Morning sun

Não era apenas um quadro; era um quadro sobre…

Meu pais cultivavam um hobby, digamos, peculiar: a montagem de quebra-cabeças (sempre depois do jantar). Eram dedicados: levavam algumas semanas juntando peças que ao final, revelariam paisagens incríveis, que eu acreditava piamente que um dia pudesse conhecer.

Trabalho concluído, meu pai passava cola sobre as peças (que já estavam dispostas sobre uma superfície de madeira, previamente medida), esperava secar, envernizava e mandava emoldurar.

Pelas paredes de casa, os mais diversos lugares do mundo, estampados em 2 mil, 3 mil ou mais peças. As visitas chegavam e meus pais pareciam guias de uma galeria: “Aqui é Veneza. 2.326 peças, levamos 15 dias para concluir.”, “Aqui são os alpes suíços. Que coisa linda, não? Mas foi um desafio, porque são muitas peças branquinhas [de neve]. Demoramos 1 mês e 20 dias.”
A cada “Uau!” que as visitas proferiam, eu só conseguia me sentir contente por eles.

De verdade, aquilo me enchia de orgulho. Meus pais eram organizadíssimos com seu hobby: reservavam a mesa de jantar da sala para tal (enquanto não terminavam, jantávamos todos na mesa vermelha da cozinha), anotavam os dias e tinham plena confiança de que nenhuma peça se perderia até a conclusão. As quatro filhas tinham respeito e até um certo receio em, de certa forma interferir no resultado de tanta dedicação.

De tanto ouvir o script das “visitas guiadas”, eu acabei decorando os nomes dos lugares, a quantidade de peças e o tempo empregado em cada um daqueles quebra-cabeças. Havia dias em que eu simplesmente olhava para uma daquelas paisagens em me via nelas.

Esse olhar atento, foi algo que sempre carreguei comigo. Era assim com os quebra-cabeças, era assim com pinturas, filmes… Foi assim com Morning Sun, pintura de Edward Hopper (1952).

Aquela mulher (seria alguma musa de Hopper?), sentada na cama, de frente para uma janela (por onde a luz do Sol entrava), me fazia pensar… no que ela estava pensando? Ela se sentia só? Pensava em alguém? Sentia saudade? Relembrava momentos de sua própria vida? Admirava o espetáculo do Sol surgindo diante de seus olhos? Vislumbrava como seria seu futuro enquanto encarava o horizonte?

Sempre que olho esse quadro, me dou conta de que é o momento da vida dela (naquele instante) que vai determinar o que ela pensa enquanto olha em direção àquela janela.

Eu ainda conservo o hábito de, secretamente me teletransportar para dentro dos quadros. E de me permitir fazer parte deles.

Eu me imagino tendo um “muso”, do tipo “desprovido de qualquer vaidade estética” (mas perturbadoramente inteligente — existe algo mais atraente que isso?), sentado ao ar livre num dia de sol. Na mesma posição da mulher de Morning Sun, ele olha para o horizonte, enquanto a luz do sol (que banha seu corpo) me dá a impressão de que ele é o mais brilhante dentre os planetas da galáxia.

Observando-o a uma certa distância (como na mesma perspectiva de um Edward Hopper dentro de seu quadro), mal consigo piscar, tamanho é o medo que sinto de perder um segundo que seja daquela imagem. Nem me dou conta de que tenho um sorriso tolo em meus lábios.

Quando ele percebe que eu o observo, olha em minha direção e retribui o sorriso. Minha vontade, naquele momento é “passar cola sobre suas peças”, “emoldurá-lo” e me teletransportar para dentro daquele planeta. Sair de órbita, me perder, sem pressa.

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