Clair de Lune
Foi quando eu me dei conta de que a música tocou…
Por mais racional e fria que eu pareça, vez ou outra sou tomada por uma quase vontade de me despir dessa armadura que me cobre o corpo.
Há alguns dias — umas duas semanas talvez — , assistindo um dos meus filmes prediletos, senti um nó na garganta e um aperto tão forte no peito, que me dei conta de que ainda sou… humana(?).
Soaria redundante dizer que o filme era japonês e que não poupava da dor nenhum de seus personagens — o pai, a mãe, os filhos… todos sofriam, a seu modo, em silêncio. Carregavam dentro de si seus fardos sem que ninguém além deles soubesse o quanto viver pode ser doloroso, apesar da aparente “normalidade”.

Na cena final, o menino toca magistralmente “Clair de Lune” (de Claude Debussy) no piano, numa clara expressão de que, apesar do fardo que carregava, ainda era apenas um menino.
Como em todas as vezes em que vejo esta cena, pensei nos fardos que eu também carrego, nas privações que me imponho e no quanto me acostumei a buscar explicações racionais para certas aflições (“A Neurociência explica”, “A Psicanálise fornece subsídios”).
Pensei na raiva que passo a sentir de pessoas das quais antes eu suspeitava gostar — começo a caçar defeitos, para dissipar qualquer possibilidade de idealização e percebo que esta é uma estratégia para não “me deixar levar” (será que é assim que se evita uma paixão?).
Não me obrigo a sorrir o tempo todo, não repito diante do espelho coisas sobre as quais não tenho certeza (“Eu me aceito como eu sou”, “Eu me amo incondicionalmente”, “Eu sou maravilhosa” ou outra dessas frases de autoajuda que atualmente povoam as mídias sociais), não desejo alguém que eu sei que não existe.
Mas, dias atrás, tive a sensação de que as luzes ao redor se apagaram e, sob um único feixe de luz, vi o motivo que fez com que “Clair de Lune” tocasse em minha mente.
Apesar das minhas dores, da minha armadura e da minha racionalidade, permiti que a música me envolvesse como num abraço. Foi como se eu me reconhecesse… humana(?).


