Canção de ninar

+18 (Não recomendado para pessoas sensíveis)

A dor intensa tornava a respiração quase impossível. Pelo canto da boca, o sangue escorria, assim como a lágrima que naquele momento, parecia decretar o fim de sua existência.

Sobre as folhas secas da floresta que tão bem conhecia, agora agonizava seu corpo inerte. Braços abertos e em sua mão direita, com toda a força que ainda lhe restava, segurava uma fita de cetim, dourada.

Tentava tossir, numa vã tentativa de limpar os pulmões, agora enfraquecidos pela fumaça que inalava não sabia-se ao certo durante quanto tempo. Ao longe ouvia estalos semelhantes aos de lenha queimando numa fogueira.

Tentou levar ao menos uma de suas mãos ao tórax, que doía como nunca antes. Era impossível. Sentia apenas dor… e frio, muito frio. Mas não tremia, apesar da hipotermia que prenunciava o ponto final de tudo, inclusive daquela agonia.

Não queria partir daquele modo, ali, na floresta que um dia abrigou suas brincadeiras de infância, suas reflexões de adolescência e até pouco tempo atrás, suas aflições da recém-iniciada fase adulta. Pela primeira vez, desde seu nascimento, deu-se conta de quão necessário era viver.

Por mais difícil que fosse respirar, por mais dilacerante que fosse a dor em seu peito, por mais intenso que fosse o cheiro do sangue que lhe forrava a cama de folhas (não mais secas, mas encharcadas), não se entregaria. Não naquele momento.

Manteve os olhos abertos, o olhar fixo na direção da copa daquela árvore frondosa, por onde passavam alguns feixes de luz da lua cheia que agora iluminava seu rosto.

Tentou cantar uma antiga canção de ninar, pensando que, enquanto ouvisse sua própria voz, ainda estaria agarrada à vida. Lutava para que seus olhos não se fechassem. Enquanto visse luz, pensou, não permitiria que as trevas da morte a levassem embora.

A voz não saía, pois sua boca balbuciante, em vez de som, expelia sangue suficiente para atrair os predadores. Apenas lembrou-se da canção de ninar (que não conseguia cantar) e de usar suas últimas forças para manter-se respirando, de olhos abertos.

Era impossível, apesar de todo o esforço. Os olhos se fecharam. Silêncio.

O silêncio da floresta fora interrompido pelo pio da coruja aninhada em uma árvore oca, a cerca de 20 metros de distância daquele corpo que jazia sob alguns feixes de luz (da lua).

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Eis que, em meio à escuridão, surge a luz de uma tocha que se aproxima. Dois cães latem, incessantemente, enquanto seu condutor os afasta. Os animais obedecem e observam à distância.

O homem (ruivo, de barba cheia, alto e forte como um viking), num misto de curiosidade e desconfiança, se aproxima do corpo estendido, enquanto outras tochas juntam-se a esta primeira, iluminando a área. Espanta-se ao ver a flecha cravada no peito e, de repente…

“Está respirando! A moça está respirando! Ajudem, rápido! Ajudem!”

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(Continua…)

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