Pressentimento

(Continuação de “O Grito”)

A dor persistia mas, certamente de modo menos intenso do que nos dias anteriores. Deitada e sob os cuidados das três mulheres que se revezavam entre si para ajudá-la, sentia-se desnorteada — compreensível, dada a grave situação pela qual havia passado.

Abriu os olhos com uma certa dificuldade, e viu diante da cama, a velha senhora de pele craquelada. Tentou falar mas, a exaustão não lhe dava condições para tal. A mente também, parecia embaralhada; as idéias, desconexas.

“Não tenha pressa de saber onde você está. O pior já passou. Agora descanse.”, recomendou a mulher de cabelos brancos, que mesmo cansada, lhe sorriu como uma avó carinhosa.

Alguém bate à porta e a anciã atende. “Como ela está? Posso vê-la?”

Ela consentiu com a cabeça e o homem ruivo — aquele que parecia um viking e — que a socorreu em meio à floresta, aproximou-se do leito, respeitosamente tirando o chapéu e o comprimindo contra o tórax, numa demonstração confusa de aflição diante da condição debilitada na qual se encontrava a jovem e, alívio ao saber que o socorro prestado a tempo a salvou de um mal maior.

Ela viu nos olhos daquele homem aparentemente bruto, o mesmo olhar consternado lançado por suas três cuidadoras. Sem ter forças para falar, ela esboçou um nítido sorriso de gratidão, o que de imediato fez com que notasse que os olhos do “grande viking” estavam marejados. Imediatamente, ele virou-se para a anciã, que como uma mãe, acariciou seu rosto.

Às pressas, o homem deixou o aposento.

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Sem saber ao certo quanto tempo havia se passado — pela janela, percebeu o amanhecer, o cair da tarde, noites estreladas, dias de chuva e outros ensolarados — encontrava-se em condições de caminhar lentamente, já sem o amparo das três cuidadoras, que apenas a acompanhavam nos passeios matinais. A antiga cabana onde recebera os primeiros cuidados, tornara-se apenas um aposento distante da casa onde agora era hóspede.

Ainda não conseguia falar. Não apenas pelo abalo emocional mas também pela confusão mental que a assolava. Não sabia se seus frequentes pesadelos eram lembranças reais ou se eram fruto do trauma sofrido.

Às vezes tinha sonhos que lhe traziam mais dúvidas do que esclarecimentos sobre sua origem e sobre como chegou aos pés da frondosa árvore onde fora resgatada em estado grave.

Foi durante uma das caminhadas matinais, em companhia da mulher de cabelos negros (uma de suas cuidadoras), que parou em frente ao estábulo onde o “grande viking” alimentava os cavalos da propriedade. Curiosa, adentrou o local, e com a mão esquerda, tocou o mais arisco daqueles animais que, curiosamente, não esboçou nenhum movimento brusco ao ser tocado — para espanto do homem, a única pessoa capaz de domá-lo.

Enquanto tocava a crina do cavalo — que inesperadamente curvou-se diante do afago recebido -, espantou-se com a imagem que lhe veio à mente. Viu-se percorrendo um vale, montada sobre um cavalo tão imponente quanto aquele. A evidente habilidade com a qual comandava o animal (ainda que em lembrança — ou seria imaginação?) trouxe-lhe o pressentimento de que logo seria capaz de redescobrir quem era.

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(Continua…)

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