“Tanto faz. Ela não sente mesmo…”

Laura não é como as outras mulheres. Ela é fria, não sente, é quase um robô. Isso é o que dizem.

Laura sempre foi assim: “forte”, “dona de uma personalidade forte”, “durona”. Nunca foi de baixar a cabeça diante de quem quer que fosse (como um pugilista, não baixava a guarda), não demonstrava abalo emocional. Quem a conhecia dizia que ela parecia um robô, sem coração, sem sentimentos.

Ela não era uma pessoa ruim. Como amiga, era uma pessoa leal, boa ouvinte, sincera (não disfarçava a verdade: “Você o perdoou uma vez, duas, o acostumou a dar mancadas, pedir desculpas e ser novamente aceito. Já parou para pensar que talvez por isso você mereça ser feita de trouxa, repetidas vezes?”. Era assim que ela lidava com aquela amiga chorona, Rainha do Drama, que sempre a procurava para desabafar sobre suas desventuras amorosas). Ela ouvia, não dizia nada, oferecia o lenço de papel, mas em algum momento, ela não conseguia segurar a sinceridade. E isso era o que lhe fazia ser aquele tipo de amiga que você carrega dentro do peito, por 10, 15 anos…

Laura não chorava. Não diante dos outros. Nem mesmo quando, aos 7 anos de idade, ao cozinhar pela primeira vez (acreditando que estaria assim antecipando as coisas para sua mãe), ouviu a primeira crítica negativa (vinda da mesma mãe que ela queria agradar): “Que arroz horrível, empapado, parece arroz de japonês. Dá pra comer com palitinhos isso aqui!”.

Laura não disse nada, apenas permitiu que seu pai a abraçasse e dissesse: “Está delicioso! Eu adoro arroz molinho desse jeito. O seu arroz é o mais gostoso que eu já provei até hoje!”. Segurou a frustração por ter fracassado, se controlou para não jogar a panela no chão. E à noite, quando já estavam todos dormindo, “enterrou” sua cabeça no travesseiro, sufocando o próprio grito e chorou toda a raiva que sentiu na hora do almoço.

Ela era assim. Ouvia as críticas, mas se elas não viessem acompanhadas de um bom argumento, isso lhe dava o direito de mentalmente dizer “Foda-se!” e… seguir a vida.

Foi assim quando ela terminou seu estágio num restaurante (ela estudou Gastronomia) e ouviu de seu namorado à época: “Que bom que terminou seu estágio. Eu não aguentava mais aquele cheiro de comida em você. Parece que nem mesmo depois de você tomar banho você perdia aquele cheiro de cozinha”.

Ela simplesmente ouviu, sentiu muita raiva e decidiu que sua vida seguiria. Sem ele, mas com a comida.

Foi assim também quando um ex-namorado lhe disse: “Eu menti quando falei a você que Confeitaria era legal e que eu adorava chocolate meio-amargo. Na verdade, eu não aguento mais comer nada do que você faz pra mim. Eu não queria dizer mas, chego na minha casa e jogo tudo no lixo!”.

Ela simplesmente ouviu, sentiu muita raiva e decidiu que sua vida seguiria. Sem ele, mas com a comida e com a Confeitaria Francesa.

Ao contrário do que diziam, ela não era um robô, uma pessoa fria, sem coração. Ela só não era hábil em exteriorizar sentimentos — sim, ela os tinha e, pouquíssimas pessoas sabiam disso.

Encontrou na cozinha uma das formas de fazê-lo. Cozinhava para os poucos por quem ela nutrisse alguma consideração (descobria as preferências da pessoa e “voilà!”, lhe surpreendia com alguma iguaria que despertasse algum conforto alimentar). Essa era uma forma de dizer “Gosto de pensar em você enquanto coloco carinho numa receita” ou mesmo “Obrigada por ser legal comigo, quando ninguém costuma ser”.

Era preciso ter o mínimo de sensibilidade para entender que Laura usava suas habilidades desenvolvidas na cozinha para expressar seus sentimentos. Ela não cozinhava se não estivesse num bom momento. Dizia que isso interferia no processo criativo e na execução de uma receita, refletindo no produto final todo o estado psíquico / emocional do cozinheiro. Na verdade, era o sabor (ou a ausência dele) o que revelava às pessoas o que Laura sentia.

Foi um certo desgosto pela vida que fez com que ela trocasse um jantar saboroso por uma pizza de qualidade duvidosa (e massa fina que ela sempre detestou) num sábado à noite. O almoço de domingo por qualquer besteira num fast-food.

Laura não tinha mais para quem cozinhar. A família se dispersou, ela optou por uma vida reclusa. O bolo de chocolate seria demais para ela só. Vez ou outra, ela se contentava em folhear as páginas dos livros técnicos (de Gastronomia) pelos quais sempre teve apreço.

Agora, os livros estão encaixotados. Uma de suas irmãs provavelmente irá doá-los, pois ela era a única naquela família que realmente amava a alquimia da cozinha.

Foi-se o tempo em que ela cativava pessoas pelo estômago. No fim de semana de seu aniversário, ela assistiu alguns de seus filmes favoritos, preparou um banquete com os pratos que mais gostava (para a sobremesa, fez Tiramissu e Gâteau Opéra). Tomou alguns comprimidos para dormir e nunca mais acordou.

Deixou uma carta endereçada aos pais, pedindo desculpas por estar cansada, por não saber mais como lidar com a vida que, segundo ela, já não tinha mais nenhum sabor. Pediu que parte de suas cinzas fossem depositadas numa lata vazia de manteiga Aviação (a preferida de seu pai).

Update: “Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão”. Carl Jung

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