os(as) amigos(as) do(da) namorado(a) passam a ser “insuportáveis”, o happy hour sem o(a) parceiro(a) passa a ser visto como uma possibilidade de traição, os hábitos — que antes eram aceitos — começam a ser questionados. Por que, hein?

Traumas de uma vida a dois

Quem nunca teve um(a) namorado(a) psicótico, talvez não entenda muito essa parte.
Mas, imagine se você dissesse ao(à) seu(sua) namorado(a): “Se quiser sair nesse final de semana com seus(suas) amigos(as), por mim tudo bem. Talvez eu saia com as(os) minhas(meus) amigas(os) também” e em resposta ouvisse: “O que é? Está querendo aprontar alguma comigo, me ‘dar um perdido’ (trair)?”.
Ou imagine algo ainda pior: seu(sua) namorado(a) acompanhando em tempo real a tela do seu computador pessoal para monitorar toda a sua atividade digital, à procura de qualquer coisa que a(o) desabonasse enquanto namorada(o).

Sim, acredite, eu já passei pelas duas situações. Eu não podia prezar pela conservação da individualidade, porque era mal interpretada. E, pasmem, eu namorei um cara que, sem que eu soubesse, acessava remotamente o meu computador.
Eu soube porque, num determinado dia, ele começou a citar conversas que eu tive entre amigas num aplicativo de mensagens instantâneas (o antigo MSN). Chegou inclusive a perguntar se eu já o traí com uma amiga (que eu inclusive considerava como uma irmã), por ter descoberto — através das conversas — que ela é lésbica e gostava de uma amiga nossa em comum.
A intenção dele era saber se eu o traía (mesmo sem nunca ter dado motivos para essa suspeita), mas quem foi traída? Eu, ao ter a minha privacidade estuprada, e o mais grave: outras pessoas tiveram suas vidas íntimas vasculhadas, seus segredos expostos (sem que soubessem). Sinto muita, muita raiva quando lembro que passei por isso.

Nós, humanos (ainda que em alguns casos inconscientemente), associamos fatos / coisas / pessoas a sentimentos. Se relacionamentos passados causaram traumas, é evidente que sentiremos medo de tentar novamente (ainda que com outras pessoas), pois leva um certo tempo para que certos danos sejam definitivamente superados (ou para que estejamos reconstruídos o suficiente para uma nova relação).
Será que ninguém se dá conta disso antes de perguntar “Por que você continua solteira?” quando se referem à sua vida afetiva (ou à inexistência dela)?

Em alguns casos, há os que optam pela “carreira solo” pelo receio de perderem sua liberdade, sua individualidade — ao terem como exemplos esses casais formados por pessoas que insistem em moldar seus parceiros a seu modo. Não os julgo.

Ser casada(o) ou ter um(a) namorado(a) pode não ser tão ruim… desde que você perceba que 1 + 1 = 2, cada qual do seu jeito, um aceitando o outro apesar do que ele(a) é, o(a) amando mesmo assim. Desde que você não seja obrigada(o) a romper amizades ou vínculos familiares porque seu(sua) parceira “não vai com a cara” deles (que, ironicamente, podem ser seu único “ombro amigo” caso uma futura separação ocorra).

Pelas péssimas escolhas que fiz, eu poderia ter uma lista de argumentos contra a vida a dois mas, não.
Eu continuo indo aos casamentos das minhas amigas, acompanhando as mudanças positivas que um relacionamento saudável possa ter trazido às suas vidas e sigo torcendo para que continuem em clima de Lua de Mel constante, a cada ano celebrado ao lado da pessoa que encontraram.

O fato é que, apesar da “solteirice” parecer uma alternativa às privações da vida a dois, ela pode ser sua única opção; principalmente quando você se percebe mais seletivo em suas escolhas (talvez seja esse o único ponto positivo trazido pelos erros anteriormente cometidos).
Ela faz com que você aprenda a conviver consigo mesmo e com a solidão. Eu precisei disso para amadurecer (talvez você precise do oposto… quem sabe?).

O lado ruim é não ter com quem compartilhar algo muito bom que tenha acontecido no seu dia, alguém que cubra o seu pé descoberto durante a madrugada, alguém com quem tomar o café da manhã… isso às vezes faz uma falta danada e eu não sinto a menor vergonha de reconhecer.

Nobody Cares

Tentando viver em meio ao caos

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INTJ but… Who cares?

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