O Abismo

ou O que sobrou de quem você foi um dia?

Reavaliar o passado pode ajudar a entender quem você é hoje. Ou não.

Há cerca de 1 mês, eu estava separando alguns papéis para descarte e liberação de espaço aqui em casa, quando vi que, entre documentos, fanzines e ingressos plastificados de shows (guardados há mais de 10 anos), haviam cartas que eu havia escrito, mas não havia enviado. Não porque eu tivesse sentido vergonha de enviá-las, mas, porque eu tive vontade e principalmente, coragem de dizer pessoalmente tudo aquilo que se resumia a algumas linhas caprichosamente escritas (e hoje eu lamento não ter a mesma caligrafia de outrora… tempos modernos, nos quais as canetas perderam espaço para os teclados).

Eu li todas aquelas cartas — sim, todas, sem exceção — e fui tomada por uma enxurrada de emoções, que me fizeram chorar como há tempos não chorava. Senti compaixão pela adolescente que eu era (talentosa com as palavras, com o dom de usá-las para traduzir sentimentos que, àquela época, eu acreditava piamente ser correspondidos), senti vontade de voltar no tempo e dizer a ela: “Não seja tão ingênua, não fale demais, não se entregue demais”, “Tome cuidado!”, “Não faça isso!”. Também senti vergonha de mim mesma, por ter sido tão… trouxa.

Desperdicei um repertório de coisas boas, de palavras, de ações, com pessoas que simplesmente não se importavam nem um pouco comigo e com o que eu sentia. Hoje, a mulher que sou, não faria como aquela garota. Definitivamente, não.

Minha adolescência foi intensa: me apaixonei várias vezes, mas não sei dizer se amei. Acho que não e isso me traz uma certa sensação de alívio, de menos dor. É como se eu tivesse sido menos idiota do que eu sei que fui.

Entre a mulher que sou e aquela garota que fui, existe um abismo que delimita nossas diferenças. Eu era mais corajosa ao dizer o que sentia, mas isso era como baixar a guarda esperando o nocaute. De qualquer forma, eu não me importava se seria julgada; eu simplesmente seguia meus instintos e tinha a [falsa] sensação de estar viva justamente por isso.

Hoje, confesso, não tenho traço algum do destemor daquela garota que fui. Penso várias vezes antes de tentar algo e finalmente desistir (isso vale para relacionamentos), não baixo mais a guarda, estou sempre na defensiva, com medo de apanhar da vida (mais uma vez).

Se para algumas pessoas o sofrimento constante faz com que se acostumem a ele, para outras, as cicatrizes emocionais as faz optar pela reclusão em seu próprio mundo. Este é o meu caso.

Sou desconfiada, ouço demais, não me entrego, tomo cuidado, não me deixo guiar por “instintos”. Troquei a coragem pela covardia, pelo recolhimento. Porque a verdade é que… ninguém se importa.

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